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sexta-feira, 15 de maio de 2015

Há bullying de bullies?

       Com esta vaga de estupidez delinquência juvenil surge um movimento, igualmente estúpido, de explicações super trendy e new age vindas de psicólogos dúbios e de pessoas que vivem num conto de fadas. Surge quase uma nova lei comportamental que dita que por de trás de um puto estúpido está uma criança que precisa de carinho, amor, protecção máxima e de não sofrer as devidas consequências por fazer coisas como esbofetear um miúdo durante um quarto de hora.

        Aquilo que estas explicações parecem ignorar é que, para o puto que leva pancada, que é humilhado, que é morto, é-lhe perfeitamente indiferente se quem lhe bate o faz porque é só um desmiolado ou se o fez porque os pais estão a meio de um divórcio. É absolutamente irrelevante para a vítima. Os comportamentos animalescos são para ser corrigidos, independentemente da causa que lhes deu origem. Para isso deveria, por exemplo, existir uma rede (funcional!) de psicólogos nas escolas. 

          Depois é a aversão absoluta ao facto de se divulgar o conhecido vídeo onde um grupo de bandidos bate num miúdo que leva sem reagir. O único problema que vejo nisto é a extensão do sofrimento do pobre coitado que apanhou. Os outros, com a divulgação das imagens, colhem, finalmente, as consequências dos seus actos: passam por aquilo que tentaram fazer passar o miúdo, passam por uma tremenda humilhação. Por nem 16 anos terem, que lhes aconteceria se nem o vídeo fosse divulgado? Absolutamente nada, exactamente pelo princípio do "são miúdos, isto é normal, sempre aconteceu". A tradição não torna um acto legítimo. E ainda bem que hoje temos ferramentas que os idiotas usam para se queimarem sozinhos.
          É a divulgação deste vídeo e a correspondente humilhação que os intervenientes culpados (todos, à excepção do que apanha) passam que serve de exemplo para todos os outros idiotas que precisam de usar da força para se destacarem no grupozeco lá da escola. 
          Mesmo os que dizem que devíamos procurar outros meios de castigar os culpados procuram o mesmo: um meio de punição eficaz que consiga dissuadir terceiros de cometer o mesmo acto. E qual seria? A pena de prisão está fora de hipótese. Qual a alternativa? Meter os miúdos a fazer trabalho comunitário ou outra coisa qualquer que eles achariam divertidíssimo que ainda usariam como ego boost de "olha para mim, sou tão rebelde que me dão castigos giros"?

          Este é um daqueles temas em que é preciso sair do mundo fantástico e ir às escolas, ver como as coisas se passam. A única maneira de derrubar um bully é fazer com que ele deixe de ser visto assim pelos seus pares. E criar uma ideia colectiva de que aquilo é errado com a divulgação das imagens é um meio indubitavelmente eficaz.

       A única reserva que faço é quanto às ameaças, às esperas que se fazem a estes miúdos inconsequentes. Aí sim entramos no campo de "matar violência com mais violência". Porque isso é perfeitamente desnecessário. É castigo suficiente ver desmoronar o papel de mauzão, de distribuidor de pancada. Isso é o que basta. Tudo o que vem depois disso é exagerado. 
          Se há uma relação causa-efeito entre mostrar as caras dos culpados e o facto destes receberem ameaças? Mais ou menos. A relação é entre o facto dos sujeitos distribuírem bofetadas (terem-nas filmado e postado o vídeo na internet como um troféu) e, em consequência disso, serem ameaçados do mesmo. 

         Não se podem tratar estes delinquentes com muito mais cuidados do que o miúdo que apanhou pancada - este, para esta vaga de opiniões new age, caiu para terceiro ou quarto plano quando, na verdade, é a peça central a merecer protecção.

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