Páginas

sábado, 9 de outubro de 2010

A velhice

     Se há coisa pela qual tenho um tremendo respeito é por pessoas com idade considerável. Gosto de velhos, pronto. No entanto é pena reparar que quase ninguém pensa como eu.
     As pessoas idosas (ou da terceira idade ou o que lhe queiram chamar) têm muito mais para contar do que qualquer jovem meio vivido. Eu, por exemplo, delicio-me a ouvir os meus avós contar episódios do tempo do Salazar e todas as coisas que eu hoje considero básicas mas que na altura eram estritamente proibidas. Falam-me dos pides, dos chibos, da opressão, das confusões... E eu fico horas a ouvir, sem me queixar ou ter noção do tempo passar.
      Ainda assim, apesar desta parte extremamente lúdica que descobri com a estadia com os meus avós, vi-me confrontada com uma parte menos positiva mas que eu entendo. É-lhes complicado (pelo menos para os mais velhos que têm mais dificuldades em adaptar-se aos novos costumes) ver-me sair de noite, estar o dia todo fora com amigos, não comer carnes vermelhas (pelo menos com muita frequência) e ter calças rotas, camisolas mais decotadas, roupa mais justa, calças com a cinta descaída... Enfim, uma panóplia de costumes que a eles são novos e que tendem a rejeitar. Apesar do natural choque de gerações, eu respeito imenso o que me é dito e tenho toda a paciência do mundo no que toca aos meus avós e àqueles com idades como as deles.
       E foi com este contacto diário com os meus avós que descobri que quero abrir um lar de luxo, mas com custos reduzidos para que todos tenham acesso a ele. Quando falo em luxo não digo que tenha massagistas e cabeleireiros todos os dias. Digo é que haverá gente para acompanhar quem precisa, companhia, serões de actividades, higiene, comida (e não rações, que não estamos a tratar de animais) e gente que, como eu, esteja disposta a ouvir. Ás vezes o melhor cuidado é sentar-mo-nos ao lado de quem precisa e fazer uma coisa tão simples como ouvir o que os outros querem dizer.

2 comentários: