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terça-feira, 9 de setembro de 2014

Os italianos são tipos estranhos

         O dia começou cedo para eu ir à faculdade tratar do documento que prova que cheguei a Roma e, assim, desbloquear o acesso (ou não) à bolsa de Erasmus. Portanto, desde as oito e tal da manhã que estou a cimentar a ideia de que os italianos são estranhos.

        Não falo italiano. Ainda. Entendo grande parte do que me dizem mas só consigo responder-lhes em inglês. Ora, isto tudo seria tranquilo se o italiano não fosse um indivíduo que tem um amor profundo à sua língua. Inglês, 'tá quieto. Assim, o início da manhã foi passado num discurso totalmente bilingue - da universidade falavam-me em italiano e eu respondia sempre em inglês. Mal eu imaginava que ia ser assim até ao fim do dia.

         Da minha faculdade (que é linda de morte) segui para a faculdade da minha colega de quarto, a pé, aproveitando então para explorar a área. Não imagino quantos quilómetros já tinha andado ao meio dia sendo que foram encontrados mais seis portugueses pelo caminho e dois italianos super prestáveis que tinham feito Erasmus em Portugal e por isso ajudaram o mais que puderam.

          O almoço foi comprado no Mercato di Testaccio. Aqui não há a cultura de comer refeições pré-feitas (razão pela qual o microondas não é um objecto comum). Por esta razão, porque queríamos alguma coisa rápida e barata passamos no mercado com a ideia de comprar o recheio de uma futura sandes. Qual não foi o espanto quando, depois de pedir presunto e queijo, o senhor nos pergunta se queríamos que ele metesse aquilo num pão. Depois de alguma supressa percebemos que, aparentemente, estas bancas com queijos, produtos de fumeiro e similares são uma espécie de loja de baguetes cá do sítio - chegamos, escolhemos o recheio e pedimos para ser posto num pão, ali à nossa frente.
           
          Ainda não encontrei pão fresco à venda. Não sei se também é uma questão cultural, mas parece-me que eles não sabem a maravilha que é pão quentinho com manteiga. Desconhecem a essência da vida, portanto.
          A única coisa que vi à venda foi uma espécie de pão de forma ensacado e pão duro. Mas mesmo duro, assim quase em modo tosta. Vi disso vendido às metades, embrulhado em película aderente. Por que raio alguém compraria pão que, de aspecto é fresco, mas que basta tocar para perceber que só de picareta é que se degusta uma eventual sandes? Mesmo que fosse para ser tosta há... tostas! 

         Depois do estômago bem forrado e passe de transportes públicos comprado, seguimos para o Colosseo e Foro Romano. 7,5€ de entrada para cada um que ficaram por gastar, uma vez que vimos tudo de fora. Hoje esteve tanto calor que acho que mesmo que entrasse nem ia ver nada. 
      Como sou uma pessoa de sorte, o Colosseo está em obras e portanto metade da construção está tapada com andaimes.

          Porque tenho até muita sorte, segui para a Fontana de Trevi e também esta estava tapada com arsenal de obras e manutenção. O espaço que mais queria ver na cidade ali, à minha frente sem que eu o pudesse ver. 

Afoguei então as minhas mágoas num gelato com dois sabores: Tiramissu e Caramelo. Acho que descobri o sentido da vida.

         Por esta altura só não tinha os pés a chorar porque nosso senhor não os prendou com olhos. 

          Eram quatro e tal e decidimos que estávamos estupidamente cansadas e doridas, a desesperar com tanto calor. Optámos por vir para casa tomar um duche e descansar. Chegamos as cinco. Ora, começámos a andar as 8h e muito e parámos oito horas depois. Não me lembro de andar tantas horas seguidas, apenas com curtíssimas paragens. Que isso surta efeito, que os gelati têm um lugar especial no meu coração.

          O saldo final do dia é: 
       - Ainda vou ser atropelada em Roma. Como é que alguém consegue conduzir nesta cidade? Tudo é caótico. Haver passadeiras ou não é quase indiferente - os carros param em cima delas sem problema algum.
        - Porque há bilhetes individuais de autocarro se ninguém paga para andar neste transporte público? As pessoas entram e acomodam-se como se o estranho fosse passar o bilhete. Nunca tinha visto isto em lado algum. 
          - Regra geral, não me parece que horários sejam uma coisa com grande importância para os italianos. Quem diz que alguma coisa começa as 9h, pode querer dizer que é as 9h30.
        - Por que é que ninguém me avisou que isto é um calor dos diabos? Trouxe pouquíssima roupa que suporte esta temperatura (vim na mala com cinco camisas de manga comprida e apenas com três ou quatro coisas mais frescas. Porquê, senhores, porquê?! Padeço de underpacking)
          - Dores de pés infinitas e cansaço daqui até Marte. 

        

3 comentários:

  1. Oh gaja, fixa esta pergunta e usa-a:

    dove posso comprare il pane fresco?

    :P

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    Respostas
    1. Vi hoje pela primeira vez um saco de pão à venda. Quatro pães, 1,60€.

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  2. A adorar os relatos dos primeiros dias. Espero que os episódios caricatos não acabem e que o italiano se afine.

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