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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Se fosse um Sims, tinha o diamante vermelho

     "Sim, já vi tudo, isto é muito simpático mas já está bom. Vou para casa". Era precisamente isto que hoje me apetecia ir dizer à faculdade daqui, fazer a mala e pôr-me a caminho do aeroporto. Na verdade, se fosse rica já estava de mala pronta para ir para Portugal pelo menos o fim de semana.

          Acordei com o desperator às sete. Quer dizer, pseudo-acordei. Tive uma noite de cão não só porque as melgas romanas vêem em mim um repasto de luxo como porque todo e qualquer barulhinho serviu para me trazer de volta da espécie de sono maricas que fui tendo. O mau estar com que abri os olhos foi agravado pelo sono. 

          Sem vontade nenhuma lá me arrastei da cama, vesti e fui para a aula de italiano que piorou o meu humor - o meu italiano continua, e não consigo arranjar um eufemismo para o adjectivar, uma merda. Assim mesmo. Cada vez compreendo mais do que ouço mas falar, nada. Não sai. Não sei se tenho algum bloqueio mental, se um défice de qualquer coisa, mas pareço uma pessoa com deficiências profundas quando tento expressar-me na língua de Leonardo da Vinci. E ali fico, empancada, sem conseguir pensar.
          Depois de várias tentativas falhadas de construir frases, e quatro horas depois do início da aula, a professora atribui os trabalhos de casa: muito mais matéria do que a dada na manhã. Para ser tudo feito esta tarde e apresentado amanhã. Mas como?! Se com uma italiana a explicar-me as coisas preciso de uma manhã inteiro, como vou eu aprender muito mais numa tarde, sozinha? 

          Este é o meu décimo sétimo dia em Roma. Sinto-me super desconfortável, no geral, assim como um pinguim no Sahara. Não tenho o meu material de estudo, o meu sofá de leitura nem a minha gata sob os livros. Tenho antes um porta minas só com uma mina, uma caneta preta e uma azul; uma secretária com uma tábua por baixo que só permite uma posição confortável se eu mandar amputar as pernas e uma almofada insuflável para apoiar o material quando estudo na cama (porque não tenho outro sítio).
           Não tenho a minha máquina de café, as bolachas marias e os chá Marooco da Lipton. Tenho chá preto do Lidl que deixa a caneca cheia de pelezinhas esquisitas e bolachas que ficam muito aquém das minhas Maria.
          Não tenho a família à distancia de umas estações de comboio, chamadas telefónicas quando me apetece dizer disparates nem café ao fim de semana com os pais. Uso o skype parcamente, o Viber quando chego a casa e tenho tempo, e o Whatsapp quando apanho wi-fi.
          Não tenho a minha roupa, os meus sapatos e acessórios. Tenho antes uma única mala, um colar, duas sombras e eyeliner e pouca roupa que trouxe.

          Estou totalmente sem rede. E hoje, por alguma razão, isso sentiu-se desde que abri os olhos. Não acredito que vou escrever isto mas fazer Erasmus é mais difícil do que eu estava à espera. Porque quando se anda em passeio tudo está bem, a vista anda ocupada e a cabeça também. Mas quando há um dia não, quando chega o tempo morto, não há para onde ir. Não há casa. 

          Roma também não tem muito para oferecer. O que eu quero ver é caro e o resto é à base de noites e copos - e eu não gosto muito de sair à noite nem bebo álcool. 
          Ver-me assim, a sentir-me "deslocada" deixa-me frustrada porque sinto que há coisas que devia estar a viver e não estou. Ora porque não me apetece, ora porque estou cansada e tenho de acordar às sete. Queria que fosse tudo fácil, queria que eu fosse mais fácil. Gostava de ter chegado e ter sentido esta cidade como minha.

          Os dias "não" são estupidamente mais difíceis longe de casa. Mas se eu não me tivesse afastado, nunca ia entender o que isso era - casa. Ao fim de dezassete dias aqui já sei que casa não é um lugar. São pessoas. 

2 comentários:

  1. Bem verdade. E até é melhor porque estás acompanhada, senão aí é que estavas mesmo sozinha.
    Mas olha, tens o google translate para te ajudar no Italiano ;)

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  2. Tive muita sorte com a minha colega de quarto! Isso é inegável. Talvez aquilo que eu mais temia acabou por ser o mais simples. Nunca estou verdadeiramente "sozinha".

    Oh, eu entendo o que me dizem e entendo o italiano escrito. O meu único problema é falar. Assim que vou para falar o meu cérebro muda para inglês e pronto, não consigo formar frases em italiano. Preciso é de conhecer um italiano com quem falar :P

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