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terça-feira, 11 de março de 2014

Rejuvenescimento no autocarro


      Muita coisa mudou na minha vida nos últimos anos. Mas uma manteve-se imutável: andar de autocarro. E tal continua a ser sempre uma experiência peculiar. 
      De todos os motivos que me podiam deixar perplexa, o que mais se destaca é o fenómeno de rejuvenescimento que se verifica nas senhoras velhotas.
      Até ao momento em que pōem o primeiro pé no primeiro degrau do autocarro, apresentam um andar afectado pela idade, um descerramento que também já acusa algumas falhas. Assim que a sola do pé entra em contacto com o meio de transporte visado, dá-se um milagre qualquer e é assistir a uma espécie de jogos olímpicos dos transportes públicos. 
      As velhotas empurram-se, lançam olhares de recriminação a quem está sentado e debatem-se pelos lugares sentados vagos - mesmo que estes sejam em número manifestamente superior ao de pessoas no autocarro. É que estas senhoras só querem lugar perto das portas de saída ou das campainhas que permitem avisar o condutor que terá de parar na próxima paragem.
      Quando se sentam, as senhoras velhotas regressam ao modo conversas-sobre-o-tempo ou conversas-sobre-o-estado-do-país, sempre em lógicas dúbias, comentários pouco iluminados, quase estereotipados. Este estado dura até ao momento em que desejam abandonar o transporte. Aqui, voltam a ser eloquentes para que se defina quem sai primeiro, ganham destreza física para passar por cima de quem impedir a sua passagem rápida até à porta uma vez que é entendimento geral daquela faixa etária que as portas estão apenas cinco segundos abertas e que caso não saiam dentro desse espaço temporal, ficaram aprisionadas até ao fim da linha.
       
       Quatro anos depois, ainda não me habituei a andar de autocarro.

1 comentário:

  1. É verdade. Os mais velhos têm muitos problemas, cedemos os bancos nas paragens para esperarem sentados, mas quando aparece o autocarro correm bem rápido para a porta! Uma vez lá dentro são vagorosos mas é só até sondarem com o olhar os lugares vagos. Assim empatam quem vem atrás e não deixam ninguém os ultrapassar. E depois quando vêm um lugar que gostam, voam até ele. Vaga outro ainda melhor, voam novamente para este. Nem se incomodam em ficar com o rabo quente.

    Ahhaah. Também tenho histórias semelhantes para contar. Podes espreitar no blogue.

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