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sábado, 27 de fevereiro de 2016

Éramos todos Charlies até o Bloco decidir usar um cartaz com Jesus Cristo

        Em Janeiro de 2015 éramos todos Charlies. Todos. Andava eu na recta final de Erasmus e os aeroportos todos faziam questão de me enfiar o movimento hipócrita pelos olhos. Em Fevereiro de 2016 reclamamos respeito porque o Bloco de Esquerda decidiu criar um cartaz de celebração da aprovação da adopção por casais do mesmo sexo, com um slogan factual: Jesus Cristo tinha dois pais. Maria "engravidou", virgem, de Deus, pai espiritual de Jesus, e depois José criou a criança como sua, sendo, assim, o pai afectivo.
   
        A liberdade de expressão tem dois sentidos: podemos dizer o que nos apetecer (assumindo essa responsabilidade quando tal acarretar algum tipo de consequências) e estamos sujeitos a ouvir o que não queremos (porque os outros têm precisamente o mesmo direito que nós). Esta conquista do 25 de Abril cabe a todos. O direito que o mais iluminado tem de avançar com teorias novas que colocam o tido como certo em questão, é justamente o mesmo que cabe ao mais idiota que tem total liberdade de dizer as alarvidades que bem entender.

           Faz-me, ainda, muita confusão que as pessoas chocadas e ofendidas com o cartaz porque "atenta contra os seus valores" sejam as mesmas que seguem (pelos vistos, de forma cega) uma religião que condena os valores e direitos básicos alheios. Uma religião que não permite que uma pessoa se case de novo, que é contra a homossexualidade, que é misógina, ... Portanto: há opressões "de valores" válidas e outras não.

       Assim, e porque devia estar a estudar e não me apetece, escolhi uma mão de comentários à notícia do cartaz. Foi complicado escolher só estes, de entre tantos tão bons, mas cá segue o meu top:


            Li o primeiro comentário com admiração pela sensatez de alguém religioso. Depois cheguei ao segundo, de uma mulher ofendida porque aparentemente alguém atribuiu género a uma figura imaginária. 


           Este comentário fez-me lembrar o sketch em que o Ricardo Araújo Pereira imita Marcelo Rebelo de Sousa: Pode "brincar-se" com religião? Pode, mas é proibido.


          "Gestos e olhares". Bloco de Esquerda em modo "matas-me com o teu olhar".


            E pronto, este senhor faz a piada sozinho. Viva a liberdade de expressão.


          Por fim, noto, com espanto, que uma imagem criada pelo bloco, que não limita os direitos de ninguém, é alvo de petições para que haja punições e o diabo a quatro. Não vejo o mesmo empenho quando o PNR se decide manifestar com as suas posições, quase sempre, inconstitucionais. 
         Defender "valores" que passam pela opressão e restrição de direitos humanos é um exercício de liberdade. Fazer uma imagem, para ser partilhada no facebook, que inclua uma figura religiosa é um crime.


        "Vista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim (...). Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda." José Saramago

3 comentários:

  1. A mim o cartaz não ofende, mas acho-o infantil e pateta.

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    1. Entendo que alguém diga que o cartaz é "infantil e pateta" (uma opinião que, como tal, é perfeitamente válida). Não entendo que se sinta ofendido (que é o que mais ouço e leio por aí) a ponto de começar petições e afins.

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  2. Se aquele ou aquela rato de sacristia do artigo 251 soubesse ler o pensamento, mandava-me prender. eheheh
    Pior do que Jesus ter dois pais, foi a Maria andar no roça-roça com o carteiro, enquanto o carpinteiro fazia a mobília e depois vir com a história que foi o "Espírito Santo" que lhe fez o filho. O BES tem as costas largas... eheheh
    Se esta pega, então é que o Ricardo Salgado nunca mais se vê livre de processos e ainda vai ter que assumir a paternidade da criança, 3000 anos depois. eheheh

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