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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

O inquérito da Sábado

      Acho lamentável que se faça tamanha generalização como a que podemos ver neste artigo e vídeo da revista Sábado. Penso que 100 universitários é um número insignificante no universo de estudantes do ensino superior português para que se conclua que todos são ignorantes (como leva a entender o título "A ignorância dos nossos universitários").
       Não digo que seja perdoável ver jovens adultos com uma tremenda falta de cultura geral mas tenho plena consciência que isso é o espelho do estado do ensino português. Que se comparem os nossos testes do secundário com os dos nossos pais! Que sejam notadas as diferenças radicais no que à exigência diz respeito. Tenho um irmão apenas quatro anos mais novo e consigo ver que o ensino foi mais difícil para mim do que já é para ele. Os alunos são levados ao colo com notas médias de 15 ou 16 até ao fim do secundário porque para os professores é uma trabalheira preencher a porcaria duns papeis quaisquer que justifiquem a reprovação de um aluno - são os próprios a admiti-lo.
       Eu, que estou no meu segundo ano enquanto aluna da Universidade de Coimbra, cheguei até aqui sem nunca, em situação alguma, me ser perguntado no ensino básico ou secundário o que é a Capela Sistina, quem é o Manoel de Oliveira, quem é o Presidente da Comissão Europeia, o que é O Padrinho ou quem fundou a Microssoft. Em 12 anos de ensino tive um horário preenchido com coisas sem jeito nenhum - disciplinas como Formação Cívica onde não se faz nada, Estudo Acompanhado onde nada se faz e Área de Projecto onde se copiam páginas da internet e se entregam a professores obtendo a classificação de Muito Bom. Será que não era de aproveitar estas quatro horas e meia semanais para despertar a pequenada para o cinema, para a política (hoje ser-se in é dizer-se que não se liga a política), para a literatura, ...?
      Se eu sei as respostas àquelas perguntas é porque os meus pais colmataram as falhas colossais do nosso ensino e me puseram a ler, a gostar de música, a ver cinema, a aprender história e ver documentários, a ter interesse em saber o que se passa no país e no mundo, enfim, um conjunto de coisas que deveriam fazer parte da tal formação cívica prevista no plano do 2º e 3º ciclos do ensino básico. Nem todos tiveram a mesma sorte e, certamente, farão parte da massa de alunos que não tem conhecimentos básicos.
       Como se pode esperar que um estudante do secundário, neste momento, saiba o que é O Padrinho se os pais não falarem no assunto? Na televisão estão cinco ou seis filmes (de qualidade dúbia) disponíveis que são transmitidos de forma cíclica. Muitos pais ou não ligam a cinema ou nunca se lembraram de mostrar estes filmes aos filhos. O ensino português está feito para que toda a gente passe e que os desinteressados sejam reencaminhados para um curso qualquer que vão fazer com uma perna às costas e com óptimas notas. Além disto, nenhum professor acha produtivo "perder tempo" a incentivar os alunos a pesquisar sobre filmes, sobre livros, sobre política... Tantas horas semanais "vazias" que podiam ser preenchidas com debates sobre temas relacionados com a actualidade, com o visionamento de clássicos do cinema, com pesquisas sobre pintura, escultura, etc. ...
        Quer se queira admitir ou não, aquelas respostas disparatadas são o resultado da formatação do nosso ensino e dos valores agora defendidos na nossa sociedade. Todavia convém relembrar que as respostas mostradas foram seleccionadas e só foram exibidas as mais cómicas.


    Deixo também aqui o comentário de um dos visados no vídeo ao mesmo. Ele faz acusações à jornalista como a de manipulação de imagem entre outras. Vale a pena ler.

(P.S.- Concordo que a minha geração tenha muito mais facilidades do que a dos meus pais, mas creio que essa facilidade e o excesso de informação tenha levado a uma dispersão de valores. Sabe-se um pouco de tudo menos do essencial - o básico, a cultura geral. Ainda assim sou obrigada a atribuir grande parte da culpa à mudança radical da estrutura do ensino.)

6 comentários:

  1. Eu não acho que os jovens sejam mais burros. Acho é que como o acesso à informação é mais facil, não há tanta preocupação em querer saber as coisas, pois quando precisarem, vão ao google...lol

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  2. Exactamente. Mas essa falta de preocupação em saber vem do tal facilitismo no ensino de que falo.

    Duvido muito que isto seja uma coisa dos ares e que as pessoas feitas entre o ano X e Y (correspondentes à minha geração - a falada no artigo) tenham nascido burras. Há só uma falta de incentivo ao estudo e ao trabalho porque tivemos a sorte de ter pais com mais posses do que tinham os nossos avós.

    E, como referi no meu texto, é esse fácil acesso a todas as informações que precisamos que cria na maioria a ausência da necessidade de decorar, de estudar, de saber.

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  3. Estou de acordo com o que escreveste. Felizmente os meus pais também preencheram algumas falhas colossais e esclareceram qualquer dúvida que eu tivesse.
    Não podemos generalizar. De certeza que foram entrevistados muitos mais estudantes universitários que responderam correctamente a grande parte das perguntas. Na minha opinião, o interesse da jornalista responsável por estas entrevistas, era "humilhar" os estudantes universitários. Só não percebo qual o motivo.
    Concordo com o comentário anterior. A nossa geração (eu sou recém-licenciada) quando tem alguma dúvida, vai pesquisar à net. Eu própria, quando tenho alguma questão sobre cultura, política ou outro tema, do uma "pesquisadela" ao Google ;)
    Boa sorte para o curso!!

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  4. Se a exigencia é menos o esforço tambem será menos...na idade do menor esforço quer-se é passar de ano e pouco mais. Se é culpa deles a falta de cultura geral? Em parte...mas não na totalidade. Mas a generalização do assunto é no minimo de mau tom por parte da Sabado...aquelas respostas não representam uma geração!

    Bom fim de semana*

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  5. @Miss 'S': Também não entendi esta necessidade da jornalista em humilhar os estudantes e a minha geração. Será para desviar a atenção da crise?
    Obrigada pelo desejo de boa sorte ;) Que eu faça o curso a Direito! :P

    @60 sinais: também achei uma generalização deveras insultuosa para a maioria que sabia responder a pelo menos 90% das perguntas. Que façam o mesmo inquérito a pessoas entre os 30 e o 40 anos e vamos ver se todos respondem bem. há ignorância em todas as idades e gerações.
    Obrigada e Bom fim-de-semana ;)

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  6. Nao poderia estar mais de acordo com este texto! Passo a vida a dizer que se, nos alunos, somos mal formados tambem temos maus formadores, (e eu tenho!!!), e porqe agora tudo é dado! Tudo! não se incentiva a responsabilidade e o "derenrasque" dos miudos! Daqui a pouco nao ha momentos de avaliação como teste ou exames, porque quase se dão as respostas agora aos alunos! Como vão os alunos ser bons, exigentes com eles proprios sagazes de conhecimento se nada lhes é exigido?! Há que reprovar quem nao sabe! E com os erros que se aprende nao e verdade? Muita da parcela de culpa é tambem dos pais, que infelizmente trabalham cada vez mais horas e nao estabelecem regras, nao educam, compram os filhos com o facilitismo! Nao dizem nao! Nao exigem, nao aguçam o engenho dos filhos porque tambem nao lhes dao a necessidade de o fazer!

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