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sábado, 13 de setembro de 2014

Devagarinho, deixo de ser alien

          Ao contrário daquilo que imaginei, Roma não se infiltrou em mim à primeira vista. A coisa está a entranhar-se muito devagarinho. Pensava que ia chegar e, tal como aconteceu quando fui a Londres, iria sentir que esta cidade podia ser casa, que era tão minha como de quem cá nasceu. A verdade é que o sentimento de não pertença foi enorme e hoje, ao quinto dia passado na capital italiana, este encolheu para dar espaço a uma vontade de explorar.

          Não senti propriamente vontade de voltar para casa, mas a total inexistência de pilares para além da minha companheira de viagem que, graças a Deus, foi uma surpresa e um bombom neste processo, fez com que me sentisse totalmente desamparada - sobretudo anteontem e ontem. Talvez porque tenham sido dias em que o ritmo de passeio foi ligeiramente abrandado, tive tempo a mais para pensar e percebi finalmente no que me meti.
          Vou estar a morar um total de seis meses longe de casa, numa cidade que não me fez morrer de amor por ela assim que aterrei e onde, para total surpresa minha, há uma série de hábitos totalmente diferentes dos portugueses. Pela primeira vez na vida, não tenho rede de segurança.
           Hoje, sem aviso, a ideia de estar "sozinha" não gerou ansiedade mas sim o desejo de alargar barreiras, de me dar às coisas e de absorver tudo o que conseguir.

          Acordei, sem despertador nem obrigações, às 9h. Tinha-me deitado tarde mas, mesmo assim, o meu cérebro determinou que seria hora de aconchegar a pancinha. Ainda sem pão, lá fui eu comer o que tem sido o pequeno-almoço: um iogurte, uma peça de fruta, duas tostas integrais e uma fatia de fiambre. 
          Estes últimos dias têm permitido passar a manhã por casa até porque o tempo tem estado incerto. Assim dá para ir descansando e perder-me pelo youtube enquanto adio uma série de coisas de que deveria tratar.

          Depois de almoçar e limpar a cozinha, foi altura de decidir o que fazer à tarde. Optámos por um passeio light, na medida em que não implicaria um número estúpido de quilómetros a pé. E, sem que eu soubesse bem para onde estava a ir, apaixonei-me. A arquitectura romana começa a entranhar-se, o caos das estradas deixa de o parecer, a beleza de alguns edifícios deixa-me incapaz de percepcionar a magnitude da obra, e Roma passa a ser um ferrero rocher por desembrulhar. 
        
        O plano era: ir ver o resultado dos testes de italiano e ver o meu horário, apanhar o metro e sair junto do Colosseu e seguir para a Piazza Navona. Pelo meio, perdemo-nos com pequenos grandes detalhes.


        Ainda a caminho do edifício onde estariam afixados os resultados do exame e as turmas, passámos pela Basilica de San Paolo que é de uma magnitude inimaginável. Eu, que não sou religiosa, ficaria, sem qualquer problema, horas naquela basílica perdida por entre detalhes infinitos.



        Depois de limpar a baba fui então ver os resultados: fiquei na turma mais básica de italiano, a A1. Disse ao meu examinador que não sabia falar apesar de entender muito do que lia e me diziam. Disse que nunca estudei a língua e ele considerou que o mais apropriado seria, então, começar de raiz, aprender tudo do início. E eu concordo com a avaliação dele. 
          Vi hoje os horários e nas próximas semanas terei as manhãs ocupadas com o curso intensivo de italiano.


          Seguimos então para o Colosseu. Hoje estava mais bonito. Não sei se era eu que estava diferente, se era ele. Mas hoje pareceu-me grandioso. 
          Continuando pela avenida fora, fomos ter ao Vittoriano, um monumento em homenagem a Victor Emmanuel II. Daqui vêem-se muitos dos pontos mais célebres da cidade. Também hoje, o cimo do Vittoriano, Roma estava de babar.





          Continuando a caminhar avenida acima, conversa para aqui, conversa para ali, fomos para a uma loja Tiger. Como duas crianças namorámos todo o tipo de bugigangas. E quando demos por ela eram sete e tal e Piazza Navona, nem vê-la. 
          Graças às distracções que fomos encontrando pelo caminho chegámos à praça por volta das oito. A esta hora, com o sol a pôr-se, a praça e a Fontana dei Quattro Fiumi (Fonte dos quatro rios) ganharam uma luz especial que tornou tudo ainda mais poderoso.




          E daqui partimos de volta para o metro, já com o céu escuro, para depois apanhar o autocarro e chegar a casa. Casa. 
             Não sei porquê, mas hoje à tarde Roma foi Amor.

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