Páginas

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Feminismo? Sim.

        Não sei se sou eu que acabo em recantos esquisitos da internet ou se é um fenómeno generalizado mas cada vez mais encontro homens a defender que o feminismo é uma patetice sem sentido, uma descriminação com base no género. Pois bem, eu assumo-me: sou feminista. 

        O que é o feminismo? É um movimento que procura dar poder às mulheres para que, de uma vez por todas, estas tenham os mesmos direitos (e deveres, obviamente) que os homens. É um movimento social que se prima pela igualdade de géneros que tanto teima em não se instalar. 
        Todas as afirmações feitas ao abrigo do feminismo que não se enquadrem nestes padrões não são, obviamente, afirmações feministas. Não se confundam as coisas.

       O mundo ainda é um lugar feio para se nascer mulher. Nuns sítios mais que outros, é certo, mas na sua globalidade é um espaço desenhado pelo homem e para o homem onde a mulher está em segundo plano. 
       Recorrendo ao extremo mais duro, relembro que ainda é praticada a mutilação genital feminina em dezenas de países africanos, na Ásia e no Médio Oriente. Há quem compre mulheres, quem as troque por camelos e quem as explore em cadeias de serviços sexuais. Há meninas obrigadas a casar todos os dias, meninas sem voz, sem poder, sem protecção. 
       Neste extremo de que falo, a mulher não é, sequer, uma pessoa. É uma coisa que serve de moeda, é uma coisa que se compra para ter por casa, é uma coisa que pouco mais faz do que sobreviver. E só por estas mulheres, por estas meninas, é preciso ser feminista. Sempre, enquanto esta realidade o for.

        Depois há a desigualdade menos chocante mas ainda assim escandalosa no mundo (dito) civilizado. 
        A disparidade salarial foi estimada, em 2014, em 16,4%. Este valor considera-se estagnado nos últimos anos. Significa então que pouco tem sido feito, na prática, para que as mulheres recebam o valor que merecem: o mesmo que o homem.
        Basta olhar para a realidade e perceber que os cargos de chefia, os lugares mais altos numa empresa, são desempenhados por homens. As figuras chave num Governo, são homens. 
        As mulheres podem, hoje, votar. Mas é como se não tivessem ainda adquirido voz!
      A violência doméstica (que já leva números loucos só este ano, e ainda estamos em Maio) tem como alvo primordial a mulher. A maioria dos casos está relacionado com divórcios. A sociedade actual ainda tem um quê de século passado: o homem mata a mulher porque esta quer deixá-lo, deixar de ser "sua". Mas, como assim, sua?! A mulher ainda não é vista como uma pessoa autónoma, independente de um homem - é ainda entendida como uma extensão e propriedade deste último.

      Ainda temos a questão da sexualidade. Pode chocar, eu sei, mas... Uma mulher que tenha tido cem parceiros na sua vida é tão mulher como outra que tenha tido dois. A mulher é livre de viver a sua intimidade como bem entender sem que daí venha qualquer tipo de prejuízo. Como diria a minha médica de família "menina, divirta-se. Tenha sempre juízo, mas divirta-se". E estamos a falar de uma médica sexagenária. Desde que haja cuidados, tanto homens como mulheres devem poder ser livres de se saborearem como bem entenderem. 
      Até quando vamos viver no quadro "ele já esteve com imensas mulheres, é o garanhão; ela já esteve com imensos homens, é uma porca fácil, uma mulher que não serve para casar"?

       Por fim, li o texto do Dr. Quintino Aires sobre o feminismo, onde este diz que já chega destas ideias feministas. Afirma que nunca viu "feministas a defenderem igual obrigação em mudar lâmpadas, nem soube de nenhuma a parar para ajudar um homem na estrada a mudar um pneu". 
        Quintino, que tem isto a ver com feminismo?! Há inegáveis diferenças físicas entre homens e mulheres. Os homens são naturalmente mais aptos para fazer trabalhos que exijam força física assim como têm um melhor raciocínio espacial. As mulheres conseguem perceber detalhes mais rapidamente e são mais sentimentais. Mas e daí? Isso é a generalização. Há excepções há regra. Aliás, em grande parte, a regra surge por já nascermos formatados para sermos assim, pelos pais, pelos avós, ... É-nos dito, de pequeninos, que há trabalhos de menino e de menina. E a desigualdade nasce nesse momento.
        Quintino diz ainda que "esta forma de feminismo a que nos habituaram não passa de uma forma de expressão de lésbicas não resolvidas e de histéricas não tratadas, ambas mal resolvidas com os homens. Afinal, homens e mulheres são iguais e são diferentes, como mulheres e mulheres e homens e homens.E a isto eu acho que nem sequer preciso de responder.

        É preciso ser-se feminista. Homens e mulheres. É preciso que se mate essa ideia estapafúrdia de que as feministas procuram ser superiores a quem quer que seja, que se procura uma superiorizarão da mulher. 
         A luta pela igualdade da mulher faz, infelizmente, todo o sentido e não deve ser posta em causa por preconceitos estúpidos de homens que ainda não sairam das cavernas.


       O feminismo é uma luta pelos direitos humanos.

     

1 comentário: