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sexta-feira, 22 de maio de 2015

Há amor unilateral?

     Enquanto rascunhava umas porcarias coisas (em vez de estar a estudar) cheguei ao conceito de amor unilateral, aquele que não é correspondido, portanto. E rapidamente me surgiu uma questão: tal existe? Pode um amor ser unilateral? A poder sê-lo, é, devido à natureza deste, mais puro que o correspondido justamente porque não o é? Se não pode ser amor porque não é correspondido, então o que é? 

    Se isto é absolutamente aleatório e inútil? É, mas ainda assim é mais divertido do que estudar aquilo que tenho em mãos neste momento.

     Pronto, eu volto para o Código Civil. 

segunda-feira, 18 de maio de 2015

"Para criticares tens de ter uma alternativa melhor" ?

      Não é raro ouvir isto quando alguém critica uma coisa qualquer. E se aquela afirmação é verdade, então só os doutos podem opinar. É uma espécie de descriminação parva feita a quem consegue ver que uma coisa está mal sem que tenha instrumentos ou conhecimento para apresentar uma outra opção.

      Estou a ler o livro Reinventar a Democracia, de Manuel Arriaga. Ainda estou no início mas o espírito revolucionário que já nasceu comigo está mais aguçado. 
      Discute-se, logo nas primeiras páginas, o insucesso dos movimentos de protesto que a Europa foi conhecendo nos últimos anos. E o autor defende que parte dele se prende com a ausência de uma formulação de exigências concretas. Se em parte tal é verdade, noutro prisma vemos que as pessoas que mais têm que lutar por uma situação melhor são também aquelas que, por regra, têm menos capacidade de prosseguir a escolaridade (justamente pelas necessidades básicas que sentem) e ter uma percepção real do que acontece nas democracias modernas. Assim, não se lhes pode pedir que apresentem uma carta com exigências detalhadas. 

       E isto vale para tudo. Não é preciso grande sabedoria para conseguir olhar para uma coisa qualquer e ver que esta manifestamente não funciona. Não ter uma alternativa não retira legitimidade à pretensão de mudança. 

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Quanto a isso das fotos chocantes nos maços de tabaco

          Tenho algumas reticências quanto à real eficácia desta coisa de apetrechar os maços com fotos macabras. Nunca fumei, nunca tive qualquer tipo de vícios para além das gordices no geral. Assim, não consigo sequer imaginar qual é o efeito que tem pegar num maço com o selo do "fumar mata" e pegar noutro com corpos putrefactos e afins. 

         Assumindo que estas imagens são fortes dissuasórias do tabagismo por que razão são então apenas aplicadas a este vício? Somos atacados, todos os dias, das mais variadas formas, com os valores absurdos da obesidade e as suas consequências. É falada como a grande epidemia do século XXI. Se é razoável anexar fotos de caixões aos maços de tabaco, não o é nas embalagens de produtos ricos em gorduras trans? 

         Se combatemos o tabagismo com imagens de pulmões, não combatemos o alcoolismo com imagens de fígados?


          Lá está, nunca fumei, nunca estive numa situação em que me permita avaliar o impacto das fotos. E mesmo que o causem, continuo com dúvidas que este seja o melhor meio de fazer passar a mensagem. No limite, surge um negócio de bolsinhas bonitas para enfiar os maços e ultrapassar este pequeno entrave a poder fumar em paz.
          

Há bullying de bullies?

       Com esta vaga de estupidez delinquência juvenil surge um movimento, igualmente estúpido, de explicações super trendy e new age vindas de psicólogos dúbios e de pessoas que vivem num conto de fadas. Surge quase uma nova lei comportamental que dita que por de trás de um puto estúpido está uma criança que precisa de carinho, amor, protecção máxima e de não sofrer as devidas consequências por fazer coisas como esbofetear um miúdo durante um quarto de hora.

        Aquilo que estas explicações parecem ignorar é que, para o puto que leva pancada, que é humilhado, que é morto, é-lhe perfeitamente indiferente se quem lhe bate o faz porque é só um desmiolado ou se o fez porque os pais estão a meio de um divórcio. É absolutamente irrelevante para a vítima. Os comportamentos animalescos são para ser corrigidos, independentemente da causa que lhes deu origem. Para isso deveria, por exemplo, existir uma rede (funcional!) de psicólogos nas escolas. 

          Depois é a aversão absoluta ao facto de se divulgar o conhecido vídeo onde um grupo de bandidos bate num miúdo que leva sem reagir. O único problema que vejo nisto é a extensão do sofrimento do pobre coitado que apanhou. Os outros, com a divulgação das imagens, colhem, finalmente, as consequências dos seus actos: passam por aquilo que tentaram fazer passar o miúdo, passam por uma tremenda humilhação. Por nem 16 anos terem, que lhes aconteceria se nem o vídeo fosse divulgado? Absolutamente nada, exactamente pelo princípio do "são miúdos, isto é normal, sempre aconteceu". A tradição não torna um acto legítimo. E ainda bem que hoje temos ferramentas que os idiotas usam para se queimarem sozinhos.
          É a divulgação deste vídeo e a correspondente humilhação que os intervenientes culpados (todos, à excepção do que apanha) passam que serve de exemplo para todos os outros idiotas que precisam de usar da força para se destacarem no grupozeco lá da escola. 
          Mesmo os que dizem que devíamos procurar outros meios de castigar os culpados procuram o mesmo: um meio de punição eficaz que consiga dissuadir terceiros de cometer o mesmo acto. E qual seria? A pena de prisão está fora de hipótese. Qual a alternativa? Meter os miúdos a fazer trabalho comunitário ou outra coisa qualquer que eles achariam divertidíssimo que ainda usariam como ego boost de "olha para mim, sou tão rebelde que me dão castigos giros"?

          Este é um daqueles temas em que é preciso sair do mundo fantástico e ir às escolas, ver como as coisas se passam. A única maneira de derrubar um bully é fazer com que ele deixe de ser visto assim pelos seus pares. E criar uma ideia colectiva de que aquilo é errado com a divulgação das imagens é um meio indubitavelmente eficaz.

       A única reserva que faço é quanto às ameaças, às esperas que se fazem a estes miúdos inconsequentes. Aí sim entramos no campo de "matar violência com mais violência". Porque isso é perfeitamente desnecessário. É castigo suficiente ver desmoronar o papel de mauzão, de distribuidor de pancada. Isso é o que basta. Tudo o que vem depois disso é exagerado. 
          Se há uma relação causa-efeito entre mostrar as caras dos culpados e o facto destes receberem ameaças? Mais ou menos. A relação é entre o facto dos sujeitos distribuírem bofetadas (terem-nas filmado e postado o vídeo na internet como um troféu) e, em consequência disso, serem ameaçados do mesmo. 

         Não se podem tratar estes delinquentes com muito mais cuidados do que o miúdo que apanhou pancada - este, para esta vaga de opiniões new age, caiu para terceiro ou quarto plano quando, na verdade, é a peça central a merecer protecção.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Feminismo? Sim.

        Não sei se sou eu que acabo em recantos esquisitos da internet ou se é um fenómeno generalizado mas cada vez mais encontro homens a defender que o feminismo é uma patetice sem sentido, uma descriminação com base no género. Pois bem, eu assumo-me: sou feminista. 

        O que é o feminismo? É um movimento que procura dar poder às mulheres para que, de uma vez por todas, estas tenham os mesmos direitos (e deveres, obviamente) que os homens. É um movimento social que se prima pela igualdade de géneros que tanto teima em não se instalar. 
        Todas as afirmações feitas ao abrigo do feminismo que não se enquadrem nestes padrões não são, obviamente, afirmações feministas. Não se confundam as coisas.

       O mundo ainda é um lugar feio para se nascer mulher. Nuns sítios mais que outros, é certo, mas na sua globalidade é um espaço desenhado pelo homem e para o homem onde a mulher está em segundo plano. 
       Recorrendo ao extremo mais duro, relembro que ainda é praticada a mutilação genital feminina em dezenas de países africanos, na Ásia e no Médio Oriente. Há quem compre mulheres, quem as troque por camelos e quem as explore em cadeias de serviços sexuais. Há meninas obrigadas a casar todos os dias, meninas sem voz, sem poder, sem protecção. 
       Neste extremo de que falo, a mulher não é, sequer, uma pessoa. É uma coisa que serve de moeda, é uma coisa que se compra para ter por casa, é uma coisa que pouco mais faz do que sobreviver. E só por estas mulheres, por estas meninas, é preciso ser feminista. Sempre, enquanto esta realidade o for.

        Depois há a desigualdade menos chocante mas ainda assim escandalosa no mundo (dito) civilizado. 
        A disparidade salarial foi estimada, em 2014, em 16,4%. Este valor considera-se estagnado nos últimos anos. Significa então que pouco tem sido feito, na prática, para que as mulheres recebam o valor que merecem: o mesmo que o homem.
        Basta olhar para a realidade e perceber que os cargos de chefia, os lugares mais altos numa empresa, são desempenhados por homens. As figuras chave num Governo, são homens. 
        As mulheres podem, hoje, votar. Mas é como se não tivessem ainda adquirido voz!
      A violência doméstica (que já leva números loucos só este ano, e ainda estamos em Maio) tem como alvo primordial a mulher. A maioria dos casos está relacionado com divórcios. A sociedade actual ainda tem um quê de século passado: o homem mata a mulher porque esta quer deixá-lo, deixar de ser "sua". Mas, como assim, sua?! A mulher ainda não é vista como uma pessoa autónoma, independente de um homem - é ainda entendida como uma extensão e propriedade deste último.

      Ainda temos a questão da sexualidade. Pode chocar, eu sei, mas... Uma mulher que tenha tido cem parceiros na sua vida é tão mulher como outra que tenha tido dois. A mulher é livre de viver a sua intimidade como bem entender sem que daí venha qualquer tipo de prejuízo. Como diria a minha médica de família "menina, divirta-se. Tenha sempre juízo, mas divirta-se". E estamos a falar de uma médica sexagenária. Desde que haja cuidados, tanto homens como mulheres devem poder ser livres de se saborearem como bem entenderem. 
      Até quando vamos viver no quadro "ele já esteve com imensas mulheres, é o garanhão; ela já esteve com imensos homens, é uma porca fácil, uma mulher que não serve para casar"?

       Por fim, li o texto do Dr. Quintino Aires sobre o feminismo, onde este diz que já chega destas ideias feministas. Afirma que nunca viu "feministas a defenderem igual obrigação em mudar lâmpadas, nem soube de nenhuma a parar para ajudar um homem na estrada a mudar um pneu". 
        Quintino, que tem isto a ver com feminismo?! Há inegáveis diferenças físicas entre homens e mulheres. Os homens são naturalmente mais aptos para fazer trabalhos que exijam força física assim como têm um melhor raciocínio espacial. As mulheres conseguem perceber detalhes mais rapidamente e são mais sentimentais. Mas e daí? Isso é a generalização. Há excepções há regra. Aliás, em grande parte, a regra surge por já nascermos formatados para sermos assim, pelos pais, pelos avós, ... É-nos dito, de pequeninos, que há trabalhos de menino e de menina. E a desigualdade nasce nesse momento.
        Quintino diz ainda que "esta forma de feminismo a que nos habituaram não passa de uma forma de expressão de lésbicas não resolvidas e de histéricas não tratadas, ambas mal resolvidas com os homens. Afinal, homens e mulheres são iguais e são diferentes, como mulheres e mulheres e homens e homens.E a isto eu acho que nem sequer preciso de responder.

        É preciso ser-se feminista. Homens e mulheres. É preciso que se mate essa ideia estapafúrdia de que as feministas procuram ser superiores a quem quer que seja, que se procura uma superiorizarão da mulher. 
         A luta pela igualdade da mulher faz, infelizmente, todo o sentido e não deve ser posta em causa por preconceitos estúpidos de homens que ainda não sairam das cavernas.


       O feminismo é uma luta pelos direitos humanos.

     

terça-feira, 5 de maio de 2015

O Sangue, os gays e a discriminação que o João Miguel Tavares diz não existir

          Já tinha visto o Governo Sombra do dia 1 de Maio onde João Miguel Tavares expôs a sua posição face à proibição posta aos homens homossexuais de dar sangue e hoje li o artigo que escreveu para o Público. Voltei a acolher precisamente os mesmos argumentos com algum espanto.

        O jornalista é a favor da proibição que não considera discriminatória. Para fundamentar a sua opinião, pelo que eu pude entender, este tem dois argumentos principais:
        1) A população masculina homossexual é caracterizada por comportamentos sexuais de risco. É, ainda, a grande causa da difusão do vírus do HIV.
        2) Os heterossexuais são uma "comunidade proporcionalmente menos exposta ao HIV" e que praticam menos sexo anal.

       Ora, sobre o que foi dito no Governo Sombra, há um ponto sobre o qual sou totalmente de acordo: o direito que existe é o de receber sangue nas melhores condições possíveis e não o de quem quer que seja dar sangue. Mas é por essa razão que o sangue dado é analisado. Portanto, não se coloca aqui a questão de descortinar quem é que pode dar sangue ou não - todo o material dado é submetido a análises.

        Quanto aos argumentos de João Miguel Tavares, parece-me que há várias premissas que vêm do século XX.
        1) Os comportamentos de risco é que difundem as doenças, e não uma determinada população específica. A razão pela qual se poderá considerar o sexo anal a causa maioritária da transmissão dos vírus (e aqui são precisos dados) é a falta de informação sobre este - muita gente o pratica sem protecção ignorando os riscos associados e que são conhecidos para outro tipo de penetração. 
         Há comportamentos de risco em relações heterossexuais e a probabilidade de contrair doenças é exactamente a mesma do que em relações homossexuais. Há comportamentos de risco na prostituição e um(a) prostituto(a) pode dar sangue. 
         
        2) A questão que João Miguel tanto aponta da lei das probabilidades e de ser mais provável contrair a doença com sexo anal e que este é mais praticado por homossexuais... Que dado objectivo é este? Quem concluiu isto?
        Pode parecer surpreendente mas... Há casais heterossexuais a praticar sexo anal. Mais, há homens heterossexuais que fazem amor com rabos de senhoras com tanta ou maior frequência do que aquela com que lhes visitam o pipi.
        Há casais homossexuais prudentes que usam protecção sempre que têm relações e há pessoas heterossexuais inconsequentes que se expõem a comportamentos de risco sem qualquer protecção.

        3) Relativamente ao sexo anal ser um comportamento de risco porque isso é "pôr pilinhas onde é suposto saírem mais coisas do que entrarem" (dito no Governo Sombra)... 
Nem preciso de comentar isto. 

          Assim, não percebo como é que esta medida não é puramente discriminatória.