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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A minha vida é uma anedota

          Ainda no rescaldo do meu dia não, ontem saí de casa as nove e pouco para ter aulas às onze. Tinha decidido que ia aproveitar para parar no McCaffé, beber o meu cappuccino, comer um cornetto alla marmallata e rever a matéria que tinha sido dada no dia anterior enquanto degustava aquele manjar dos deuses.

         Depois de servida, levo o tabuleiro para a mesa escolhida e sento-me. Ás dez da manhã, estávamos três pessoas naquele estabelecimento que tem várias dezenas de lugares sentado.
         Sentadinha e deliciada com a opção alimentar extremamente saudável, saco o livro da mala para ir lendo enquanto comia. Pois é aqui que começa a mais um capítulo da minha autobiografia, intitulada "A minha vida é uma anedota".

          Estava a tentar concentrar-me na pacatez do espaço quando atrás de mim, sem que nada o fizesse antever, começo a sentir muito burburinho. Tinha optado por uma mesa junto a uma espécie de divisória constituída por uma série de tábuazinhas na horizontal, espaçadas e paralelas. Ao que parece, aquela divisória era o que o empregado queria limpar naquele preciso momento, a dez centímetros de mim. E que empregado? Um moço com uns vinte anos, com Síndrome de Down.
         E lá continuou ele, emitindo sons estranhos, passando um pano do pó à minha volta repetidamente. E eu, que queria ser mais teimosa que ele, deixei-me ficar na minha vida, fui comendo e lendo.
         Depois de uns dez minutos - que pareceram trinta - ali à minha volta, o rapaz sai de trás de mim e vem, com um borrifador numa mão e o pano na outra, limpar a mesa ao lado da minha. Uma mesa vazia, inocupada desde que tinha chegado, que não tinha qualquer necessidade de ser limpa.
       
         Ingénua que sou, achei que o moço seria chamado à atenção por algum superior por me estar a incomodar. Eu, uma cliente. Ingénua.
         "Mmmmbbllhhrmm?" ... "Scusi?"... Depois de muito balbuciar e esguichar a minha mesa e o meu livro com desinfectante, o rapaz lá se fez entender - queria que eu saísse dali porque queria limpar a minha mesa. A minha! Estávamos ali três pessoas, caraças! Havia mais umas dezenas delas em que o rapaz se podia ter entretido, mas não. O tipo com trissomia tinha de ter pontaria e meter na cabeça que a minha mesa estava um pandemónio bacteriano e precisava de uma acção rápida.

         E pronto, ele venceu. Com medo que o gajo me tentasse esguichar desinfectante para o cappuccino lá o terminei, meti o resto de croassaint à boca, livro na mala, e saí do McCaffé.

         Incrível como por vezes não entendo o que as pessoas me querem dizer, num italiano fluente. Mas um tipo com uma deficiência profunda e notória eu entendi. A minha vida é uma anedota.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Se fosse um Sims, tinha o diamante vermelho

     "Sim, já vi tudo, isto é muito simpático mas já está bom. Vou para casa". Era precisamente isto que hoje me apetecia ir dizer à faculdade daqui, fazer a mala e pôr-me a caminho do aeroporto. Na verdade, se fosse rica já estava de mala pronta para ir para Portugal pelo menos o fim de semana.

          Acordei com o desperator às sete. Quer dizer, pseudo-acordei. Tive uma noite de cão não só porque as melgas romanas vêem em mim um repasto de luxo como porque todo e qualquer barulhinho serviu para me trazer de volta da espécie de sono maricas que fui tendo. O mau estar com que abri os olhos foi agravado pelo sono. 

          Sem vontade nenhuma lá me arrastei da cama, vesti e fui para a aula de italiano que piorou o meu humor - o meu italiano continua, e não consigo arranjar um eufemismo para o adjectivar, uma merda. Assim mesmo. Cada vez compreendo mais do que ouço mas falar, nada. Não sai. Não sei se tenho algum bloqueio mental, se um défice de qualquer coisa, mas pareço uma pessoa com deficiências profundas quando tento expressar-me na língua de Leonardo da Vinci. E ali fico, empancada, sem conseguir pensar.
          Depois de várias tentativas falhadas de construir frases, e quatro horas depois do início da aula, a professora atribui os trabalhos de casa: muito mais matéria do que a dada na manhã. Para ser tudo feito esta tarde e apresentado amanhã. Mas como?! Se com uma italiana a explicar-me as coisas preciso de uma manhã inteiro, como vou eu aprender muito mais numa tarde, sozinha? 

          Este é o meu décimo sétimo dia em Roma. Sinto-me super desconfortável, no geral, assim como um pinguim no Sahara. Não tenho o meu material de estudo, o meu sofá de leitura nem a minha gata sob os livros. Tenho antes um porta minas só com uma mina, uma caneta preta e uma azul; uma secretária com uma tábua por baixo que só permite uma posição confortável se eu mandar amputar as pernas e uma almofada insuflável para apoiar o material quando estudo na cama (porque não tenho outro sítio).
           Não tenho a minha máquina de café, as bolachas marias e os chá Marooco da Lipton. Tenho chá preto do Lidl que deixa a caneca cheia de pelezinhas esquisitas e bolachas que ficam muito aquém das minhas Maria.
          Não tenho a família à distancia de umas estações de comboio, chamadas telefónicas quando me apetece dizer disparates nem café ao fim de semana com os pais. Uso o skype parcamente, o Viber quando chego a casa e tenho tempo, e o Whatsapp quando apanho wi-fi.
          Não tenho a minha roupa, os meus sapatos e acessórios. Tenho antes uma única mala, um colar, duas sombras e eyeliner e pouca roupa que trouxe.

          Estou totalmente sem rede. E hoje, por alguma razão, isso sentiu-se desde que abri os olhos. Não acredito que vou escrever isto mas fazer Erasmus é mais difícil do que eu estava à espera. Porque quando se anda em passeio tudo está bem, a vista anda ocupada e a cabeça também. Mas quando há um dia não, quando chega o tempo morto, não há para onde ir. Não há casa. 

          Roma também não tem muito para oferecer. O que eu quero ver é caro e o resto é à base de noites e copos - e eu não gosto muito de sair à noite nem bebo álcool. 
          Ver-me assim, a sentir-me "deslocada" deixa-me frustrada porque sinto que há coisas que devia estar a viver e não estou. Ora porque não me apetece, ora porque estou cansada e tenho de acordar às sete. Queria que fosse tudo fácil, queria que eu fosse mais fácil. Gostava de ter chegado e ter sentido esta cidade como minha.

          Os dias "não" são estupidamente mais difíceis longe de casa. Mas se eu não me tivesse afastado, nunca ia entender o que isso era - casa. Ao fim de dezassete dias aqui já sei que casa não é um lugar. São pessoas. 

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Aprender italiano não é assim tão fácil

          Quando, numa conversa, se falava do facto de eu vir para Roma, invariavelmente surgia um comentário do género "ah, aprender italiano é muito fácil, percebe-se bem". Pois bem, isso criou no meu inconsciente uma almofada moral para não estudar a língua até chegar (vá, fiz duas das trinta lições do livro que comprei em Agosto).
          Assim que cheguei ao aeroporto, só para perguntar onde podia apanhar um comboio, percebi que os italianos não falam outra língua que não a sua, excepto uns toques leves no espanhol. Apercebi-me ainda que ninguém está com cuidados por ser estrangeira e que mesmo que eu fale em inglês respondem-me sempre num italiano rapidíssimo como se eu entendesse tudo o que dizem. O "no capisco" é interpretado como "podes repetir outra vez o que disseste, exactamente à mesma velocidade para eu continuar sem perceber nada".

          Segunda-feira comecei as aulas de italiano e vi que teria de superar vários obstáculos.
          Esta língua é, na verdade, muito parecida com o espanhol. Como boa portuguesa que sou, sei falar portunhol. Assim sendo, numa reacção em cadeia, quando quero falar italiano o meu cérebro constrói frases em portunholiano. 
          Há várias palavras que são exactamente iguais em português e na língua dos romanos. Isto seria óptimo se as palavras não tivessem significados completamente distintos. 
          Apesar da fonetica portuguesa e italiana ser identica, a forma como os sons se escrevem, como conjugamos as letras para obter essa sonoridade, é bastante diversa.
          Ironicamente, as parecenças entre as línguas são a causa porque não consigo desligar o que sei para absorver a informação nova. 

          Perceber, se falarem comigo devagarinho, até percebo. Falar é que ainda é uma tarefa complexa porque tenho um vocabulário muito escasso. 

          Para já continuo a ter aulas das 9h as 13h, em dois blocos de duas horas com um intervalo de dez ou quinze minutos entre eles. Preciso de explicar aos italianos que é difícil ser-se produtivo com duas horas seguidinhas de aulas. Ao fim de uma hora já só penso em dormir (ainda não consegui ter uma noite verdadeiramente descansada aqui. É normal?).

          Espero, daqui a quinze dias, já conseguir manter uma conversa básica.

          

domingo, 14 de setembro de 2014

"Vi" o Papa

          Esta manhã venci a preguiça para me levantar cedo e fui com a minha room mate ao Vaticano. Horas depois ainda não consegui encontrar um adjectivo que consiga transmitir a grandiosidade de tudo.

         

          Ainda antes de chegar ao Vaticano, lá para as nove da manhã, já se via a multidão a caminhar toda no mesmo sentido. Mesmo que eu não soubesse o caminho não teria dificuldades em chegar ao destino.
           Depois de ignorar uma dezena de marroquinos e afins que me queriam vender bandeirinhas com a cara do papa (para que serve isso? Para mostar ao papa que tenho uma foto dele ao sabor do vento?) lá passámos os muros e eu fiquei embasbacada com tudo. 
          No Vaticano tudo é colossal. Senti-me sempre uma formiguinha perante aqueles edifícios. Só falta alguém ter a ideia iluminada de meter uma espécie de toldo gigante na praça porque estar ali horas a torrar ao sol não é assim tão espectacular. 


          Depois de acompanhar parte da cerimónia dos casamentos que o Papa estava a celebrar, e porque a fila para ver a igreja era descomunal, optámos por ir ao Castelo de Santo Ângelo (ou Mausoléu de Adriano) que funciona como museu. 


          Em todos os cantos há um detalhe qualquer que vale a pena apreciar. Há passagens "secretas" como nos filmes e foi interessante reconhecer alguns locais dos filmes Anjos e Demónios e Código Da Vinci.
            Para qualquer apreciador de arte, história, arquitectura, ou simplesmente para alguém curioso, o Vaticano - assim como Roma - é uma viagem no tempo. Tudo é mantido o mais intocado possível e, desta forma, é fácil fazer o processo mental de recuar várias centenas de anos.

           Foi do cimo do castelo que, ao olhar para a paisagem, me apercebi da quantidade de cúpulas que sobressaem, dos infinitos pontos religiosos da cidade e de como Roma é feita de detalhes. Esta cidade é feita para ser andada, para ser explorada a pé, com os olhos bem abertos. 

          Aquilo que estranhei no início - o ar velho e sujo de tudo - é hoje o que admiro. Roma é uma pérola da história. Uma cidade que é mais do que "se isto falasse..." porque efectivamente fala. Está tudo tão "puro" que a história ficou preservada. 
          Tenho pena que não haja uma reconstrução das coisas, nem que fosse uma maqueta perto da ruína. Tinha mais impacto ver como eram os edifícios e como estão agora, maioritariamente no chão, do que olhar só para pedaços de pedra e afins perdidos em terrenos vastos e ter de imaginar como seria. Mas, como bons romanos, o pessoal não está para ter muito trabalho e, quem quiser, que pesquise em casa a forma original das edificações agora em pedaços.

          Hei-de voltar ao Vaticano para assistir a uma missa e à benção papal e para ver o papa directamente e não através de um ecrã. 


sábado, 13 de setembro de 2014

Roma dos detalhes #1






Devagarinho, deixo de ser alien

          Ao contrário daquilo que imaginei, Roma não se infiltrou em mim à primeira vista. A coisa está a entranhar-se muito devagarinho. Pensava que ia chegar e, tal como aconteceu quando fui a Londres, iria sentir que esta cidade podia ser casa, que era tão minha como de quem cá nasceu. A verdade é que o sentimento de não pertença foi enorme e hoje, ao quinto dia passado na capital italiana, este encolheu para dar espaço a uma vontade de explorar.

          Não senti propriamente vontade de voltar para casa, mas a total inexistência de pilares para além da minha companheira de viagem que, graças a Deus, foi uma surpresa e um bombom neste processo, fez com que me sentisse totalmente desamparada - sobretudo anteontem e ontem. Talvez porque tenham sido dias em que o ritmo de passeio foi ligeiramente abrandado, tive tempo a mais para pensar e percebi finalmente no que me meti.
          Vou estar a morar um total de seis meses longe de casa, numa cidade que não me fez morrer de amor por ela assim que aterrei e onde, para total surpresa minha, há uma série de hábitos totalmente diferentes dos portugueses. Pela primeira vez na vida, não tenho rede de segurança.
           Hoje, sem aviso, a ideia de estar "sozinha" não gerou ansiedade mas sim o desejo de alargar barreiras, de me dar às coisas e de absorver tudo o que conseguir.

          Acordei, sem despertador nem obrigações, às 9h. Tinha-me deitado tarde mas, mesmo assim, o meu cérebro determinou que seria hora de aconchegar a pancinha. Ainda sem pão, lá fui eu comer o que tem sido o pequeno-almoço: um iogurte, uma peça de fruta, duas tostas integrais e uma fatia de fiambre. 
          Estes últimos dias têm permitido passar a manhã por casa até porque o tempo tem estado incerto. Assim dá para ir descansando e perder-me pelo youtube enquanto adio uma série de coisas de que deveria tratar.

          Depois de almoçar e limpar a cozinha, foi altura de decidir o que fazer à tarde. Optámos por um passeio light, na medida em que não implicaria um número estúpido de quilómetros a pé. E, sem que eu soubesse bem para onde estava a ir, apaixonei-me. A arquitectura romana começa a entranhar-se, o caos das estradas deixa de o parecer, a beleza de alguns edifícios deixa-me incapaz de percepcionar a magnitude da obra, e Roma passa a ser um ferrero rocher por desembrulhar. 
        
        O plano era: ir ver o resultado dos testes de italiano e ver o meu horário, apanhar o metro e sair junto do Colosseu e seguir para a Piazza Navona. Pelo meio, perdemo-nos com pequenos grandes detalhes.


        Ainda a caminho do edifício onde estariam afixados os resultados do exame e as turmas, passámos pela Basilica de San Paolo que é de uma magnitude inimaginável. Eu, que não sou religiosa, ficaria, sem qualquer problema, horas naquela basílica perdida por entre detalhes infinitos.



        Depois de limpar a baba fui então ver os resultados: fiquei na turma mais básica de italiano, a A1. Disse ao meu examinador que não sabia falar apesar de entender muito do que lia e me diziam. Disse que nunca estudei a língua e ele considerou que o mais apropriado seria, então, começar de raiz, aprender tudo do início. E eu concordo com a avaliação dele. 
          Vi hoje os horários e nas próximas semanas terei as manhãs ocupadas com o curso intensivo de italiano.


          Seguimos então para o Colosseu. Hoje estava mais bonito. Não sei se era eu que estava diferente, se era ele. Mas hoje pareceu-me grandioso. 
          Continuando pela avenida fora, fomos ter ao Vittoriano, um monumento em homenagem a Victor Emmanuel II. Daqui vêem-se muitos dos pontos mais célebres da cidade. Também hoje, o cimo do Vittoriano, Roma estava de babar.





          Continuando a caminhar avenida acima, conversa para aqui, conversa para ali, fomos para a uma loja Tiger. Como duas crianças namorámos todo o tipo de bugigangas. E quando demos por ela eram sete e tal e Piazza Navona, nem vê-la. 
          Graças às distracções que fomos encontrando pelo caminho chegámos à praça por volta das oito. A esta hora, com o sol a pôr-se, a praça e a Fontana dei Quattro Fiumi (Fonte dos quatro rios) ganharam uma luz especial que tornou tudo ainda mais poderoso.




          E daqui partimos de volta para o metro, já com o céu escuro, para depois apanhar o autocarro e chegar a casa. Casa. 
             Não sei porquê, mas hoje à tarde Roma foi Amor.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Roma prendou-me com trovoada e muita chuva

          O Google Maps diz que o percurso mais rápido para ver tudo o que vi hoje são 9km. Eu e a minha companheira de viagem espreitámos tudo o que pudemos e enfiamo-nos em várias ruelas. Escrevo isto enquanto tenho os pés a latejar. 

         Voltei a acordar bem cedo para estar às 9h num edifício cuja localização em concreto eu desconhecia. Á italiana, isso quer dizer que tinha de estar lá as 9h30 ou 10h. Em todo o caso, porque gosto de ser pontual, uns minutos antes das nove já andava a perguntar onde era o edifício que procurava e lá cheguei. 
         Aí fiz um exame de italiano. Pretendia-se perceber o conhecimento da língua por parte dos Erasmus interessados em aprendê-la e, assim, dividir-nos em turmas consoante o conhecimento que já temos. 
        Teste escrito e de compreensão oral, razoável. Teste oral, para esquecer. Expliquei logo ao examinador que não sabia dizer nada, que entendia grande parte do que me diziam mas porque nunca estudei italiano não conseguia construir frases. Colocaram-me então numa turma de um nível básico para que eu aprenda tudo de raiz. Resta-me aguardar por sexta para saber o horário do curso de italiano para poder compreender as aulas do curso, lá para Outubro. 

          Do teste vim para casa para ir com a minha companheira de viagem arranjar o Codice Fiscale - número que nos permite ter descontos na cantina da faculdade.
          Com as burocracias previstas para o dia todas tratadas, avançámos em direcção a Trastevere. Deu para explorar a área e conhecer o Bairro Alto cá da zona.
         Infelizmente, por volta das sete e pouco da tarde, Roma abençoou-me com um temporal terrível, com direito a muita chuva e trovoada. Haveremos de voltar para jantar por ali.

          Acordei com sono e com sono continuo. Amanhã de manhã não tenho nada agendado por isso, que seja esta noite que descanso, finalmente!

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Os italianos são tipos estranhos

         O dia começou cedo para eu ir à faculdade tratar do documento que prova que cheguei a Roma e, assim, desbloquear o acesso (ou não) à bolsa de Erasmus. Portanto, desde as oito e tal da manhã que estou a cimentar a ideia de que os italianos são estranhos.

        Não falo italiano. Ainda. Entendo grande parte do que me dizem mas só consigo responder-lhes em inglês. Ora, isto tudo seria tranquilo se o italiano não fosse um indivíduo que tem um amor profundo à sua língua. Inglês, 'tá quieto. Assim, o início da manhã foi passado num discurso totalmente bilingue - da universidade falavam-me em italiano e eu respondia sempre em inglês. Mal eu imaginava que ia ser assim até ao fim do dia.

         Da minha faculdade (que é linda de morte) segui para a faculdade da minha colega de quarto, a pé, aproveitando então para explorar a área. Não imagino quantos quilómetros já tinha andado ao meio dia sendo que foram encontrados mais seis portugueses pelo caminho e dois italianos super prestáveis que tinham feito Erasmus em Portugal e por isso ajudaram o mais que puderam.

          O almoço foi comprado no Mercato di Testaccio. Aqui não há a cultura de comer refeições pré-feitas (razão pela qual o microondas não é um objecto comum). Por esta razão, porque queríamos alguma coisa rápida e barata passamos no mercado com a ideia de comprar o recheio de uma futura sandes. Qual não foi o espanto quando, depois de pedir presunto e queijo, o senhor nos pergunta se queríamos que ele metesse aquilo num pão. Depois de alguma supressa percebemos que, aparentemente, estas bancas com queijos, produtos de fumeiro e similares são uma espécie de loja de baguetes cá do sítio - chegamos, escolhemos o recheio e pedimos para ser posto num pão, ali à nossa frente.
           
          Ainda não encontrei pão fresco à venda. Não sei se também é uma questão cultural, mas parece-me que eles não sabem a maravilha que é pão quentinho com manteiga. Desconhecem a essência da vida, portanto.
          A única coisa que vi à venda foi uma espécie de pão de forma ensacado e pão duro. Mas mesmo duro, assim quase em modo tosta. Vi disso vendido às metades, embrulhado em película aderente. Por que raio alguém compraria pão que, de aspecto é fresco, mas que basta tocar para perceber que só de picareta é que se degusta uma eventual sandes? Mesmo que fosse para ser tosta há... tostas! 

         Depois do estômago bem forrado e passe de transportes públicos comprado, seguimos para o Colosseo e Foro Romano. 7,5€ de entrada para cada um que ficaram por gastar, uma vez que vimos tudo de fora. Hoje esteve tanto calor que acho que mesmo que entrasse nem ia ver nada. 
      Como sou uma pessoa de sorte, o Colosseo está em obras e portanto metade da construção está tapada com andaimes.

          Porque tenho até muita sorte, segui para a Fontana de Trevi e também esta estava tapada com arsenal de obras e manutenção. O espaço que mais queria ver na cidade ali, à minha frente sem que eu o pudesse ver. 

Afoguei então as minhas mágoas num gelato com dois sabores: Tiramissu e Caramelo. Acho que descobri o sentido da vida.

         Por esta altura só não tinha os pés a chorar porque nosso senhor não os prendou com olhos. 

          Eram quatro e tal e decidimos que estávamos estupidamente cansadas e doridas, a desesperar com tanto calor. Optámos por vir para casa tomar um duche e descansar. Chegamos as cinco. Ora, começámos a andar as 8h e muito e parámos oito horas depois. Não me lembro de andar tantas horas seguidas, apenas com curtíssimas paragens. Que isso surta efeito, que os gelati têm um lugar especial no meu coração.

          O saldo final do dia é: 
       - Ainda vou ser atropelada em Roma. Como é que alguém consegue conduzir nesta cidade? Tudo é caótico. Haver passadeiras ou não é quase indiferente - os carros param em cima delas sem problema algum.
        - Porque há bilhetes individuais de autocarro se ninguém paga para andar neste transporte público? As pessoas entram e acomodam-se como se o estranho fosse passar o bilhete. Nunca tinha visto isto em lado algum. 
          - Regra geral, não me parece que horários sejam uma coisa com grande importância para os italianos. Quem diz que alguma coisa começa as 9h, pode querer dizer que é as 9h30.
        - Por que é que ninguém me avisou que isto é um calor dos diabos? Trouxe pouquíssima roupa que suporte esta temperatura (vim na mala com cinco camisas de manga comprida e apenas com três ou quatro coisas mais frescas. Porquê, senhores, porquê?! Padeço de underpacking)
          - Dores de pés infinitas e cansaço daqui até Marte. 

        

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A aventura Roma começou hoje

          São 22h44 no momento em que começo a escrever isto - mais uma hora que em Portugal. Hoje tive um dos dias mais estafantes de que tenho memória.

          O dia começou lá para as duas e tal da manhã, hora em que acordei (de um sono curto de duas horas) para terminar a mala de porão e a de cabine, certificar-me que não excediam os pesos limite e que não me esquecia de nada fundamental. 
          Uma hora depois estava a rumar ao Porto, onde esperei até as 7h20 para descolar - e omite-se aqui o episódio melodramático de uma despedida que não o é uma vez que daqui a um mês tenho de regressar uns dias curtos a Coimbra.

           O voo com a TAP foi muito tranquilo e o pequeno almoço foi muito mais do que eu esperava. Consolou-me o estômago que só tinha visto água e umas bolachas Maria lá para as quatro da manhã.


          Durante a aterragem comecei a ter umas dores de ouvidos horríveis e fiquei "surda" - estado que ainda se mantém, ainda que ligeiramente mais atenuado. Se alguma alminha souber como solucionar este problema, que se acuse porque ter de entender estrangeiros e não conseguir ouvir são coisas incompatíveis.

          Assim que pisei solo romano foi saudada com um calor que não vi este ano em Portugal. Um abafado tal que até o vento era quente. Ás onze da manhã já os termómetros marcavam 28ºC o que, para ter de andar a carregar quase 30kg em malas foi uma recepção demasiado calorosa. 

          Sempre que precisámos de ajuda (eu e a rapariga que veio comigo) alguém se prontificou a ajudar, a explicar, a encaminhar - mesmo quando o único dialecto em que falávamos era um portulianoglês. Nesse ponto, os italianos já ganharam um lugar no meu coração. Mas depois têm um trânsito absolutamente caótico - pelo que já compreendi, a regra é a inexistência de regras. E também têm ruas sujas sujas sujas.

          Marcámos encontro com o dono da casa para onde viemos morar às 13h. Em italianês isso quer dizer que ele apareceu às 14h, como se fosse normal ter-nos deixado plantadas uma hora, sem ter como sair dali porque as dores de costas já não permitiam carregar mais as malas. 
          Assim que entrámos no apartamento ficámos agradavelmente surpreendidas com o tamanho do quarto. É enorme e tem imensa arrumação (à excepção de cabides). Eu, ao desfazer a mala, fiquei imediatamente preocupada com a quantidade de camisas de manga comprida que trouxe e que de nada me vão servir até Outubro e com a falta de roupa fresca. 
          Depois de uma análise mais cuidada percebemos que a cozinha, adjectivada como "kitchen and living room" pelo dono do apartamento mas que na verdade é minúscula e apenas lá cabem duas pessoas, precisava de uma limpeza a sério. A loiça e afins estava peganhenta, assim como os móveis. 

          Depois de desfazer malas e de ver bem a casa fomos conhecer a área e ver onde eram os supermercados para comprar comida e produtos de limpeza. Percebemos então que os italianos têm lojas por categorias. A mesma cadeia tem uma loja onde só vende detergentes e cremes e outra onde só vende comida e bebida. O choque é acompanhado pelo embate com os preços de tudo. Regra geral, tudo custa o dobro. Ou pelo menos mais um terço do que em Portugal (comprei bananas a 1,89€/kg).
           
          Como só temos quatro braços e tivemos de comprar várias coisas, optámos por vir a casa, comer qualquer coisa e voltar a sair para comprar o que faltava. O nível de energia já estava no menos um.

          Mais uma volta ao quarteirão, adaptador de corrente comprado, lojas dos chineses identificadas, supermercados visitados e compras feitas, regressámos a casa de vez e iniciámos a limpeza. 
          Chão, paredes, armários, todos os talheres, pratos, copos, tachos, louça de servir o comer, louças de casa de banho, tudo! Foi tudo corrido a pente fino com desinfectantes e afins e, apesar do dono do apartamento ter dito que tinham sido feitas limpezas profundas à casa, a água e os esfregões saíram sempre pretos. Tornámos o quarto, a casa de banho e a cozinha num verdadeiro lar. 

          Agora, depois de horas à guerra com o router (e do abençoado do meu irmão, via skype, ter conseguido solucionar o problema), estou com o computador ao colo a lutar por ficar acordada enquanto escrevo isto, sem conseguir manter um raciocínio lógico e uma sequência razoável das ideias de tão cansada que estou. Sinto os meus pés a chorar de tantas dores e amanha as 9h estarei, espero!, a matricular-me.