Páginas

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Abstenção

        Está a aproximar-se uma nova revisão constitucional. Assim que se acabe este frenesim sobre o orçamento de estado e a crise em que estamos afundados, proceder-se-à a alteração de algumas normas da Constituição da República Portuguesa.
         Ora bem, uma das normas a ir à vida é o artigo 115º/11 que, de forma sumária, estabelece que é necessário que pelo menos metade dos eleitores inscritos no recenseamento vão votar num referendo para que este tenha um efeito vinculativo. Esta alteração surge porque no nosso país, tal como todos nós sabemos, a taxa de abstenção é uma coisa gigantesca. Mas será a remoção daquela alínea um solução ou apenas um meio de ignorar a existência desta lacuna da nossa sociedade?
          Durante anos lutou-se pela liberdade de escolher quem nos governa porque o povo vivia oprimido. Agora que todos os indivíduos com pelo menos dezoito anos de vida podem ter voz na hora de fazer decisões que afectam todos os portugueses, a maioria abstêm-se. Isto quase parece um típico início de namoro onde a democracia é o homem que tenta seduzir a sua dama e o povo - que faz o papel da dama - continua a fazer-se difícil e a renegar aquilo que quer.
         É hora de mentalizar toda a gente que votar, mais do que um direito, é um dever cívico. E não me venham cá com a treta do "se é um direito eu só voto se quiser" porque os que assim dizem são os primeiros a criticar quando o país começa a descambar. Isto funciona um bocado como o "falem agora ou calem-se para sempre". O acto de votar é o "falem agora". O povo prefere ser rebelde e não por o pezinho nos locais de voto e depois, como se razão tivesse, critica tudo o que se passa no país. Não pode, senhores, não pode. A partir do momento que se abstêm de votar está numa situação de indiferença perante a actualidade. Se alguém decide não ter voz na altura em que pode, de facto, fazer a diferença na tomada de decisões, não pode mais tarde vir criticar aquilo sobre o qual não quis intervir. Deixa de ser um assunto que lhe interesse. Resta-lhe, assim, baixar a orelha e acatar tudo o que lhe for dito.
         Também não vale a pena dizer que "não voto porque nenhum dos partidos é bom" das duas, uma: ou é totalmente ignorante e nem sequer leu os programas de campanha (não me vou pronunciar, neste momento, sobre o facto de estes serem ou não fidedignos em relação ao que os políticos farão assim que subam ao poder) ou então não está com pachorra para se deslocar a um local de voto e inventou uma desculpa à pressa, guiando-se pelas ideias do senso comum que têm por base o "bota abaixo" de tudo o que é política. Tem de haver, obrigatoriamente, um partido com o qual tenhamos pontos ideológicos comuns. Isto acontece porque cada partido tem as suas ideias e entre partidos, há ideias bastante diversas. É uma questão de tirar umas horinhas e saber de que se trata cada vertente partidária e escolher aquela que se adapta às nossas ideias. Se ainda assim acharem que nenhum vos satisfaz, formem um partido com as vossas ideias e candidatem-se. Simples.
        Nos referendos a situação é semelhante. Ao que parece, o povo português é vazio de opiniões. Para ele está tudo bem. Ou somos todos pacifistas e não queremos chatear ninguém e ter de opinar, ou então somos estúpidos e não percebemos que calar a nossa voz é deixar que outros decidam o nosso futuro. Penso que no fundo o que se passa seja o seguinte: as pessoas têm medo de fazer uma má decisão. Assim sendo, preferem não tomar parte nenhuma e no fim poderem dizer, de consciência tranquila, que o país está de rastos.
        É urgente que se crie um sentimento de obrigatoriedade no que toca ao dever cívico de voto. Não se pode permitir que uma pequena maioria votante decida o caminho de dez milhões de cidadãos. Remover a alínea onze do artigo 115º da Constituição Portuguesa da República não vai ajudar em nada a nossa sociedade. Em vez de fechar os olhos e não ver o problema, é melhor desmontá-lo e fazê-lo desaparecer.

2 comentários:

  1. Para cobrir todos os pontos de vista possíveis, seria necessário um número infinito de partidos. Como isso não é possível, haverá sempre ideologias que discordam de todas as linhas partidárias. A essas pessoas eu recomendaria que votassem em branco.

    Quanto à taxa de abstenção, há mais motivos para ela ser elevada que a preguiça. Há pessoas que não têm qualquer interesse na questão em causa, outras que não a compreendem, e aqueles que sabem à partida que façam o que fizerem não conseguirão ter qualquer influência no resultado final (o que combinado com o elevado número de eleitores cria um ciclo vicioso bastante manhoso).

    Apesar de tudo isto, que a situação que descreves é triste, é.

    ResponderEliminar
  2. Já encontrei o candidato que há-de levar o meu cartão vermelho às elites portuguesas, esse candidato é o José Manuel Coelho.

    Palhaço a maluco é o povo que vota sempre da mesma maneira esperando obter resultados diferentes!

    ResponderEliminar