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segunda-feira, 4 de abril de 2016

A mensagem que eu nunca recebi

          Maria Eduarda, 
        Estás a acabar o secundário e vais ter de fazer uma escolha relativamente importante. Digo relativamente porque, em abono da verdade, não é tão absolutamente determinante como te querem fazer acreditar e só é definitiva se assim o entenderes. Vê o curso universitário como uma porta que vais abrir para outro universo de oportunidades e não como um processo para te conformar aos padrões da sociedade. Nunca te conformes.
          Vais escolher Direito. Os teus professores vão avisar-te que teres feito o secundário na área de ciências vai fazer-te entrar em desvantagem e que o curso é difícil. E tu vais desvalorizar isso porque os teus sonhos são do tamanho da tua ingenuidade. E assim que chegue a primeira época de exames vais dar razão a todas os conselhos. Vais achar que não és capaz, que os outros são melhores que tu (e os outros não são sempre melhor que nós em tudo?), vais ser tonta ao ponto de achar que é preciso um dom qualquer que tu não tens. Vais chorar de frustração, vais desistir de imensos exames, vais achar-te tão pequenina que desaparecer irá parecer a tarefa mais fácil do mundo.
           Será quando a pequenez te parecer gigante que vais cair em ti: vais entender que só podes desistir quando o teu máximo não for suficiente. Enquanto não fizeres tudo o que estiver ao teu alcance para atingir uma meta, nunca saberás do que és capaz.

         Vais aprender que as pessoas vêm e vão. E isso é natural. Deixa que assim seja. Deverás guardar o bom de todos aqueles que se atravessarem no teu caminho - mesmo que, à primeira vista, te pareça que não há nada a aprender, observa com atenção e retira a lição devida. Se não pudeste tirar nada de bom, aprendeste o que é o mal.
         Eventualmente vais precisar de ajuda de alguém que vai transformar as tuas angústias em ferramentas para lidar com a vida. Vais aprender que os males da cabeça são tão ou mais nocivos do que aqueles que são palpáveis. 

            Muitas serão as noites em claro. Matérias que não te interessam, livros que nunca vais conseguir ler, exames a que vais ter notas muito inferiores ao esperado, orais que te vão deixar fisicamente doente e cansaço tal que vais dar por ti a tentares desmaquilhar-te quando, na verdade, não tens máscara esborratada - são olheiras. 
             E vais ter sempre a vontade de desistir. De largar tudo, de procurar um caminho mais fácil, mais rápido e onde não haja mais do que a promessa de um estágio de quase dois anos. Não remunerado. 
             Não desistas. Mesmo quando, por frustração, te parecer o caminho indicado, não desistas. Grita o que tens de gritar, chora o que tens de chorar. Mas continua. Sempre. Os obstáculos estão lá para testar a tua paixão e perseverança. 

      Chegarás ao mestrado para perceberes que, afinal, as coisas fazem sentido. Encontrarás amigos (mesmo amigos), apaixonar-te-ás por um novo modo de vida (vais ser vegana, vê só!, e vais inscrever-te numa meia maratona), terás notas superiores às que tinhas na licenciatura, enfim, vais perceber que o esforço compensa.
         Vais ainda tirar o teu primeiro curso de escrita criativa com o Borges. Compreenderás, por fim, que a tua paixão de sempre (as palavras ditas e escritas) pode coadunar-se com o teu lado racional que te levou a um caminho jurídico. Que ninguém te deixe acreditar que tens de ser só uma coisa. 

            Escrevo-te hoje, no último semestre da parte escolar do mestrado, para te dizer que a única pessoa capaz de te boicotar és tu. Não deixes que isso aconteça. 
         Nunca terás certezas nem um plano de vida definido. A cabeça estará sempre perdida entre Neptuno e Plutão mas o coração nunca sairá do lugar certo. Segue-o. Nos momentos em que as saídas te parecerem todas trancadas, ouve-te e não deixes que empurrem a tua vida. És capaz do que quiseres, caso venças a tua preguiça, que é expressão do medo. 
         Vais ser capaz, vais ter amigos, vais ter sucesso, vais ser melhor do que és. 

         Tem calma. Tudo acaba bem. Deixa o amanhã para amanhã e goza o hoje porque se acaba rápido.
          Vai tudo correr bem.

Je suis Charlie. Menos em Angola.

        Vários partidos políticos portugueses subscreveram o movimento "Je suis Charlie", porque é essencial ter liberdade de expressão. Menos em Angola. Aí é preciso ter cuidado com esses meliantes que andam de livro empunhado prontos a ler a qualquer momento. Em Angola, para a maioria dos deputados, pode haver presos políticos porque é importante "manter relações diplomáticas".

        E é o parlamento que temos: aquele que prioriza interesses económicos em detrimento de direitos humanos.