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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Sonhei que estava de volta a Roma e tive saudades.

        Nunca, em nenhum dos dias dos cinco longo meses em que morei lá, pensei que chegaria a hora em que sentiria saudades daquela cidade caótica. A confusão, o barulho constante do transito infernal, as conversas de varanda para varanda e das pessoas que não conhecem outro volume de voz que não o gritar, os italianos (que na maioria têm ar de broncos) que se julgam a última coca-cola do deserto, a inércia face a tudo o que seja burocracia importante para quem está a morar fora do país. O cenário que conheci não fazia antever que, um ano depois de ter embarcado para lá, visse o meu coração engolido por um montão de saudades.

        Tenho saudades do velho-bonito, daquelas construções que, mesmo em ruínas, são bonitas. De andar a passear-me durante horas pela Via del Corso, fazer o percurso Monumento Vittorio-Emanuele II - Piazza del Populo e vice-versa. Saudades do empregado giro da H&M, junto da Fendi.
        Quase choro por não encontrar gelado tão bom como o de Bacio nem tiramisu tão gostoso como o da Pompi. Sinto falta da língua, da música que tem e do quão doce me passou a soar (volta não-volta, sonho em italiano).
        Saudades do moço da lojinha onde imprimia tudo o que precisava, sujeito com o qual comuniquei, muitas vezes, numa língua que não era nem português, nem espanhol, nem italiano. Mas entendemo-nos sempre.
        Faz-me falta saber que, independentemente do sítio para onde fosse, a paisagem far-me-ia sempre sentir pequenina.
        Tenho saudades de dividir casa com a minha companheira de quarto e o grego mais porreiro de sempre.

        Falta-me a sensação de estar sem rede de segurança e, ao mesmo tempo, ter todas as possibilidades do mundo aos meus pés.

      Roma, mi manchi.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Mais uma cabeça oca que sofre consequências da praxe

    "Caloira, de 19 anos, terá entrado em coma alcoólico. Estudantes foram enterrados na areia e obrigados a beber".

     Todos os anos há histórias destas e as opiniões costumam dividir-se entre: a culpa é de quem bebeu e a culpa é de quem mandou beber. Eu acho que a culpa é de ambas as partes, na mesma medida. 
      Quem manda beber é estúpido, inconsequente, irresponsável. Fá-lo porque acha que tem um poder qualquer que, quem obedece, reconhece. Quem bebe a mando, mais não é que um desesperado por aceitação alheia, incapaz de avaliar o que é ou não bom para si. Sujeita-se às práticas mais ridículas e humilhantes só para chegar ao sentimento de pertença. Contudo, mesmo inseridos num ambiente de coacção, são adultos e têm as ferramentas para saber quais as consequências de determinados actos. Assim, ambas as partes são culpadas.

      E o que falta para que a praxe conheça o seu fim? Não sei. Todos os anos chegam à comunicação social casos limite, com violações, mortes, humilhações de cariz sexual, ... E a indignação com isso dura duas ou três semanas, depois dissipa-se. 
     
      Fui praxada e não gostei. Tenho uma consciência muito clara daquilo que não quero para mim. Sempre tive. E houve muita coisa que os meus colegas fizeram e que eu recusei: não gritei "ri-me, fodi-me" no meio da rua, não estive de quatro só porque sim, não andei a simular posições sexuais em plena Praça, não bebi sob ordem de quem quer que seja. Alinhei em alguns jogos, estive muito tempo em pé, a olhar para o chão, que olhar para os "doutores" é pecado (e insistem na treta de que a praxe é para integrar. A olhar para o chão?!).

       O objectivo da praxe, dizia na nota de abertura do Código da Praxe, é integrar os caloiros - facilitar a ligação entre pares e a adaptação a uma nova cidade. Contudo, a prática mostra que isso não é o foco de quem praxa. O objectivo é, quase sempre, obter a "vingança" por ter sido praxado no ano anterior, perpetuando as práticas humilhantes.

      Ou se consegue regulamentar a praxe a nível nacional, definindo que actividades são ou não aceites nesse âmbito, ou está na hora da praxe acabar.

domingo, 20 de setembro de 2015

Mas só se debate sobre dinheiro?

        Ninguém debate planos para a educação? Não sei o que se passa nas outras áreas, mas no Português, está tudo pela hora da morte. Os miúdos hoje têm a capacidade de expressão e interpretação de uma batata. E o cenário não me parece ter tendência a melhorar. É difícil para os alunos, que passam horas e horas enfiados na escola como se isso se traduzisse em sucesso; e para os professores, que estarão certamente cansados e, muitos, longe de casa (não ignorando que falta uma triagem melhor para escolher bons docentes).

       Ninguém debate saúde? O sistema nacional está a morrer e ninguém faz nada. A propósito... Para quando uma base de dados nacional que reúna as informações recolhidas sobre o mesmo paciente em diversas unidades de saúde no país? 

       Ninguém debate Segurança Social? Isto é, não há quem considere importante responder ao problema da pobreza em vez de continuar a falar em números abstractos (e imaginários)? Ou a pobreza só interessa quando é preciso ser usada como escudo xenófobo contra a vinda de refugiados de guerra?


        Como é que alguém decide em que partido votar se nenhum fala de muito mais para além de números?

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Apaguei o facebook.

         Andei imenso tempo a adiar o fim do meu perfil no dito site. Primeiro era para eliminar aquilo assim que voltasse de Erasmus. Depois passei para “assim que faça o ultimo exame, apago isto”. E, há uma semana, finalmente traduzi a minha vontade numa acção. 
E de quem é a culpa de eu ter tomado a decisão de sair do facebook? Dos migrantes, claro!
       Depois de ter reduzido a minha lista de amigos a poucos mais que os indispensáveis (as minhas pessoas preferidas, alguns familiares e alguns conhecidos - menos de cem pessoas) continuei a ter o meu feed a transbordar de xenofobia, racismo e incitação ao ódio. Percebi que não tinha como ignorar aquilo excepto se, simplesmente, optasse por apagar o perfil.


      O facebook é um amplificador de tudo o que de mau há no Homem. O que me preocupa é achar que estar atrás de um ecrã elimina quaisquer filtros sociais e acabamos por dizer aquilo que pensamos e que não conseguimos dizer alto porque é preciso ser-se correcto. Portanto, aquelas pessoas não eram só estúpidas. Eram más. E face à maldade tenho sempre a mesma postura: quanto mais longe, melhor.

         Agora aguardo que alguém crie uma aplicação tão prática e gratuita como o messenger mas que não exija que tenha facebook.