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segunda-feira, 28 de março de 2016

O mundo para alguém que tem ansiedade

        Tenho consciência do meu problema de ansiedade há cinco ou seis anos. Se há fases em que não me tenho um quotidiano em tanto igual ao que considero normal, há outras em que o peso do mundo me esmaga e me impede de ter vontade de tirar a cabeça da almofada.

           A ansiedade desregula por completo os ciclos do sono
       Em regra, o despertador toca às oito da manhã porque há apontamentos para organizar ou aulas para assistir. O normal é ser eu a desligá-lo três ou quatro minutos antes uma vez que ter passado a noite a meditar sobre possíveis e infinitos cenários catastróficos futuros impediu-me de dormir. 
          A ansiedade anda sempre de mão dada com um sentimento de impotência face a tudo, especialmente face àquilo que se passa na nossa cabeça (e só nela). Eu quero viver no hoje, quero conseguir fazer planos sem me boicotar por equacionar logo tudo o que pode - e, segundo a minha crença toldada pelo medo, vai - correr mal. Mas, genuinamente, sou incapaz. E essa impotência escala à noite, na cama, quando estou só eu e os meus pensamentos.
          Tenho comprimidos para dormir, que evito tomar mais do que três ou quatro por mês, e só em épocas de exames ou de mais stress. Esses comprimidos já me deixaram num sono profundo por quase quatrorze horas. Estou de tal forma acelerada que esta noite tomei um às duas da manhã (depois de dias e dias de noites mal dormidas) e, ainda assim, acordei às oito, já com a cabeça na tese que tenho de escrever, no futuro que tenho de decidir, no trabalho que tenho de entregar, nos apontamentos que continuam por organizar.

         A ansiedade interfere com a percepção que o corpo tem de fome
         Em Janeiro, sem que me tenha apercebido, a minha roupa estava toda larga. Coisas que comprei tamanhos abaixo do que vestia na altura para me obrigar a emagrecer estavam, agora, largas. Estava a estudar desde inícios de Dezembro de forma intensiva (com a pausa abençoada do trabalho que arranjei) e, de forma totalmente inconsciente, perdi a fome. 
        Estive quase dois meses a viver só com pequeno almoço e almoço (que é sempre saudável, que ser vegan não me dá muita margem para disparates). Jantar era sopa, quando era. E o dia era passado com chá e café. E nunca tive consciência do que estava a não fazer. Ora, se não tinha fome, não comia. Na fase mais complicada, só a ideia de comer já me deixava enjoada. E, se racionalmente, eu sabia que era um disparate absoluto não me alimentar porque precisava de energia para estudar, o meu corpo não conseguia digerir comida.
         
         A ansiedade convenceu-me que tenho preferência por estar em casa sozinha
         É verdade que, efectivamente, gosto de estar em casa porque gosto de ler, escrever, ver filmes e séries e ouvir música. Mas ser uma pessoa extremamente ansiosa faz-me ter medo de tudo, sobretudo de pessoas. E é patético, não é concebível que o mundo ande a consminar para enviar os pequenos demónios para o meu caminho. Mas e explicar isso ao meu cérebro?
         Tudo é um problema: sair de é um problema, fazer amigos é um problema - e aqui tenho de agradecer à vida ter-me deixado manter aqueles que importam -, ir a jantares é um problema, conversar é um problema. E eu adoro conversar, sou apaixonada pela discussão de ideias. Todavia, mais uma vez, o meu inconsciente é engolido pela possibilidade de fazer figura de parva e opto sempre por existir tão pouco quanto possível. 
           Na verdade, não consigo descortinar se gosto verdadeiramente de estar sozinha ou se é o medo dos outros que me faz estar convencida disso. É que se não é mentira que gosto de estar comigo, também não o é o facto do me, myself and I às vezes ser profundamente solitário.
           Passo a vida a ouvir "tens de sair", "faz a mala e viaja", "deixa de ser bicho do mato". E eu quero sair! O que as pessoas não entendem é que está completamente fora do meu controlo sentir-me assim. Há muitos dias em que, ao acordar, me comprometo a cumprir as metas que tracei para o dia. Mas há tantos outros em que não tenho dizer sobre as ideias que vão controlar-me até regressar à cama. E a pressão de me confrontarem com o meu "bicho matismo" não ajuda em nada, pelo contrário: deixa-me ainda mais ansiosa porque sou confrontada com o que posso estar a perder por estar entretida a pensar em tudo o que pode correr mal na minha vida.

         A ansiedade fecha a porta ao amor
        "Então e namorado?" é uma pergunta que a sociedade acha normal fazer a alguém com 24 anos. Porém, não só não o é (porque cada um sabe de si e não há nenhum calendário para cumprir), como para mim a pergunta tem ainda a dimensão do "se eu nem sequer tenho vontade de sair de casa, como raio se arranjam namorados?". 
          Não tenho paciência, não quero, não me apetece lidar com problemas - é isso que me repito, quando o que está subjacente a essas ideias é "eu até queria mimo, mas já sei que vou ser enganada, que ninguém vai gostar de mim como eu vou gostar da outra pessoa, ninguém me vai compreender".  
          E não me fico pelo simples facto de evitar conhecer pessoas. Se, por alguma eventualidade, conheço alguma e até engraço com ela, o próximo passo é cortar relações precisamente para evitar apegar-me e sofrer. Mais uma vez, a ansiedade obriga-me a ver tudo à luz da desgraça e não me dá hipótese de saborear as coisas boas sem ter como música de fundo a gravação "isto vai dar merda, isto vai dar merda, isto vai dar merda".

    A ansiedade é a inimiga número um da felicidade porque é companheira da autocrítica extrema
        Durante um ataque de ansiedade não há nada para além do medo. Nada. Há um peso galaxial que me esmaga o peito e me faz sentir que respirar, só por si, é uma coisa vitoriosa. As ideias fluem a mil e dividem-se entre o passado (recordar todas as coisas que fiz de errado ou que poderia ter feito melhor) e o futuro (sempre desastroso, sempre cheio de consequências de coisas que nem sequer fiz). 
        Divido-me entre o "isto correu-me mesmo bem" e o "só escrevo porcaria, nunca vou ter sucesso algum", entre o "estou numa fase tranquila" e o "mas quando é que a realidade me acorda e me mostra tudo o que vai correr mal?".

        A ansiedade é incompreensão
        Um ansioso é alguém sozinho. A minha ansiedade é sempre diferente da tua e não há como te mostrar a minha alma para que me percebas. E mesmo quando me tento explicar às minhas pessoas preferidas, sou incapaz de ultrapassar a sensação de que não me compreendem, de que não conseguem valorizar as coisas por que passo (ainda que dentro da minha cabeça). 
        Assim como me sinto impotente porque não consigo mostrar o meu pânico aos outros, percebo que eles se sintam de igual forma porque não conseguem matar os fantasmas que criei e carrego.
  
        Ter ansiedade é uma realidade com que lido todos os dias. Nuns, consigo que o mundo seja feito de todas as cores. Noutros, sou obrigada a lidar com os infinitos tons de cinza. E que estes últimos sejam cada vez menos.

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