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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Mais uma cabeça oca que sofre consequências da praxe

    "Caloira, de 19 anos, terá entrado em coma alcoólico. Estudantes foram enterrados na areia e obrigados a beber".

     Todos os anos há histórias destas e as opiniões costumam dividir-se entre: a culpa é de quem bebeu e a culpa é de quem mandou beber. Eu acho que a culpa é de ambas as partes, na mesma medida. 
      Quem manda beber é estúpido, inconsequente, irresponsável. Fá-lo porque acha que tem um poder qualquer que, quem obedece, reconhece. Quem bebe a mando, mais não é que um desesperado por aceitação alheia, incapaz de avaliar o que é ou não bom para si. Sujeita-se às práticas mais ridículas e humilhantes só para chegar ao sentimento de pertença. Contudo, mesmo inseridos num ambiente de coacção, são adultos e têm as ferramentas para saber quais as consequências de determinados actos. Assim, ambas as partes são culpadas.

      E o que falta para que a praxe conheça o seu fim? Não sei. Todos os anos chegam à comunicação social casos limite, com violações, mortes, humilhações de cariz sexual, ... E a indignação com isso dura duas ou três semanas, depois dissipa-se. 
     
      Fui praxada e não gostei. Tenho uma consciência muito clara daquilo que não quero para mim. Sempre tive. E houve muita coisa que os meus colegas fizeram e que eu recusei: não gritei "ri-me, fodi-me" no meio da rua, não estive de quatro só porque sim, não andei a simular posições sexuais em plena Praça, não bebi sob ordem de quem quer que seja. Alinhei em alguns jogos, estive muito tempo em pé, a olhar para o chão, que olhar para os "doutores" é pecado (e insistem na treta de que a praxe é para integrar. A olhar para o chão?!).

       O objectivo da praxe, dizia na nota de abertura do Código da Praxe, é integrar os caloiros - facilitar a ligação entre pares e a adaptação a uma nova cidade. Contudo, a prática mostra que isso não é o foco de quem praxa. O objectivo é, quase sempre, obter a "vingança" por ter sido praxado no ano anterior, perpetuando as práticas humilhantes.

      Ou se consegue regulamentar a praxe a nível nacional, definindo que actividades são ou não aceites nesse âmbito, ou está na hora da praxe acabar.

2 comentários:

  1. Há algumas praxes que têm piada. E depois há, como em tudo na vida, o exagero. Se as pessoas aceitam o exagero, por causa da pressão social, também são, na mesma, responsáveis pelos seus atos.

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    1. Exacto!
      Tenho ideia que com o passar dos anos a praxe tem piorado porque surge a necessidade de "superar" o que foi feito no ano anterior. E isso leva a mais e mais exageros.

      Eu também fiz algumas coisas com piada. Mas, olhando para toda a minha experiência, vi mais coisas sem jeito nenhum do que actividades com um carácter integrador (admito que também não vi assim tanta praxe quanto isso pq nunca me interessou).

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