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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Não gosto de despedidas

        Detesto despedidas. Nem pequenas, nem grandes, nem assim-assim. Incomodam-me. Aquela ideia de finitude, do adeus, aflige-me sempre. Lido até melhor com o adeus inevitável da vida do que com as despedidas que tenho de fazer a pessoas que vão continuar a existir mas que vão deixar de estar na minha vida, por alguma razão.

        A primeira grande despedida de que me lembro, ou aquela que mais me marcou, foi quando recebi uma turca em minha casa durante uma semana, através de um intercâmbio de escolas secundárias. Ela veio com dois amigos e andámos sempre juntos. Uma semana, todas as horas juntos, comer juntos, brincar juntos, passear juntos. Sem que eu saiba explicar porquê, ao fim de dois ou três dias eu percebia parte das conversas que tinham em turco e eles percebiam muito do que eu dizia em português.
        Se alguém me fizesse um relato idêntico, identificaria logo um tangueiro. Mas não. É real. As pessoas ligam-se a conexão não é obrigatoriamente mais forte só porque se passa mais tempo junto. 
        O dia em que tive de deixá-los no aeroporto, sabendo que certamente era a última vez que os via (porque a vida continua a correr, cada um segue o seu caminho), foi profundamente doloroso. Acho que chorei até ter os olhos em pó. 

         Depois aconteceu algo semelhante quando foi o dia de regressar de Erasmus. Andei ali dias a moer no assunto. "O que faço? Conto-lhes que me vou embora? Aviso o dia da minha partida?".
         Foi neste regresso que percebi que simplesmente não sei lidar com isso. Fico com a alma em frangalhos e nasce-me sempre um coração que passo meses a julgar não ter.
       Decidi ir escrevendo um caderno às duas pessoas que trouxe no coração, caderno esse onde relatei os momentos que mais me marcaram e agradeci por tudo o que me fizeram ganhar. Agradeci por terem passado a ser um bocadinho meus e por, invariavelmente, um pedacinho de mim ter ficado com eles também. Preparei as prendas de madrugada e saí, às seis e pouco da manhã, sem que ninguém em casa desse por isso. 

         E hoje foi mais uma espécie de despedida, a uma escala menor. Foi o último dia que trabalhei com algumas pessoas, uma vez que o meu contrato termina amanhã. E custa, porque fui profundamente feliz. Não só gostei do que fiz como me senti útil (foi o primeiro trabalho a sério), e adorei o ambiente de trabalho. 
         Também passei pelo "como é que posso agradecer o carinho sem parecer uma inapta social?". Porque nisto dos contratos curtos de trabalho em lojas é muito ingrato: nós, que estamos lá umas semanas, afeiçoamo-nos às pessoas que nos acolhem (e, no meu caso, super bem). Mas para quem recebe os novos trabalhadores, podem ser "só mais umas pessoas novas". Porque é usual. Acabam uns contratos, começam outros. Os trabalhadores trocam, a loja não para. Parece sempre que nós gostamos mais deles do que eles poderão gostar de nós (o que é compreensível, atenção. Aqueles dias são especiais aos nossos olhos, não aos deles que fazem aquilo o resto do ano).
         Além disto, há o desafio de saber lidar com a despedida de um lugar onde me senti tão bem. Nunca me senti tão cansada (porque há exames na faculdade já em Janeiro) e bem disposta ao mesmo tempo. Sairei grata por tudo.

         E hoje, pela primeira vez, acho que tive sucesso, ainda que muito relativo. Consegui agradecer a quem senti que tinha de o fazer, consegui criar uma espécie de recuerdo-manhoso para quem me ensinou o que aprendi, e sinto que fui capaz de transmitir a minha gratidão.
        No fundo, o meu problema é simples: é lidar com isso de sentimentos e toda essa panóplia de coisas complicadas. Mas hoje tive algum sucesso. Hoje correu bem. 
*auto congratulação*

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O piropo, esse demónio.

        Hoje o Twitter está dominado por este assunto: o piropo, essa coisa que é um "assédio sexual verbal e público, humilhante". 

        Estou a trabalhar numa caixa de uma loja. Tal já levou a que contactasse com dois rebarbados sujeitos que tiveram uma abordagem absolutamente surreal. Um mostrou-me cuecas e perguntou-me se podia comprar daquilo na loja (que nem sequer vende roupa!), outro disse-me que eu era erótica (?). 
        A par disto, e como qualquer dona de um pipi, também já passei perto de obras e ouvi coisas sem sentido, sem piada. 
        Se acho que algum destes casos deve ser crime (se é que são considerados piropos)? Não!

       Afinal, o que é um piropo? É preciso ser-se específico, fazer propostas concretas, tipo "comia-te toda"? Ou basta ser um elogio feito num tom ordinareco, como "és boa como o milho?"? 
     O artigo 170º do Código Penal (usado para fundamentar esta nova criminalização) refere como crimes:
        - praticar actos de carácter exibicionista (como aquele caso típico do tontinho que anda só de gabardine e a abre no meio da rua);
           - formular propostas de teor sexual (onde parece poder inserir-se o piropo)
           - constranger outra pessoa a contacto de natureza sexual.

          Portanto, o "o teu pai é um ouvires? é que és cá uma jóia" ou o já mencionado "és boa como o milho" não são piropos, é isso? É que não se consubstanciam em nenhuma das hipóteses referidas no artigo.

      Qual é o bem jurídico protegido pela criminalização do piropo? Em que é que este afecta assim tanto as "vítimas" que mereça ser punido penalmente? 
      A minha posição é que as coisas têm a importância que lhes damos. Se há um idiota qualquer a dizer baboseiras, compete-me a mim decidir se lhes presto atenção ou não. E isto valerá também para insultos, por exemplo. 

        O "era até achar petróleo" é realmente danoso? Em que medida é um verdadeiro assédio sexual? Quem profere essas coisas faria, na verdade, alguma coisa caso tivesse oportunidade? E como é que é humilhante para quem ouve? A humilhação que existe é a que quem acha que o piropo, como piadola ordinária, pode funcionar para o engate.

        Mais: passamos a vida a usar a liberdade de expressão para defender barbaridades ditas por pessoas como o Pedro Arroja (que tem direito à sua opinião assim como a ouvir os comentários a ela dirigidas). Mas depois, um senhor que trabalhe numa obra qualquer já não tem direito a expressar a sua opinião e questionar se uma senhora é da tmn porque o seu rabo é um mimo (piropo já desactualizado, é um facto)?
        Afinal, isso do je suis charlie só funciona às vezes. Pode gozar-se com a religião, por exemplo. Mas opinar sobre o traseiro de uma moça, ui!, é crime. 

        Isto do piropo ser crime passa até a imagem da mulher como um género frágil que precisa de toda a protecção e mais alguma só porque o é. Eu sou capaz de me defender sozinha das piadolas ordinarecas, das bocas sem graça. Não preciso de um direito penal tipo cão raivoso atrás de mim, porque sou mulher, pronto a morder em qualquer homem porque os homens são todos maus e dizem coisas feias.

        Não sei se sou em que sou zen e opto por não ligar a idiotas pessoas sem graça, mas tenho muitas reticências em reconhecer eficácia e necessidade em criminalizar o piropo.

       P.S.: Admito que haja diferentes sensibilidades e que aquilo que para mim é um comentário sem jeito algum, ao qual não dou qualquer importância, pode ser extremamente ofensivo para outra mulher. Mas deve o direito penal estar permeável a essas sensibilidades todas? Toda e qualquer coisa ofensiva, jocosa, vinda de um troglodita, deve ser crime?