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segunda-feira, 24 de março de 2014

A co-adopção

      "Sou favorável, como é evidente, à co-adopção por casais do mesmo sexo e por isso gostava que a lei tivesse passado (...). Mas, o que eu proponho, é que da próxima vez (...) que esta matéria for a votação, organizar um auto-de-fé no Terreiro do Paço e os deputados medievais vão assistir e deixam a votação só para as pessoas que vivem mesmo no século XXI." - Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra de 21 de Março de 2014.     

      O chumbo do diploma da co-adopção diz muito sobre a hipocrisia da sociedade portuguesa. Encontrei, infelizmente, muitas "pessoas" felizes com o resultado alcançado (e, para meu choque, pessoas instruídas) com argumentos tão obsoletos e descabidos que me questionei se teria recuado no tempo sem me aperceber. Passemos então a analisá-los.


  • A co-adopção é um atentado contra a família.
      Afinal, contra que família? Não entendo este argumento. Exactamente em que medida é que a felicidade de duas pessoas, que por acaso são do mesmo sexo, interfere com a minha? Não sei se sou eu que sou de compreensão limitada, mas não consigo chegar ao núcleo deste argumento.
      Falamos de tradições, que devem ser respeitadas e perpetuadas? Se assim é, regressamos ao início: quem é contra a co-adopção só pode ser obsoleto. 
      Basta recuar umas décadas para perceber que a mulher não votava, por exemplo. Era a tradição. O lugar da mulher era em casa, nas lides domésticas, iletrada e limitada nos seus direitos. Até ao dia em que Carolina Beatriz Ângelo desafiou as regras e votou (em 1911!), sendo a primeira mulher a fazê-lo no nosso país. 
       E a escravatura, também é uma tradição. Quebrá-la foi atentar contra o poder das famílias, não?
       Ou até mesmo a naturalidade com que sempre se lidou com a infelicidade masculina. Quem foram os energúmenos que atentaram contra esta tradição que reforçava a virilidade? Pois, o mundo evolui, as pessoas evoluem e os horizontes expandem-se.
       Olhar para a família como uma instituição estática é ser-se estúpido. A família é um núcleo de carinho, de cuidados, de educação e crescimento. E este núcleo constituiu-se independentemente da forma adoptada: filhos com dois pais, duas mãe, um pai e uma mãe ou apenas um destes. O amor não olha a géneros.


  • As crianças crescerão sem uma figura masculina ou feminina
      Parcialmente verdade. Contudo, isso não é precisamente o que acontece nos casos de mães e pais solteiros? Aí, à semelhança de ter dois pais ou duas mães, as crianças são criadas num ambiente onde apenas têm figura paternal ou maternal. 
      Neste ponto, ter dois pais ou duas mães será, certamente, melhor que ter só um deles. Há um completmento: a criança tem dois adultos que, sendo diferentes (que somos todos diferentes), irão fazer o mesmo que um pai e uma mãe - mostrar maneiras diferentes de lidar com o mesmo problema. 
      Ainda convém relembrar que na co-adopção não se constituem, realmente, famílias novas - elas já existem, apenas carecem de reconhecimento jurídico dos seus direitos e deveres. É uma hipocrisia profunda achar que o chumbo do diploma fará desaparecer esta realidade. Isto é o que eu chamo de tapar o sol com a peneira.


  • As crianças co-adoptadas incorrerão numa maior probabilidade de se tornarem homossexuais
        Este argumento é tão estúpido que me custa crer que alguém acredite nele. 
        Afinal, os homossexuais não são fruto e (quase na sua totalidade) educados em ambientes heterossexuais? Como se explica então que uma criança educada por um pai e uma mãe, sem amigos gays nem "incitamento" algum para "escolher" ser gay, o seja? 
        A sexualidade não se escolhe. Eu não escolhi ser heterossexual - sou-o porque os homens me atraem ao contrário das mulheres. É um factor que eu não controlo, em momento algum decidi gostar de homens. Nasci assim. Para os homossexuais vale precisamente o mesmo.
       É preciso desmontar o preconceito de que a homossexualidade é uma opção, uma escolha que se pode impingir aos outros. 
       Existem hoje uma infinidade de adultos heterossexuais que foram crianças educadas por um casal gay. Repito-me: estas famílias existem, e não é uma "coisa recente". Sempre existiram, sempre existirão. 


  • Os homossexuais não possuem estabilidade nem maturidade (psicológica ou emocional) para educar uma criança
        Outro argumento que eu tenho muita dificuldade em entender. Em que medida é que a sexualidade se reflecte na maturidade de um adulto? Se se reflecte, então esta questão é extensível a qualquer casal, gay ou não. 
        Mais uma vez: este ponto poderá ser discutível no caso da adopção - e é-lo para qualquer casal, independentemente da sua orientação sexual. 


  • As crianças criadas por homossexuais sofrerão de bullying 
       O primeiro argumento com que concordo. Não por funcionar como razão para não defender a co-adopção mas porque é um facto. Mas não sofremos quase todos de bullying? Sim, pelas mais variadas razões: somos magros, gordos, nerds, burros, totós, pobres, caixa de óculos, ... 
        O problema do bullying é, muito mais do que das crianças, dos pais destas. 
        Não me lembro de ter descriminado alguém com base em qualquer um desses factores. Tive amigos de todas as formas e feitios e de todas as classes sociais. Isto foi o que aprendi em casa: que todos temos valor independentemente de onde vimos e de como nos apresentamos. Somos todos iguais e merecemos precisamente o mesmo respeito. 
         Contudo, fui chateada (até impedir que tal continuasse) por ser gorda. Logo, a mesma geração, na mesma escola, tinha valores diferentes, vindos de casa. 
        As crianças, enquanto não atingem a fase em que passam a pensar pela sua própria cabeça, são o espelho dos valores que aprendem em casa. Se os pais são homofóbicos e retrógrados parece-me óbvio que vão agir dessa forma para junto dos seus pares. 
        A questão do bullying resolve-se com os adultos. Enquanto estes forem quem propaga os valores mais que ultrapassados para as crianças (que são barro por moldar), nada mudará. 
         O progresso não deve ser posto em pausa só porque há quem não se consiga adaptar à evolução.


  • Permitir a co-adopção é incentivar a homossexualidade
        Isto é tão descabido que também me custa crer que alguém ainda apoie a tese de que a orientação sexual se escolha ou se pegue a outros.
        A co-adopção é um instituto que permitirá que as famílias (que já existem!) vejam os seus direitos e respectivos deveres reconhecidos. Ninguém está a criar nada, a abrir janela nenhuma - a realidade é que já existem imensas famílias com pais gays em Portugal. 
        Afinal, o que está em causa na co-adopção? Permitir que ambos os pais da criança sejam reconhecidos por lei. Só isso. 
        Imagine-se o caso de duas mãe que criam uma criança. Esta reconhece-as como tal assim como os restantes parentes. Se a mãe não reconhecida legalmente falecer, a criança perde todo o vínculo a esse lado da família - e tem o direito a poder mantê-lo uma vez que também aquelas pessoas também fazem parte daquilo a que ela chama de família.
        Se for a mãe legalmente reconhecida a falecer, o que acontece é que, aos olhos da lei, aquela criança é órfã e cairá, certamente, na rede de orfanatos e abrigos para crianças portugueses que, enfim, já se sabe que não é propriamente o melhor sistema (aí sim, há ausência de figura maternal e paternal).


  • É melhor ter um pai e uma mãe do que dois pais ou duas mães
        Tenho dúvidas que uma coisa seja melhor que a outra. São diferentes, é certo. Quanto a ser melhor, não sei. Acho que o melhor é mesmo ter-se alguém que cuide dos filhos com todo o amor que estes precisam. 
        O melhor é ter pais. Seja um, dois e, dentro desta última hipótese, heterossexuais ou não. 
        É mais um daqueles argumentos que nada tem a ver com a co-adopção: as famílias abrangidas por este diploma não se esfumam só porque ele foi chumbado. Continuarão a criar os seus filhos.


        Ainda li muito por aí que quem é contra a co-adopção fica melindrado porque diz ser alvo de faltas de respeito quando expressa a sua opinião. É mais ou menos o mesmo que apoiar a ditadura, a escravatura ou excisão feminina e pedir para ser respeitado (por se tratarem de ideologias, de tradições, ...).

       É muito difícil ouvir alguém atacar direitos basilares de uma sociedade evoluída e ficar "quieto e calado". 
      
      Os direitos humanos não podem ser uma coisa de moda. Não podem ficar numa gaveta até que a hipocrisia seja vencida. É preciso agir, avançar, respeitar a Constituição e não violar o direito que uma criança tem a uma família que a faça feliz, seja ela em que moldes for.

2 comentários:

  1. À terceira e à sexta objecções, eu até diria: mesmo que assim fosse, qual seria o problema?

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  2. Convenhamos que qualquer ambiente que incentive a mudança da orientação sexual de uma criança não é o mais adequado. Mas atenção! Isto é válido também para os casais heterossexuais que, tendo um filho gay, o forçam a oprimir a sua realidade.

    "incentivar a homossexualidade" não é o mesmo que "aceitá-la". Falamos de querer impor determinada característica a outro. E isso não é saudavel, quer estejamos a falar de tentar impor a heterossexualidade quer a homossexualidade.

    Cada um deverá ser livre de ser o que é sem opressões (e sem que isso prejudique terceiros).

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