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segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Sobredotada (parte 2)

Tudo era diferente. As pessoas, os hábitos, os cheiros. Mas os que de facto gostavam dela acompanharam-na. Na verdade, o seu mais-que-tudo (nome carinhoso por que ela tratava o seu melhor amigo) ficou na turma dela.
Quando há mais que um a diferenciar-se, a diferença deixa de ser diferente. Estranho, hã? Mas foi o que aconteceu. Na universidade dela havia tantos estilos diferentes, tantos sotaques, tantos génios, que ela quase passava por normal. Não que ficasse contente com esse rótulo, mas era melhor que ser esmurrada. O tempo passou e tudo parecia correr bem, até ao dia em que descobriram o pequeno segredo dela. Na verdade, ela tinha pontos de vistas diferentes e gostos fora do comum. Não lhe interessava o Orlando Bloom ou o Johnny Depp. Preferia olhar mulheres. São escolhas, e ela tinha feito a dela uns anos atrás. Agora que tudo lhe corria bem uma vez na vida, algo acontece e traz de volta gente parva que mais se parece com um salta-pocinhas. Andam sempre á procura da próxima vítima.
A essência de tudo isto é o facto da sociedade não estar preparada para a mudança. Fogem desta como o diabo da cruz. Ela é diferente, e depois? Transmite sida pelo pestanejar? Deixa um rasto de genialidade por onde pisa? Se a sociedade não acolhe, também não são os “diferentes” que se vão colar ao resto do mundo. Para estes, valem-lhe a família e os amigos. Ela nem com a família pôde contar.
De volta aos tempos de estudo, ela não esteve em bailes, não bebeu até cair para o lado, não pertenceu às praxes. Bastava-lhe não ser humilhada para ser feliz (pelo menos, em parte). Chorou, berrou, gritou, desesperou. E por mais que repetisse estes, nunca se sentia aliviada. Acabou por se afastar dos amigos, das aulas, do mundo. Fechou-se no mundo dela, onde era feliz de verdade. A certa altura decidiu mudar de país e foi viver para o Canadá onde comprou uma singela casa que decorou de raiz. Quarto laranja, cozinha verde alface, sala azul do mar e hall de entrada rosa choque. Pode parecer estranho, mas estas cores berrantes ajudaram-na a sonhar, e mais que tudo, a escrever. Ela leu tanto que deixou de fazer sentido decifrar as histórias alheias e dedicou-se a registar numa espécie de diário o que havia imaginado em cada dia. Numa semana já tinha seiscentas páginas. Daí a mandar os seus rascunhos de sonhos e muita imaginação, foi um pequeníssimo paço.
Hoje é uma escritora de sucesso. Esqueci-me de referir que também se formou nos Estados Unidos e que hoje também é a melhor bióloga da América? E já disse que reatou amizade com o melhor amigo e que hoje têm cinco lindos filhos que falam a língua de Shakespeare? E já vos pus a par do que aconteceu ontem? Ela foi reconhecida na América como escritora do século.
Às vezes o ser-se diferente não é o problema. A questão é a sociedade onde nascemos. Ainda haverá de chegar o dia em que juntamos uns GPS’s às cegonhas e escolhemos onde queremos ser germinados.

2 comentários:

  1. Realmente muitas pessoas são, mesmo maltratadas, por serem diferentes dos outros... É pena que isso aconteça... Podiamos aprender muito com essas pessoas e elas connosco... É sempre difícil aceitarmos a mudança mas ela existe e é inevitável... todos têm de alterar alguma coisa na vida num qualquer momento... O teu texto tem um fundo de verdade... E achei a última frase engraçada... Dar GPS's às cegonhas era uma coisa muito gira... =P

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  2. "um pequeníssimo paço."

    diria passo.

    de resto, uma história muito gira, e bem verdadeira

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