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terça-feira, 4 de março de 2014

Eu e os outros

     Tenho, hoje, dificuldades em fazer amigos. Já nem falo em amigos mesmo (que esses já os tenho há muitos anos) mas de pessoas com quem possa conversar, passar tardes em cafés, passear, seja o que for. 
     Seria de esperar que esse grupo de amigos se formasse com alguma facilidade na faculdade. Tal, por variadíssimos motivos, acabou por não me acontecer e eu, mais tarde, percebi que não me identifico com a grande maioria dos meus colegas. Claro que não se trata de um "problema" deles mas provavelmente meu, que hei-de, parece-me, procurar o raro ou impossível de encontrar. 
    A esta aparente incapacidade de me identificar com a maioria dos "outros" acresce o facto de dar imenso valor às palavras, aos gestos. Quando olho para o lado, há uma hipocrisia generalizada - há quem se deteste mas se sorria porque parece bem, há quem critique de forma pouco amigável os ditos "amigos". E toda a gente sabe que quem faz isto aos outros, fará o mesmo a nós. 
     Até aqui, se eu já tinha pouca vontade de me "moldar" para me encaixar em massas, passo a ter nenhuma uma vez que o risco me parece superior ao benefício. 

     Mas, ocasionalmente, sou obrigada a sair da minha bolha de conforto por me identificar de forma nada forçada com algumas pessoas. E assim que percebo disso entro em pânico. É inevitável. 
     Lembro-me sempre d' O Pincipezinho e da seguinte citação: "Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé", isto é, "tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas". É exactamente isto que eu penso. 
      A partir do momento que, por alguma razão que desconheço, alguém fica cativado por mim (?) eu sou responsável por tratar aquela pessoa precisamente da mesma forma que quero que me trate a mim. E eu não sei lidar com este género de expectativas. Racionalmente sei que, um dia, ou eu ou o outro vai falhar. E vão surgir chatices que, caso os caminhos não se tivessem sobreposto a dada altura, nunca nasceriam. 
       Ainda há o tempo que tem de se dar ao outro, há dois ouvidos que têm de estar disponíveis e um cérebro que não pode estupidificar e matar uma relação, seja ela de que natureza for, de tédio. E eu também tenho algumas dificuldades em lidar com estas exigências, não porque não goste de conversar (pelo contrário) mas porque criar laços gera uma espécie de contrato de dói sempre que se quebra. E sinto sempre que é tão fácil de quebrar.
   
       Acho que é por isto que ainda hoje muitas das minhas pessoas preferidas, que conheci em variados momentos da minha vida, nunca imaginarão que o são ou foram. 

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