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terça-feira, 22 de março de 2016

Não vivemos o hoje por culpa dos supermercados.

    Os supermercados não nos deixam gozar o presente. Não deixam. Estão constantemente a impingir-nos o amanhã e não há como não constatar o impacto disso na sociedade que vive para o "é para ontem". 
         Em Outubro já há lojistas a lidar com o problema da impossibilidade de multiplicar o espaço, que tem de servir, em simultâneo, para o Halloween, para o Dia de Todos os Santos e para o Natal (que sobrevive até meados de Janeiro). E as pessoas começam a ficar inquietas. É o fato de vampiro para o Miguel, as prendas para os putos da família, amigos e filhos de amigos e filhos de outros que não são bem amigos nem familiares próximos mas convém dar para não criar atritos, as meias para os homens com mais de quarenta anos e as flores para a avó. Nem o dinheiro nem o tempo esticam. E os nervos aumentam.
          Depois, em Janeiro, as prateleiras continuam a estar recheadas de brinquedos renegados (pela sua falta de qualidade ou excesso de custo) e vêem os fatos de vampiro serem trocados pelos de palhaço e afins, para dar resposta ao Carnaval, que surgirá mais de um mês depois. E já se tem a ideia de páscoa a ecoar no fundo das cabeças, como uma espécie de ameaça que vem reforçar a ideia de que "ainda ontem era Natal". É que, para os supermercados, era mesmo. 

            Não há como não ficar neurótico. Andar em Continentes e Pingo Doces e outros que tais é ser confrontado, de forma brusca e extremamente forçada, que ontem era Natal e que hoje é Páscoa. Que ontem era Páscoa e que hoje estou a comprar protectores solares para o Verão. Que ontem comprei protectores solares para gozar o fim das férias e que hoje estou, de novo, a ver brinquedos tomar espaço nos corredores centrais dos supermercados. 

             A vida até pode ser um par de dias. Mas, se deixarmos isso nas mãos das superfícies comerciais, é só uma tarde.

2 comentários:

  1. Acho que andas a abusar dos centros comerciais :P

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    1. Na verdade, a ideia surgiu-me em Abrantes, onde nem sequer há centros comerciais x)

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