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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Não gosto de despedidas

        Detesto despedidas. Nem pequenas, nem grandes, nem assim-assim. Incomodam-me. Aquela ideia de finitude, do adeus, aflige-me sempre. Lido até melhor com o adeus inevitável da vida do que com as despedidas que tenho de fazer a pessoas que vão continuar a existir mas que vão deixar de estar na minha vida, por alguma razão.

        A primeira grande despedida de que me lembro, ou aquela que mais me marcou, foi quando recebi uma turca em minha casa durante uma semana, através de um intercâmbio de escolas secundárias. Ela veio com dois amigos e andámos sempre juntos. Uma semana, todas as horas juntos, comer juntos, brincar juntos, passear juntos. Sem que eu saiba explicar porquê, ao fim de dois ou três dias eu percebia parte das conversas que tinham em turco e eles percebiam muito do que eu dizia em português.
        Se alguém me fizesse um relato idêntico, identificaria logo um tangueiro. Mas não. É real. As pessoas ligam-se a conexão não é obrigatoriamente mais forte só porque se passa mais tempo junto. 
        O dia em que tive de deixá-los no aeroporto, sabendo que certamente era a última vez que os via (porque a vida continua a correr, cada um segue o seu caminho), foi profundamente doloroso. Acho que chorei até ter os olhos em pó. 

         Depois aconteceu algo semelhante quando foi o dia de regressar de Erasmus. Andei ali dias a moer no assunto. "O que faço? Conto-lhes que me vou embora? Aviso o dia da minha partida?".
         Foi neste regresso que percebi que simplesmente não sei lidar com isso. Fico com a alma em frangalhos e nasce-me sempre um coração que passo meses a julgar não ter.
       Decidi ir escrevendo um caderno às duas pessoas que trouxe no coração, caderno esse onde relatei os momentos que mais me marcaram e agradeci por tudo o que me fizeram ganhar. Agradeci por terem passado a ser um bocadinho meus e por, invariavelmente, um pedacinho de mim ter ficado com eles também. Preparei as prendas de madrugada e saí, às seis e pouco da manhã, sem que ninguém em casa desse por isso. 

         E hoje foi mais uma espécie de despedida, a uma escala menor. Foi o último dia que trabalhei com algumas pessoas, uma vez que o meu contrato termina amanhã. E custa, porque fui profundamente feliz. Não só gostei do que fiz como me senti útil (foi o primeiro trabalho a sério), e adorei o ambiente de trabalho. 
         Também passei pelo "como é que posso agradecer o carinho sem parecer uma inapta social?". Porque nisto dos contratos curtos de trabalho em lojas é muito ingrato: nós, que estamos lá umas semanas, afeiçoamo-nos às pessoas que nos acolhem (e, no meu caso, super bem). Mas para quem recebe os novos trabalhadores, podem ser "só mais umas pessoas novas". Porque é usual. Acabam uns contratos, começam outros. Os trabalhadores trocam, a loja não para. Parece sempre que nós gostamos mais deles do que eles poderão gostar de nós (o que é compreensível, atenção. Aqueles dias são especiais aos nossos olhos, não aos deles que fazem aquilo o resto do ano).
         Além disto, há o desafio de saber lidar com a despedida de um lugar onde me senti tão bem. Nunca me senti tão cansada (porque há exames na faculdade já em Janeiro) e bem disposta ao mesmo tempo. Sairei grata por tudo.

         E hoje, pela primeira vez, acho que tive sucesso, ainda que muito relativo. Consegui agradecer a quem senti que tinha de o fazer, consegui criar uma espécie de recuerdo-manhoso para quem me ensinou o que aprendi, e sinto que fui capaz de transmitir a minha gratidão.
        No fundo, o meu problema é simples: é lidar com isso de sentimentos e toda essa panóplia de coisas complicadas. Mas hoje tive algum sucesso. Hoje correu bem. 
*auto congratulação*

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O piropo, esse demónio.

        Hoje o Twitter está dominado por este assunto: o piropo, essa coisa que é um "assédio sexual verbal e público, humilhante". 

        Estou a trabalhar numa caixa de uma loja. Tal já levou a que contactasse com dois rebarbados sujeitos que tiveram uma abordagem absolutamente surreal. Um mostrou-me cuecas e perguntou-me se podia comprar daquilo na loja (que nem sequer vende roupa!), outro disse-me que eu era erótica (?). 
        A par disto, e como qualquer dona de um pipi, também já passei perto de obras e ouvi coisas sem sentido, sem piada. 
        Se acho que algum destes casos deve ser crime (se é que são considerados piropos)? Não!

       Afinal, o que é um piropo? É preciso ser-se específico, fazer propostas concretas, tipo "comia-te toda"? Ou basta ser um elogio feito num tom ordinareco, como "és boa como o milho?"? 
     O artigo 170º do Código Penal (usado para fundamentar esta nova criminalização) refere como crimes:
        - praticar actos de carácter exibicionista (como aquele caso típico do tontinho que anda só de gabardine e a abre no meio da rua);
           - formular propostas de teor sexual (onde parece poder inserir-se o piropo)
           - constranger outra pessoa a contacto de natureza sexual.

          Portanto, o "o teu pai é um ouvires? é que és cá uma jóia" ou o já mencionado "és boa como o milho" não são piropos, é isso? É que não se consubstanciam em nenhuma das hipóteses referidas no artigo.

      Qual é o bem jurídico protegido pela criminalização do piropo? Em que é que este afecta assim tanto as "vítimas" que mereça ser punido penalmente? 
      A minha posição é que as coisas têm a importância que lhes damos. Se há um idiota qualquer a dizer baboseiras, compete-me a mim decidir se lhes presto atenção ou não. E isto valerá também para insultos, por exemplo. 

        O "era até achar petróleo" é realmente danoso? Em que medida é um verdadeiro assédio sexual? Quem profere essas coisas faria, na verdade, alguma coisa caso tivesse oportunidade? E como é que é humilhante para quem ouve? A humilhação que existe é a que quem acha que o piropo, como piadola ordinária, pode funcionar para o engate.

        Mais: passamos a vida a usar a liberdade de expressão para defender barbaridades ditas por pessoas como o Pedro Arroja (que tem direito à sua opinião assim como a ouvir os comentários a ela dirigidas). Mas depois, um senhor que trabalhe numa obra qualquer já não tem direito a expressar a sua opinião e questionar se uma senhora é da tmn porque o seu rabo é um mimo (piropo já desactualizado, é um facto)?
        Afinal, isso do je suis charlie só funciona às vezes. Pode gozar-se com a religião, por exemplo. Mas opinar sobre o traseiro de uma moça, ui!, é crime. 

        Isto do piropo ser crime passa até a imagem da mulher como um género frágil que precisa de toda a protecção e mais alguma só porque o é. Eu sou capaz de me defender sozinha das piadolas ordinarecas, das bocas sem graça. Não preciso de um direito penal tipo cão raivoso atrás de mim, porque sou mulher, pronto a morder em qualquer homem porque os homens são todos maus e dizem coisas feias.

        Não sei se sou em que sou zen e opto por não ligar a idiotas pessoas sem graça, mas tenho muitas reticências em reconhecer eficácia e necessidade em criminalizar o piropo.

       P.S.: Admito que haja diferentes sensibilidades e que aquilo que para mim é um comentário sem jeito algum, ao qual não dou qualquer importância, pode ser extremamente ofensivo para outra mulher. Mas deve o direito penal estar permeável a essas sensibilidades todas? Toda e qualquer coisa ofensiva, jocosa, vinda de um troglodita, deve ser crime?

domingo, 25 de outubro de 2015

          Não consigo arranjar um part-time porque me exigem experiência.   //
          Preciso que alguém me dê uma oportunidade num part-time para ganhar experiência.

sábado, 24 de outubro de 2015

Netflix&Chill

        O tempo tem estado incrivelmente propício para Netflix and Chill. 

        Como não tenho Netflix nem ninguém para Chill, embrulho-me numa manta e enfio a cara nos acórdãos, nas leis e nos códigos, com a missão de organizar os meus apontamentos e fazer resumos razoáveis. 

        Todos os dias acordo com o pensamento "Ainda vou a tempo de mudar para Dança...".

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Não somos a Grécia

         Hoje um professor, durante uma aula, teceu elogios ao impacto da coligação no país. De entre coisas como "Portugal está melhor", "A Europa percebeu que os portugueses são bons alunos e confia em nós", "Se tivermos um governo de esquerda ele vai ter de se ajoelhar e fazer o mesmo que a direita faz"  ...


         ... eu tenho de sublinhar a melhor: "Com a coligação, Portugal ficou bem. Portugal está óptimo... Comparado com a Grécia". 
         Compreendo. Eu sou linda e gostosa. Comparada com a Odete Santos.


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Sabem o que é um inferno burocrático?


  •  Lugar onde, por cada problema aparentemente resolvido, surge mais um obstáculo e dois sub problemas - assim uma concretização do "cada cavadela cada minhoca relativa aos problemas académicos;
  • Uma faculdade cujos regulamentos diferem (para pior, porque são mais restritivos) dos da pessoa colectiva a que está subordinada;
    • Queres ir de Erasmus e fazer as cadeiras a que não te deram equivalência ainda no mesmo semestre? Nada disso, esperas por Setembro que é para teres calma que devagar e bem não faz ninguém;
    • Tens direito a inscrever-te a 60 créditos novos + 24 de reinscrição, num total de 84, e precisas de te inscrever a 66 novos + 18 de reinscrição, um total também de 84 créditos? Não podes que isto não é de acordo com a vontade do freguês. Aguardas, que devagar se vai ao longe;
    • Tens duas cadeiras de licenciatura por fazer e querer seguir para mestrado? Óptimo! Mas uma cadeira de dois créditos fica para o ano, mesmo que tenhas créditos livres de sobra para te poderes inscrever. E depois no ano seguinte entregas a tese, amor. Isto é preciso é calma, que é a virtude dos fortes;
  • Um serviço que, para ser capaz de vos prestar apoio numa questão, vos obriga a contactar o Papa, três marcianos e um unicórnio;
  • Uma entidade que decide sempre o oposto daquilo que o senso comum tem como razoável e justo. Se queres ser jurista é bom que tenhas contacto com as adversidades da vida desde cedo, que não andamos aqui a criar meninos. Temos ou não temos juristas, car@÷£ø?

O inferno burocrático é a minha faculdade, pessoas, a minha faculdade! 

Disto do racismo como escudo para tudo

        Sou uma pessoa dedicada à cultura nas suas mais variadas áreas. Como se pode depreender disto, invisto parte do meu tempo a ver A Quinta, o reality show onde entraram alguns famosos que ninguém conhece.
         Um dos ilustres desconhecidos é um tal de Larama, angolano e vencedor do Big Brother do seu país. Acontece que este Larama é um energúmeno que desenvolve actividades como esconder cuequinhas das meninas, ou lá o que senhor fez poucas horas depois de entrar na quinta. Depois faz outras coisas giras, como piadolas misóginas de cariz sexual. É um pequeno labrego, pronto. E isto será, certamente, o jogo dele. Optou por uma postura que choca, que irrita e que faz qualquer pessoa querer entrar no ecrã para sacudir o pó do senhor (em Angola, esta estratégia levou-o ao primeiro lugar, fazendo-o crer que em Portugal tal sucederia novamente). 
         
          O Larama percebeu que o seu comportamento destoava do resto do grupo. De que arma sacou o senhor para se defender? Do racismo, claro. A arma de defesa de qualquer minoria é sacar do facto que o é e camuflar isso com a vitimazação.
          Ora um "suponhamos": tenho mau feitio. Opto por ser uma besta com laivos de psicopatia com qualquer pessoa que fale comigo. Calha que sou obesa. Assim que alguém me confronte com a minha atitude vou defender-me e dizer que estou a ser vítima de bullying porque sou gorda. E este raciocínio vale para imensas situações.

         O racismo é um problema sério, ainda hoje. E quando uma minoria mal comportada saca do escudo do racismo para se proteger, tira o valor da palavra. No dia em que alguém tiver de fazer frente à descriminação de forma legítima, verá a sua força diminuída pela estupidez alheia (como acontece com o feminismo, por exemplo).

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Constatação

       As pessoas que agora acusam BE e PCP de irresponsabilidade por afirmarem não ter planos de aceitar acordos com a coligação e o país estar numa situação política débil, parecem-me ser precisamente as mesmas que festejaram quando os partidos da coligação contribuíram para a queda do governo PS em 2011, também num cenário débil.

Síndrome de Estocolmo?

        Sou uma optimista. Percebi-o quando fiquei chocada com o resultado das legislativas porque tinha a esperança que o povo traduzisse o seu cansaço de ser explorado numa mudança de atitude.

       A verdade é que Portugal reelege sempre quem está no poder, excepto depois do segundo mandato, em que direcciona os votos para o partido que o espezinhou antes do que está no governo. E isto parece-me incompreensível. Passamos anos a queixar-nos das medidas absurdas que nos são impostas e depois legitimados precisamente o mesmo governo?

       Preciso que alguém me explique, devagar, qual é a razão que leva um pobre a votar na direita. Se não tens um tacho qualquer, não beneficias destas políticas ou não tens problemas cognitivos graves, porque dás o voto a um partido que assenta sempre em esmagar a classe média e, sobretudo, a baixa para alimentar as barrigas já gordas de quem não tem fome? 
       E esta dúvida ultrapassa as minhas ideologias. É uma dúvida real. Para a coligação ganhar com quase dois milhões de votos é porque há quem, por alguma razão, lhe reconheça mérito na governação.

      As ajudas à vitória da coligação são o facto de haver quem: a) se sinta impotente e não reconheça poder ao sistema democrático - abstém-se de votar; b) pense que não vale a pena votar porque o poder será sempre atribuído aos dois partidos que habitualmente governam - também se abstém; c) se identifique com um outro partido mas caia no erro do voto útil.

     Mas está tudo tranquilo com os cortes nas pensões, com os cortes na educação e na saúde, com os números assustadores da emigração e do desemprego (real! ninguém come essa história de estágios e mais estágios não remunerados ou mal pagos), com os casos escandalosos de corrupção, com o alargamento do horário de trabalho e supressão de feriados? 

    "I hate victims who respect their executioners.", Jean-Paul Satre.


    Também não é de ignorar que o Bloco conseguiu a novo máximo e que, com a CDU, soma um milhão de votos. Existe, apesar da vitória da coligação, uma vontade de mudar.

domingo, 4 de outubro de 2015

Irritações com boletins de voto

        Não sei se sou eu que sigo as pessoas erradas nas redes sociais mas tenho a minha timeline repleta de pessoas indignadas devido ao facto de ter surgido uma onda de fotografias de boletins de voto.

        Pessoas, decidam-se. Se há abstenção é porque somos todos desinteressados e faz falta um incentivo ao voto. Se o pessoal decide exercer o seu direito e partilhar que o fez (que pode ter mais efeito a levar outros às urnas do que apelos de políticos) o mundo cai, porque os eleitores não o conseguem ser sem esfregar isso na cara dos demais. 

      As pessoas precisam de andar irritadas com qualquer coisa. Como a onda do “aaahhh, seu energúmeno, vais ajudar refugiados mas ajudar tugas 'tá quieto” já se está a dissipar, hoje o tuga irrita-se com papeis impressos… Valha-me deus.

       Mas qual é, afinal, o problema de partilhar a foto do boletim? Só reconheço um: usar o boletim para "brincar", para desenhar piretes ou acrescentar "Bruno de Carvalho" ou "Benfica". De facto, enquanto o tuga der primazia à bola em vez de tentar mudar o país, merece todo o mal que cai sobre ele graças às políticas que não elege.




Parem com isto, pessoas. Não ajuda ninguém nem tem piada. Obrigada.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Dois sisos já foram.

       Faço parte da maioria das pessoas que entra em pânico só com a ideia de ir ao dentista. Tinha a cirurgia marcada para tirar um siso há mais de um mês. Hoje foi o dia que me arrastei até à clínica para me despedir de um siso, pelo menos uma semana depois de ter deixado de dormir decentemente. 

      Quando o cirurgião me viu achou que era viável tirar os dois sisos do mesmo lado. E foi absolutamente indolor. Fico sempre a sentir-me patética por sofrer tanto por antecipação por uma coisa que não custa nada.
      Bem, não custar nada não é verdade. Uma hora depois, já em casa, a anestesia começou a perder efeito no maxilar de cima e vieram as dores. Ainda suportáveis, é certo, mas permanentes e chatas. Diz que amanhã já é suposto não ter grandes dores e dez dias depois é para passar na clínica e tirar os pontos.

      O certo é isto: com dores ou não, daqui a dois dias é dia de exercer o direito de voto! Sem desculpas.


quinta-feira, 1 de outubro de 2015

"Votava no PAF? Sim! E na coligação PSD-CDS? Não!!"




       Chegámos a isto. Não me choca. As campanhas são ocas: fala-se em números que as pessoas não entendem e ignoram-se assuntos que, de facto, têm impacto junto dos votantes como educação, saúde, cultura, adopção, aborto, fertilização in vitro para mulheres solteiras, ... 

       Depois é um acumular de gerações em que o ensino não o é! Com o foco de enfiar os miúdos horas e horas na escola, a decorar coisas e a fazer tempo em aulas como "formação cívica", permitiu-se que os putos estejam habituados a que toda a gente pense por eles. Na verdade, hoje consegue-se terminar o secundário sem ter opinião sobre coisa alguma, a ser pouco menos do que um papagaio do que se leu nos manuais. Que tal aproveitar essa tal disciplina de formação cívica para confrontar os miúdos com vários problemas e obrigá-los a pensar, mostrando-lhes o que cada partido/pensador aponta como solução possível? Muitos chegariam aos 18 anos capazes de exercer o direito que ganham nessa idade!

        Os debates são um passar da batata quente, onde arranjar soluções é uma coisa absolutamente secundária face a arranjar um culpado para a situação presente. A campanha é uma extensão disto. 
       Chegada a hora de votar, poucos são aqueles que conseguem responder à questão "o que defende o partido em que vais votar?" e a culpa não é de quem vota (ou não o faz). É de quem não consegue veicular a mensagem, de quem é incapaz de apresentar ideias para problemas, de surgir com soluções explicadas de forma a que todos as entendamos. 

       Hoje, com tantas redes sociais, com a maioria dos portugueses com computador com acesso à internet, não encontro justificação para que um partido/coligação não crie um site, por exemplo, onde apresente as suas ideias para as mais variadas áreas de uma forma clara (ou seja, para que várias idades e classes sociais as consigam entender).

      É fácil culpar as pessoas. Mas quando é a esmagadora maioria que está neste limbo do ""votava Portugal à Frente mas nunca votaria na coligação PSD-CDS" ou "não percebo nada de política", dificilmente a culpa é dessa massa de gente. Os culpados são aqueles que promoveram este estado de coisas, este descolar do mundo político das pessoas (que favorece aqueles que vão estando sempre no poder).

Descobri Orange Is The New Black a semana passada

      E já vi as três temporadas. Há muito tempo que não ficava tão agarrada a uma série. 


      Orange is the new black conta a história de Piper Kerman - na série, Piper Chapman-, uma mulher condenada por lavagem de dinheiro relacionado com o negócio da droga. Baseada num livro de memórias do quase ano e meio que a autora esteve presa, esta série é rica em núcleos fortes e quase independentes (à semelhança de Guerra dos Tronos, por exemplo). 
     Ao contrário da maioria das séries, nesta o tempo passa bem devagar. No total de 39 episódios - sendo que o primeiro foi disponibilizado em 2013 e o último este ano - passam uns dez meses. Para mim isto é uma vantagem: acompanhamos com mais detalhe a vida de cada uma das presidiárias, conhecemos as razões que as levaram àquele lugar e facilita que sentamos compaixão por elas.

      É ainda interessante ver como passamos do "esta pessoa é uma criminosa que merece o que lhe aconteceu" para "com uma vida assim, talvez eu acabasse a fazer o mesmo". É facílimo julgar alguém pela acção "final", sem conhecer a sua história, saber donde vem e o que a moldou. 

      Gosto sempre de aumentar a minha escala de cinzentos, de combater a minha tendência de marcar tudo como branco ou preto. E acho que Orange is The New Black fez isso por mim: voltou a relembrar-me que é preciso humanizar as pessoas antes de as julgar, que é preciso não saltar para conclusões só porque alguém, num determinado momento, errou.  

      Agora é aguentar até 2016 pela quarta temporada...

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Sonhei que estava de volta a Roma e tive saudades.

        Nunca, em nenhum dos dias dos cinco longo meses em que morei lá, pensei que chegaria a hora em que sentiria saudades daquela cidade caótica. A confusão, o barulho constante do transito infernal, as conversas de varanda para varanda e das pessoas que não conhecem outro volume de voz que não o gritar, os italianos (que na maioria têm ar de broncos) que se julgam a última coca-cola do deserto, a inércia face a tudo o que seja burocracia importante para quem está a morar fora do país. O cenário que conheci não fazia antever que, um ano depois de ter embarcado para lá, visse o meu coração engolido por um montão de saudades.

        Tenho saudades do velho-bonito, daquelas construções que, mesmo em ruínas, são bonitas. De andar a passear-me durante horas pela Via del Corso, fazer o percurso Monumento Vittorio-Emanuele II - Piazza del Populo e vice-versa. Saudades do empregado giro da H&M, junto da Fendi.
        Quase choro por não encontrar gelado tão bom como o de Bacio nem tiramisu tão gostoso como o da Pompi. Sinto falta da língua, da música que tem e do quão doce me passou a soar (volta não-volta, sonho em italiano).
        Saudades do moço da lojinha onde imprimia tudo o que precisava, sujeito com o qual comuniquei, muitas vezes, numa língua que não era nem português, nem espanhol, nem italiano. Mas entendemo-nos sempre.
        Faz-me falta saber que, independentemente do sítio para onde fosse, a paisagem far-me-ia sempre sentir pequenina.
        Tenho saudades de dividir casa com a minha companheira de quarto e o grego mais porreiro de sempre.

        Falta-me a sensação de estar sem rede de segurança e, ao mesmo tempo, ter todas as possibilidades do mundo aos meus pés.

      Roma, mi manchi.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Mais uma cabeça oca que sofre consequências da praxe

    "Caloira, de 19 anos, terá entrado em coma alcoólico. Estudantes foram enterrados na areia e obrigados a beber".

     Todos os anos há histórias destas e as opiniões costumam dividir-se entre: a culpa é de quem bebeu e a culpa é de quem mandou beber. Eu acho que a culpa é de ambas as partes, na mesma medida. 
      Quem manda beber é estúpido, inconsequente, irresponsável. Fá-lo porque acha que tem um poder qualquer que, quem obedece, reconhece. Quem bebe a mando, mais não é que um desesperado por aceitação alheia, incapaz de avaliar o que é ou não bom para si. Sujeita-se às práticas mais ridículas e humilhantes só para chegar ao sentimento de pertença. Contudo, mesmo inseridos num ambiente de coacção, são adultos e têm as ferramentas para saber quais as consequências de determinados actos. Assim, ambas as partes são culpadas.

      E o que falta para que a praxe conheça o seu fim? Não sei. Todos os anos chegam à comunicação social casos limite, com violações, mortes, humilhações de cariz sexual, ... E a indignação com isso dura duas ou três semanas, depois dissipa-se. 
     
      Fui praxada e não gostei. Tenho uma consciência muito clara daquilo que não quero para mim. Sempre tive. E houve muita coisa que os meus colegas fizeram e que eu recusei: não gritei "ri-me, fodi-me" no meio da rua, não estive de quatro só porque sim, não andei a simular posições sexuais em plena Praça, não bebi sob ordem de quem quer que seja. Alinhei em alguns jogos, estive muito tempo em pé, a olhar para o chão, que olhar para os "doutores" é pecado (e insistem na treta de que a praxe é para integrar. A olhar para o chão?!).

       O objectivo da praxe, dizia na nota de abertura do Código da Praxe, é integrar os caloiros - facilitar a ligação entre pares e a adaptação a uma nova cidade. Contudo, a prática mostra que isso não é o foco de quem praxa. O objectivo é, quase sempre, obter a "vingança" por ter sido praxado no ano anterior, perpetuando as práticas humilhantes.

      Ou se consegue regulamentar a praxe a nível nacional, definindo que actividades são ou não aceites nesse âmbito, ou está na hora da praxe acabar.

domingo, 20 de setembro de 2015

Mas só se debate sobre dinheiro?

        Ninguém debate planos para a educação? Não sei o que se passa nas outras áreas, mas no Português, está tudo pela hora da morte. Os miúdos hoje têm a capacidade de expressão e interpretação de uma batata. E o cenário não me parece ter tendência a melhorar. É difícil para os alunos, que passam horas e horas enfiados na escola como se isso se traduzisse em sucesso; e para os professores, que estarão certamente cansados e, muitos, longe de casa (não ignorando que falta uma triagem melhor para escolher bons docentes).

       Ninguém debate saúde? O sistema nacional está a morrer e ninguém faz nada. A propósito... Para quando uma base de dados nacional que reúna as informações recolhidas sobre o mesmo paciente em diversas unidades de saúde no país? 

       Ninguém debate Segurança Social? Isto é, não há quem considere importante responder ao problema da pobreza em vez de continuar a falar em números abstractos (e imaginários)? Ou a pobreza só interessa quando é preciso ser usada como escudo xenófobo contra a vinda de refugiados de guerra?


        Como é que alguém decide em que partido votar se nenhum fala de muito mais para além de números?

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Apaguei o facebook.

         Andei imenso tempo a adiar o fim do meu perfil no dito site. Primeiro era para eliminar aquilo assim que voltasse de Erasmus. Depois passei para “assim que faça o ultimo exame, apago isto”. E, há uma semana, finalmente traduzi a minha vontade numa acção. 
E de quem é a culpa de eu ter tomado a decisão de sair do facebook? Dos migrantes, claro!
       Depois de ter reduzido a minha lista de amigos a poucos mais que os indispensáveis (as minhas pessoas preferidas, alguns familiares e alguns conhecidos - menos de cem pessoas) continuei a ter o meu feed a transbordar de xenofobia, racismo e incitação ao ódio. Percebi que não tinha como ignorar aquilo excepto se, simplesmente, optasse por apagar o perfil.


      O facebook é um amplificador de tudo o que de mau há no Homem. O que me preocupa é achar que estar atrás de um ecrã elimina quaisquer filtros sociais e acabamos por dizer aquilo que pensamos e que não conseguimos dizer alto porque é preciso ser-se correcto. Portanto, aquelas pessoas não eram só estúpidas. Eram más. E face à maldade tenho sempre a mesma postura: quanto mais longe, melhor.

         Agora aguardo que alguém crie uma aplicação tão prática e gratuita como o messenger mas que não exija que tenha facebook.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

A Luísa Castel-Branco e a necessidade de catalogar pessoas

        De vez em quando dou por mim a ver o Passadeira Vermelha, na Sic Caras. Deve ser o comando com vida própria, não sei, mas sem que eu me aperceba lá estou pasmada a ver o programa. Ora, este seria só mais um programa a falar da vida dos outros, sem grande conteúdo, não tivesse escolhido para o painel de comentadores a Luísa Castel-Branco. 
         A Luísa é daquelas pessoas que não aceita os mil cinzentos que há entre o preto e o branco. E isso fica claríssimo quando lhe é pedido para falar de pessoas como a Caitlyn Jenner ou a Conchita Wurst. 
         
      Caitlyn, para Luísa, nunca será uma mulher enquanto não fizer a cirurgia em que troca a sua pilinha por um pipi. Até lá, mesmo que queira ser tratado como Caitlyn, como mulher, será um Bruce. Porque para a Luísa, ser homem é ter pilinha e ser mulher é ser dona de um pipi. É a genitália que determina, para a comentadora, o género, de forma indubitável. Portanto, Caitlyn é um homem com cabelo comprido, maquilhagem, mamas, roupa e hábitos de mulher.
       Acrescenta Luísa: e se eu hoje quiser ser tratado por Osvaldo, também me passam a chamar Osvaldo? Sim, Luísa. 
      
        Conchita já é classificada como uma quase aberração. E mesmo que queira ser tratada como mulher - enquanto Conchita - não pode, porque tem uma pilinha portanto é um homem. 
        Mais: a Luísa põe em questão o valor desta sociedade que tornou a cantora uma figura de luta pela igualdade, pelos direitos de todos, pelo respeito, elogiada pela ONU (o que é ultrajante, diz a comentadora). 
        Acrescenta ainda Luísa: "mas é mulher porquê?". Porque quer, Luísa, porque quer.

        Concordando-se ou não com o percurso das duas pessoas mediática, ambas trazem para a discussão pública questões relacionadas com o respeito pelo próximo. E é precisamente isso que faz falta: respeito! Que quem sofre em silêncio perceba que não está sozinho. 

        Chega desta necessidade absurda de etiquetar pessoas, de enfiá-las dentro de padrões. Sejam mulheres com barba, homens com mamas, gays, heteros, bissexuais, são pessoas! Só isso, pessoas. 
         E se investíssemos o tempo que perdemos a tentar restringir direitos legítimos alheios a tentar procurar uma melhor versão de nós, éramos todos melhores e mais felizes.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Afinal, que assuntos são brincáveis?

          Sigo o João Quadros no Twitter há já algum tempo. E, regra geral, reconheço que ele tem um sentido de humor um tanto áspero, na medida em que não é o que agrada a massas e tem tendência a ferir determinadas susceptibilidades. Mas isso faz com o que o que ele escreve deixe de ser humor? Tenho as minhas dúvidas.

          A semana passada alguém pegou em meia dúzia de tweets em que Quadros comentava o facto da mulher de Passos Coelho estar a ser usada como elemento angariador de votos por pena, e deturpou os factos, fazendo parecer que o humorista tinha escrito uma crónica qualquer sobre o assunto. E o mundo desabou. E que o iam processar, e que ele que morresse com cancro (quando o próprio conta que vários familiares morreram da dita doença) e mais um par de botas.

          Acontece que nem os tweets em questão eram tão "ácidos" como alguns que Quadros já fez, nem aquilo que se publica no Twitter deve ser equiparado ao que é escrito no âmbito de trabalho. Ou deve?
          Afinal, com que assuntos se pode brincar? Não éramos todos Charlie? É aceitável satirizar o fundamentalismo religioso ou políticas europeias mas brincar com doenças já é "demasiado agressivo"? Onde está alinha que delimita os assuntos que podem ser abordados e aqueles que o humor não deve conspurcar? Humor, porque fere susceptibilidades, deixa de o ser?

        Se acordamos todos em não fazer piadas com aquilo que poderá ferir a susceptibilidade de alguém, estamos todos condenados ao silêncio.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Se isto do Sporting ter contratado o Jorge Jesus for verdade...

... é uma jogada de mestre. É uma contratação 2 em 1: um treinador e um filósofo, tudo na mesma pessoa. 

A confirmar-se fico feliz por ter o meu mestre de linguística a treinar o meu clube. 

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Há amor unilateral?

     Enquanto rascunhava umas porcarias coisas (em vez de estar a estudar) cheguei ao conceito de amor unilateral, aquele que não é correspondido, portanto. E rapidamente me surgiu uma questão: tal existe? Pode um amor ser unilateral? A poder sê-lo, é, devido à natureza deste, mais puro que o correspondido justamente porque não o é? Se não pode ser amor porque não é correspondido, então o que é? 

    Se isto é absolutamente aleatório e inútil? É, mas ainda assim é mais divertido do que estudar aquilo que tenho em mãos neste momento.

     Pronto, eu volto para o Código Civil. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

"Para criticares tens de ter uma alternativa melhor" ?

      Não é raro ouvir isto quando alguém critica uma coisa qualquer. E se aquela afirmação é verdade, então só os doutos podem opinar. É uma espécie de descriminação parva feita a quem consegue ver que uma coisa está mal sem que tenha instrumentos ou conhecimento para apresentar uma outra opção.

      Estou a ler o livro Reinventar a Democracia, de Manuel Arriaga. Ainda estou no início mas o espírito revolucionário que já nasceu comigo está mais aguçado. 
      Discute-se, logo nas primeiras páginas, o insucesso dos movimentos de protesto que a Europa foi conhecendo nos últimos anos. E o autor defende que parte dele se prende com a ausência de uma formulação de exigências concretas. Se em parte tal é verdade, noutro prisma vemos que as pessoas que mais têm que lutar por uma situação melhor são também aquelas que, por regra, têm menos capacidade de prosseguir a escolaridade (justamente pelas necessidades básicas que sentem) e ter uma percepção real do que acontece nas democracias modernas. Assim, não se lhes pode pedir que apresentem uma carta com exigências detalhadas. 

       E isto vale para tudo. Não é preciso grande sabedoria para conseguir olhar para uma coisa qualquer e ver que esta manifestamente não funciona. Não ter uma alternativa não retira legitimidade à pretensão de mudança. 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Quanto a isso das fotos chocantes nos maços de tabaco

          Tenho algumas reticências quanto à real eficácia desta coisa de apetrechar os maços com fotos macabras. Nunca fumei, nunca tive qualquer tipo de vícios para além das gordices no geral. Assim, não consigo sequer imaginar qual é o efeito que tem pegar num maço com o selo do "fumar mata" e pegar noutro com corpos putrefactos e afins. 

         Assumindo que estas imagens são fortes dissuasórias do tabagismo por que razão são então apenas aplicadas a este vício? Somos atacados, todos os dias, das mais variadas formas, com os valores absurdos da obesidade e as suas consequências. É falada como a grande epidemia do século XXI. Se é razoável anexar fotos de caixões aos maços de tabaco, não o é nas embalagens de produtos ricos em gorduras trans? 

         Se combatemos o tabagismo com imagens de pulmões, não combatemos o alcoolismo com imagens de fígados?


          Lá está, nunca fumei, nunca estive numa situação em que me permita avaliar o impacto das fotos. E mesmo que o causem, continuo com dúvidas que este seja o melhor meio de fazer passar a mensagem. No limite, surge um negócio de bolsinhas bonitas para enfiar os maços e ultrapassar este pequeno entrave a poder fumar em paz.
          

Há bullying de bullies?

       Com esta vaga de estupidez delinquência juvenil surge um movimento, igualmente estúpido, de explicações super trendy e new age vindas de psicólogos dúbios e de pessoas que vivem num conto de fadas. Surge quase uma nova lei comportamental que dita que por de trás de um puto estúpido está uma criança que precisa de carinho, amor, protecção máxima e de não sofrer as devidas consequências por fazer coisas como esbofetear um miúdo durante um quarto de hora.

        Aquilo que estas explicações parecem ignorar é que, para o puto que leva pancada, que é humilhado, que é morto, é-lhe perfeitamente indiferente se quem lhe bate o faz porque é só um desmiolado ou se o fez porque os pais estão a meio de um divórcio. É absolutamente irrelevante para a vítima. Os comportamentos animalescos são para ser corrigidos, independentemente da causa que lhes deu origem. Para isso deveria, por exemplo, existir uma rede (funcional!) de psicólogos nas escolas. 

          Depois é a aversão absoluta ao facto de se divulgar o conhecido vídeo onde um grupo de bandidos bate num miúdo que leva sem reagir. O único problema que vejo nisto é a extensão do sofrimento do pobre coitado que apanhou. Os outros, com a divulgação das imagens, colhem, finalmente, as consequências dos seus actos: passam por aquilo que tentaram fazer passar o miúdo, passam por uma tremenda humilhação. Por nem 16 anos terem, que lhes aconteceria se nem o vídeo fosse divulgado? Absolutamente nada, exactamente pelo princípio do "são miúdos, isto é normal, sempre aconteceu". A tradição não torna um acto legítimo. E ainda bem que hoje temos ferramentas que os idiotas usam para se queimarem sozinhos.
          É a divulgação deste vídeo e a correspondente humilhação que os intervenientes culpados (todos, à excepção do que apanha) passam que serve de exemplo para todos os outros idiotas que precisam de usar da força para se destacarem no grupozeco lá da escola. 
          Mesmo os que dizem que devíamos procurar outros meios de castigar os culpados procuram o mesmo: um meio de punição eficaz que consiga dissuadir terceiros de cometer o mesmo acto. E qual seria? A pena de prisão está fora de hipótese. Qual a alternativa? Meter os miúdos a fazer trabalho comunitário ou outra coisa qualquer que eles achariam divertidíssimo que ainda usariam como ego boost de "olha para mim, sou tão rebelde que me dão castigos giros"?

          Este é um daqueles temas em que é preciso sair do mundo fantástico e ir às escolas, ver como as coisas se passam. A única maneira de derrubar um bully é fazer com que ele deixe de ser visto assim pelos seus pares. E criar uma ideia colectiva de que aquilo é errado com a divulgação das imagens é um meio indubitavelmente eficaz.

       A única reserva que faço é quanto às ameaças, às esperas que se fazem a estes miúdos inconsequentes. Aí sim entramos no campo de "matar violência com mais violência". Porque isso é perfeitamente desnecessário. É castigo suficiente ver desmoronar o papel de mauzão, de distribuidor de pancada. Isso é o que basta. Tudo o que vem depois disso é exagerado. 
          Se há uma relação causa-efeito entre mostrar as caras dos culpados e o facto destes receberem ameaças? Mais ou menos. A relação é entre o facto dos sujeitos distribuírem bofetadas (terem-nas filmado e postado o vídeo na internet como um troféu) e, em consequência disso, serem ameaçados do mesmo. 

         Não se podem tratar estes delinquentes com muito mais cuidados do que o miúdo que apanhou pancada - este, para esta vaga de opiniões new age, caiu para terceiro ou quarto plano quando, na verdade, é a peça central a merecer protecção.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Feminismo? Sim.

        Não sei se sou eu que acabo em recantos esquisitos da internet ou se é um fenómeno generalizado mas cada vez mais encontro homens a defender que o feminismo é uma patetice sem sentido, uma descriminação com base no género. Pois bem, eu assumo-me: sou feminista. 

        O que é o feminismo? É um movimento que procura dar poder às mulheres para que, de uma vez por todas, estas tenham os mesmos direitos (e deveres, obviamente) que os homens. É um movimento social que se prima pela igualdade de géneros que tanto teima em não se instalar. 
        Todas as afirmações feitas ao abrigo do feminismo que não se enquadrem nestes padrões não são, obviamente, afirmações feministas. Não se confundam as coisas.

       O mundo ainda é um lugar feio para se nascer mulher. Nuns sítios mais que outros, é certo, mas na sua globalidade é um espaço desenhado pelo homem e para o homem onde a mulher está em segundo plano. 
       Recorrendo ao extremo mais duro, relembro que ainda é praticada a mutilação genital feminina em dezenas de países africanos, na Ásia e no Médio Oriente. Há quem compre mulheres, quem as troque por camelos e quem as explore em cadeias de serviços sexuais. Há meninas obrigadas a casar todos os dias, meninas sem voz, sem poder, sem protecção. 
       Neste extremo de que falo, a mulher não é, sequer, uma pessoa. É uma coisa que serve de moeda, é uma coisa que se compra para ter por casa, é uma coisa que pouco mais faz do que sobreviver. E só por estas mulheres, por estas meninas, é preciso ser feminista. Sempre, enquanto esta realidade o for.

        Depois há a desigualdade menos chocante mas ainda assim escandalosa no mundo (dito) civilizado. 
        A disparidade salarial foi estimada, em 2014, em 16,4%. Este valor considera-se estagnado nos últimos anos. Significa então que pouco tem sido feito, na prática, para que as mulheres recebam o valor que merecem: o mesmo que o homem.
        Basta olhar para a realidade e perceber que os cargos de chefia, os lugares mais altos numa empresa, são desempenhados por homens. As figuras chave num Governo, são homens. 
        As mulheres podem, hoje, votar. Mas é como se não tivessem ainda adquirido voz!
      A violência doméstica (que já leva números loucos só este ano, e ainda estamos em Maio) tem como alvo primordial a mulher. A maioria dos casos está relacionado com divórcios. A sociedade actual ainda tem um quê de século passado: o homem mata a mulher porque esta quer deixá-lo, deixar de ser "sua". Mas, como assim, sua?! A mulher ainda não é vista como uma pessoa autónoma, independente de um homem - é ainda entendida como uma extensão e propriedade deste último.

      Ainda temos a questão da sexualidade. Pode chocar, eu sei, mas... Uma mulher que tenha tido cem parceiros na sua vida é tão mulher como outra que tenha tido dois. A mulher é livre de viver a sua intimidade como bem entender sem que daí venha qualquer tipo de prejuízo. Como diria a minha médica de família "menina, divirta-se. Tenha sempre juízo, mas divirta-se". E estamos a falar de uma médica sexagenária. Desde que haja cuidados, tanto homens como mulheres devem poder ser livres de se saborearem como bem entenderem. 
      Até quando vamos viver no quadro "ele já esteve com imensas mulheres, é o garanhão; ela já esteve com imensos homens, é uma porca fácil, uma mulher que não serve para casar"?

       Por fim, li o texto do Dr. Quintino Aires sobre o feminismo, onde este diz que já chega destas ideias feministas. Afirma que nunca viu "feministas a defenderem igual obrigação em mudar lâmpadas, nem soube de nenhuma a parar para ajudar um homem na estrada a mudar um pneu". 
        Quintino, que tem isto a ver com feminismo?! Há inegáveis diferenças físicas entre homens e mulheres. Os homens são naturalmente mais aptos para fazer trabalhos que exijam força física assim como têm um melhor raciocínio espacial. As mulheres conseguem perceber detalhes mais rapidamente e são mais sentimentais. Mas e daí? Isso é a generalização. Há excepções há regra. Aliás, em grande parte, a regra surge por já nascermos formatados para sermos assim, pelos pais, pelos avós, ... É-nos dito, de pequeninos, que há trabalhos de menino e de menina. E a desigualdade nasce nesse momento.
        Quintino diz ainda que "esta forma de feminismo a que nos habituaram não passa de uma forma de expressão de lésbicas não resolvidas e de histéricas não tratadas, ambas mal resolvidas com os homens. Afinal, homens e mulheres são iguais e são diferentes, como mulheres e mulheres e homens e homens.E a isto eu acho que nem sequer preciso de responder.

        É preciso ser-se feminista. Homens e mulheres. É preciso que se mate essa ideia estapafúrdia de que as feministas procuram ser superiores a quem quer que seja, que se procura uma superiorizarão da mulher. 
         A luta pela igualdade da mulher faz, infelizmente, todo o sentido e não deve ser posta em causa por preconceitos estúpidos de homens que ainda não sairam das cavernas.


       O feminismo é uma luta pelos direitos humanos.

     

terça-feira, 5 de maio de 2015

O Sangue, os gays e a discriminação que o João Miguel Tavares diz não existir

          Já tinha visto o Governo Sombra do dia 1 de Maio onde João Miguel Tavares expôs a sua posição face à proibição posta aos homens homossexuais de dar sangue e hoje li o artigo que escreveu para o Público. Voltei a acolher precisamente os mesmos argumentos com algum espanto.

        O jornalista é a favor da proibição que não considera discriminatória. Para fundamentar a sua opinião, pelo que eu pude entender, este tem dois argumentos principais:
        1) A população masculina homossexual é caracterizada por comportamentos sexuais de risco. É, ainda, a grande causa da difusão do vírus do HIV.
        2) Os heterossexuais são uma "comunidade proporcionalmente menos exposta ao HIV" e que praticam menos sexo anal.

       Ora, sobre o que foi dito no Governo Sombra, há um ponto sobre o qual sou totalmente de acordo: o direito que existe é o de receber sangue nas melhores condições possíveis e não o de quem quer que seja dar sangue. Mas é por essa razão que o sangue dado é analisado. Portanto, não se coloca aqui a questão de descortinar quem é que pode dar sangue ou não - todo o material dado é submetido a análises.

        Quanto aos argumentos de João Miguel Tavares, parece-me que há várias premissas que vêm do século XX.
        1) Os comportamentos de risco é que difundem as doenças, e não uma determinada população específica. A razão pela qual se poderá considerar o sexo anal a causa maioritária da transmissão dos vírus (e aqui são precisos dados) é a falta de informação sobre este - muita gente o pratica sem protecção ignorando os riscos associados e que são conhecidos para outro tipo de penetração. 
         Há comportamentos de risco em relações heterossexuais e a probabilidade de contrair doenças é exactamente a mesma do que em relações homossexuais. Há comportamentos de risco na prostituição e um(a) prostituto(a) pode dar sangue. 
         
        2) A questão que João Miguel tanto aponta da lei das probabilidades e de ser mais provável contrair a doença com sexo anal e que este é mais praticado por homossexuais... Que dado objectivo é este? Quem concluiu isto?
        Pode parecer surpreendente mas... Há casais heterossexuais a praticar sexo anal. Mais, há homens heterossexuais que fazem amor com rabos de senhoras com tanta ou maior frequência do que aquela com que lhes visitam o pipi.
        Há casais homossexuais prudentes que usam protecção sempre que têm relações e há pessoas heterossexuais inconsequentes que se expõem a comportamentos de risco sem qualquer protecção.

        3) Relativamente ao sexo anal ser um comportamento de risco porque isso é "pôr pilinhas onde é suposto saírem mais coisas do que entrarem" (dito no Governo Sombra)... 
Nem preciso de comentar isto. 

          Assim, não percebo como é que esta medida não é puramente discriminatória.