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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A minha vida é uma anedota

          Ainda no rescaldo do meu dia não, ontem saí de casa as nove e pouco para ter aulas às onze. Tinha decidido que ia aproveitar para parar no McCaffé, beber o meu cappuccino, comer um cornetto alla marmallata e rever a matéria que tinha sido dada no dia anterior enquanto degustava aquele manjar dos deuses.

         Depois de servida, levo o tabuleiro para a mesa escolhida e sento-me. Ás dez da manhã, estávamos três pessoas naquele estabelecimento que tem várias dezenas de lugares sentado.
         Sentadinha e deliciada com a opção alimentar extremamente saudável, saco o livro da mala para ir lendo enquanto comia. Pois é aqui que começa a mais um capítulo da minha autobiografia, intitulada "A minha vida é uma anedota".

          Estava a tentar concentrar-me na pacatez do espaço quando atrás de mim, sem que nada o fizesse antever, começo a sentir muito burburinho. Tinha optado por uma mesa junto a uma espécie de divisória constituída por uma série de tábuazinhas na horizontal, espaçadas e paralelas. Ao que parece, aquela divisória era o que o empregado queria limpar naquele preciso momento, a dez centímetros de mim. E que empregado? Um moço com uns vinte anos, com Síndrome de Down.
         E lá continuou ele, emitindo sons estranhos, passando um pano do pó à minha volta repetidamente. E eu, que queria ser mais teimosa que ele, deixei-me ficar na minha vida, fui comendo e lendo.
         Depois de uns dez minutos - que pareceram trinta - ali à minha volta, o rapaz sai de trás de mim e vem, com um borrifador numa mão e o pano na outra, limpar a mesa ao lado da minha. Uma mesa vazia, inocupada desde que tinha chegado, que não tinha qualquer necessidade de ser limpa.
       
         Ingénua que sou, achei que o moço seria chamado à atenção por algum superior por me estar a incomodar. Eu, uma cliente. Ingénua.
         "Mmmmbbllhhrmm?" ... "Scusi?"... Depois de muito balbuciar e esguichar a minha mesa e o meu livro com desinfectante, o rapaz lá se fez entender - queria que eu saísse dali porque queria limpar a minha mesa. A minha! Estávamos ali três pessoas, caraças! Havia mais umas dezenas delas em que o rapaz se podia ter entretido, mas não. O tipo com trissomia tinha de ter pontaria e meter na cabeça que a minha mesa estava um pandemónio bacteriano e precisava de uma acção rápida.

         E pronto, ele venceu. Com medo que o gajo me tentasse esguichar desinfectante para o cappuccino lá o terminei, meti o resto de croassaint à boca, livro na mala, e saí do McCaffé.

         Incrível como por vezes não entendo o que as pessoas me querem dizer, num italiano fluente. Mas um tipo com uma deficiência profunda e notória eu entendi. A minha vida é uma anedota.

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