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quinta-feira, 30 de setembro de 2010

As Praxes

      Quando pensamos em Caloiros em Coimbra, qual é a primeira coisa que nos vem à mente? PRAXE! Depois de duas semanas de aulas - durante as quais fui praxada e vi praxar - sinto-me capaz de tecer o meu comentário sobre este tão antigo hábito.
       A praxe, nos moldes em que é feita (falo das coisas que vejo aqui, na FDUC), tem para aí uns 60 ou 70% de pura estupidez. Há coisas engraçadas, há. Mas a maioria é puro exagero, ofensas ou humilhação barata. Quanto ao que me foi feito, quase zero queixas. Tenho uma madrinha espectacular que me defende no que é preciso e que me ajuda imenso. As amigas dela também são muito queridas (com especial ênfase para a N e a P) e sempre foram atenciosas desde o início, o que me pôs muito à vontade. Claro que em praxe as personalidades alteram-se, mas ainda assim há um sentimento de ligação que eu não sei explicar. Cantamos - aliás, berramos - procuramos sapatos escondidos, fazemos muitas declarações de amor e depois há as típicas propostas, feitas pelos Doutores, do "faz-me um broche", "faz-me um bico" ou até "apalpa-me as bolas" que são tudo perguntas código para realizar-mos tarefas super simples. Tirando uma excepção ou outra (ou uma pessoa ou outra, vá), ainda não me senti mal durante a praxe até porque quando sinto que isso pode acontecer parece que a minha madrinha funciona telepaticamente comigo e salva-me. Mas isto é o meu caso, eu já vi coisas às quais não achei piada nenhuma.
       Ora, para começar há uma coisa que, do meu ponto de vista, não tem qualquer lado lúdico: estar "de quatro" - ou seja, de gatas. Mas que raio há para aprender estando em tal posição? Os berros que nos dão, o cantar alto, o abordar gente que não conhecemos de lado nenhum para fazer uma declaração de amor de joelhos são coisas nas quais entendo claramente o lado de aprendizagem: somos confrontados com situações atrozes, vemo-nos obrigados a arranjar soluções rápidas, perder a vergonha e, sobretudo, a não bloquear em momentos nos quais não nos sentimos particularmente confortáveis. Do ponto de vista do Direito é claro que este tipo de Praxe faz todo o sentido. Por outro lado, estar de quatro ou ter uma pessoa a berrar connosco sem qualquer tipo de razão aparente não ajuda em nadinha. Se rimos temos de gritar "Ri-me, fodi-me" durante o tempo que o Doutor ou Doutora decidir. Se choramos somos fracos e quase obrigados a assinar um documento Anti-Praxe. Se não fazemos nada é porque não estamos orgulhosos no curso e instituição em que entrámos. Criam-se situações completamente inúteis e nas quais não há proveito a ser tirado.
       Ainda há a praxe relacionada com a bebida. Esta será a única com que me mostro piamente contra. Muito contra mesmo. Mas que anormalidade é esta de obrigar seja quem for a beber? Desde quando, expliquem-me, é que beber até entrar em coma (pequeníssimo exagero. muito pequeno mesmo) é um marco seja do que for? É uma vergonha completa encontrar os meus semelhantes (termo pelo qual devemos tratar os caloiros como nós) bêbedos que nem um cacho a fazer figuras ridículas, a vomitar e a perderem coisas fundamentais como... a carteira com todos os documentos que é suposto encontrarem-se nela. Uma coisa é ficar-se "quente" num grupo de amigos e sem ser com o show off que nos brindam nas ruas. Outra, totalmente diferente, é beber porque nos mandam ou porque se quer mostrar que se é bué rebelde e bué de maduro.
       Também há coisas que roçam a tremenda falta de respeito. Quando, do nada, nos chamam nomes - quando digo nomes refiro-me a ofensas sérias, não o "tótó" ou "parvo" - só porque sim, é falta de respeito pura e dura. Só isso. Convém relembrar que o intuito da praxe é integrar os novos alunos no ambiente académico e ajudar a criar amizades e perder a timidez típica de quem chega a um lugar novo.
        Avaliando a praxe à qual fui submetida, poucas queixas tenho para além da repetição de coisas que fazemos. É muito, mas muito aborrecido passar o dia a cantar sempre a mesma música - pronto, varia entre o hino do caloiro da FDUC e A Francesa - e a fazer as mesmas coisas. Se tenho ideia de outras actividades a realizar? Não. Mas sei dizer que é chato repetir as mesmas praxes vezes sem conta. Com tanta música, é escusado cantar sempre a mesma.
        Ah, lembrei-me de uma praxe interessante. As dos almoços. Ora comer só com garfo, ora dar melão a outra caloira, ambas de olhos vendados e sem nos podermos tocar... Enquanto tivermos só o garfo, estamos bem (a não ser que seja para comer a sopa).

        E pronto, é isto. Não fiquei a morrer de amores pela Praxe. Não me posso queixar graças ao grupo de praxe em que estou. Tanto as minhas semelhantes como as madrinhas são óptimas e bastante conscientes do que gostamos ao não, respeitando isso e nunca nos deixando muito desconfortáveis. Só um bocadinho, pronto, mas faz parte. Por outro lado, tenho de agradecer o meu círculo de amigos de Coimbra à praxe porque foi ela que nos pôs em contacto várias horas por dia e nos deu a conhecer. Á praxe, um Obrigada!

6 comentários:

  1. é, também acho que há muita arrogância (tipo em estado exagerado) em muitos doutores. Não gosto de quando (v)os mandam por de três (joelhos + cabeça no chão) e aquela coisa de descer escadas com as mãos entre as pernas e a cabeça para baixo é assustadora.
    de resto, até acho piada ao andar a correr a gritar "ri-me fodi-me!" e ao "não me ri mas também me fodi" :)
    depende muito dos cursos, ao que me consta. há pessoas que se divertem imenso na praxe, outras nem por isso.
    a do "obrigar a beber" nem vou comentar. é completamente ridículo, pois é.

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  2. é. é isso que eu acho. há muita gente a praxar que está mais preocupado em mostrar que o pode fazer e já não é caloiro do que propriamente integrar os novos alunos e criar um espírito de união!

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  3. é. é isso que eu acho. há muita gente a praxar que está mais preocupado em mostrar que o pode fazer e já não é caloiro do que propriamente integrar os novos alunos e criar um espírito de união!

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  4. As praxes, pelo menos aqui no Porto, são principalmente uma seca. Estamos sempre a fazer a mesma coisa. Ainda por cima, só inventam músicas foleiras para cantar. São mesmo brincadeiras parvas, e felizmente não passam disso. O mesmo não se pode dizer, pelos vistos, das de Coimbra :/

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  5. Repara, é só o meu ponto de vista! Acredita que há MUITA gente que está a adorar a praxe e a divertir-se imenso! São só opiniões. Da mesma maneira que há gente que ama, eu não acho assim tanta piada, pronto.

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  6. TUDO SOBRE PRAXE E TRADIÇÕES ACADÉMICAS: VERDADE VS MITOS no blogue Notas&Melodias (Ver listagem de alguns artigos na coluna do lado esquerdo do blogue):

    http://notasemelodias.blogspot.pt/

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