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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

As avós e o enfardanço

          Se há coisa que eu não entendo é a necessidade que as avós (e avôs, alguns) têm em ver-nos assim com uma forma muito semelhante à de uma elefanta grávida de uma baleia. Nunca comemos o suficiente para eles, nunca. Se o meu pequeno almoço é um copo de sumo de laranja natural e uma torrada, falta lá um croassaint, um pastel de nata, um iogurte líquido, cereais e um copo de leite.
         A situação é tão grave que já chegou ao ponto de me ser entregue no quarto um prato com oito pães! Oito! Mas quem é que como oito pães num dia? Quanto mais a um lanche. E eu esforço-me por entender este fenómeno da adoração das avós pelo comer, mas não consigo encontrar uma razão lógica para tal facto. O certo é que a minha mudança de cidade e casa me está a custar largos quilos. Temo pela minha saúde. E estética.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

#2

    - Mas porquê eu, se me esforço tanto para ser uma muralha?
    - Porque consigo ver para além dos muros. Porque consigo ver-te. No fundo sei aquilo que escondes e pensas já não existir. Desatei o cordel que prendia a caixa que te empacotou a alma. E tu nem deste conta. Minto, deste. Tanto deste conta disso que te desligaste de mim. E eu tenho pena disso, assim como saudades. A verdade, e devo admitir, é que contigo não tenho medo de ser quem sou. Não tenho medo de errar, de te mostrar aquilo que de mais precioso tenho e entregar-me, por completo. E juro-te que isso nunca aconteceu antes. Nem eu entendo porque raio tinha de ser agora, logo nesta altura estúpida e absolutamente louca. Nenhum de nós quer isto agora. Tu ainda queres menos que eu. Mas eu nunca tive pressa de chegar à ultima página até porque rezo muito para que ela nem exista, para que o último capítulo nada mais seja que um deixar em aberto para o segundo volume, para a continuação do que seremos.
      - Tenho medo. E pouca paciência também. E pouco tempo. Pronto, admito que possam ser desculpas para te baralhar com palavras até entenderes que o que me demove é só o pânico da dor.
     - Todos temos medo. Eu tenho medo da morte, de aranhas, da solidão, de não ser boa o suficiente. Mas não tenho medo de ti. Nenhum mesmo. És o meu porto seguro, a âncora que me mantém fixa num lugar: a ti. Não te exigi nada que não quisesses dar. Não te chamei, não te agarrei, não disse nem fiz. Fiquei até tu queres chegar. E chegaste. Fizeste, agarraste, chamaste e disseste (pouco). E nunca me imaginei tão tolerante. É por isso que és tu. És tu que, mesmo escondido atrás do que queres ser, me entendes. Pelos gostos em comum, pelo ritmo, por seres e por eu ser. Porque no fundo, somos.
      - Sim, somos."

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

#1

        Ela pegou nos papeis todos e rasgo-os com tanta violência como o embate de um corpo com o chão depois de largado a cem metros de altura, desamparado. Aquela merda toda deixou de fazer sentido. Memórias soltas deixadas em forma de palavras escolhidas meticulosamente para que ele percebesse. Ele nunca foi bom com palavras e a Princess não queria ficar com letras presas na garganta. Ou deverei dizer caneta? Bem, seja como for, ela queria fazer-se entender. Deixar que ele lhe vasculhasse a alma através de frases escritas que haviam sido despregadas do coração. Sim, porque ao contrário dele, ela tinha-o.
        Mas, decidiu ela, há causas que se têm de dar por perdidas. Partilharam ideias, sorrisos, piadas tão estúpidas que só os dois podiam entender no meio daquela orquestra de lenços perfumados que soavam a prazer, discutiram temas sérios, temas menos sérios e coisas banais. Ligaram-se por quantos fios tinham e ela estava surpreendida com isso. A Princess nunca se havia imaginado tão tolerante e tão segura de si perto de um quase estranho. E era essa segurança que a fazia viver num turbilhão de ideias que tinham de ser presas por tinta num qualquer pedaço de folha em branco. Não que a folha tivesse de ser branca. O que conta é a mensagem, não o embrulho. É como as pessoas: o que conta é o que está por dentro, não aquilo com que se mascaram. E ele estava nu. Despido de ideias feitas. Continua assim, completamente vazio de tudo o que ela detesta, um mar de virtudes, portanto.
         O que aconteceu? Ele sabe. Eu sei que ele sabe. Mas a verdade é que aquelas jardineiras nunca mentiram. Já elas gritavam o futuro que agora é um presente difuso. Se não se conhecesse, a Princess diria que tinha fumado uma ganza num qualquer beco húmido e frio, embrulhada numa manta xadrez preta e vermelha encontrada no contentor de lixo mais próximo. Daqueles de metal, que fazem uma barulheira tremenda mesmo quando se quer ser discreto. A mesma barulheira que as palavras dele, ou ausência delas, criou na cabeça dela e ainda hoje a deixa sem entender onde se meteu. Se calhar ela quis demais. Não é boa o suficiente. Não pode pedir, ou esperar, aquilo que nunca teve. Ele avisou vezes e vezes sem conta. Até eu, eu mesma, a avisei infinitas vezes. Ainda hoje a relembro de ideias, de feridas que tem, de marcas da vida, que apesar de tudo, convenhamos, é curta. Mais curta que a dele.
          Não devias ter visto logo que ia ser assim? Eu disse-te over and over again. Primeiro foi o Luigi. Estavas à espera que as coisas mudassem? Porque não mantiveste em mente a conversa que tivemos? Eu expliquei-te que o que tu mereces, o que vales. Nem o das jardineiras, nem ele é diferente. Eu canso-me de repetir-te isso. Lembras-te daquela tarde em que nos sentámos na tua cama, recostadas na almofada e tu de caneta na mão? Usaste-me para escrever exactamente o que te ditei, que ia ser sempre assim por mais que quisesses pensar o contrário. Nem todos têm o direito a completar o puzzle, a ser completos. Mentaliza-te do que te digo. Não caias na asneira de novo...
          Mas a verdade é que a Princess já tinha quase um livro para editar. Uma quantidade de folhas bruta que agora estavam temperadas com o sal dos olhos dela. Poderia dizer "pobre ela..." mas a verdade é que ela sabia o que a esperava. Ela pegou na balança e tentou contrapor o que passaria com ele mas sem o ter, e sem ele, de forma nenhuma. Pronto, admito que estou a mentir. Ela nunca pesou isso. Não conseguiu. Queria-o. Por que raio haveria de pesar uma coisa cujo valor lhe desinteressava por completo? Lutou, caiu e vai-se levantar já amanhã.
         Arredei agora a cortina da minha janela e vejo que já se põe de pé. É. Ela é forte. E também nunca se entregou, nunca lhe deu a chave para ele ver o que ela é. Um bocado como aquelas free samples que nos dão nas perfumarias, ela deixou que ele constatasse que a essência dela era a melhor, mas nunca lhe deu o frasco para a mão. Ele, se quisesse, que o viesse buscar, pensava ela. Continuo a achar que a culpa é das jardineiras. E daquela pirosa camisola vermelha que ele enverga. Arruinaram tudo.
         Porque é que ele se veste tão mal? Porque não quer ser bonito, simples. Quer ser feio e mau. É um escudo como outro qualquer. Válido, certamente. Tão válido e eficaz como um colete à prova de bala. Uma espécie de ideia estúpida que ele criou depois de se ter metido com uma puta qualquer. Ou então ela não o era. Não sei. Nem dá para entender. O escudo é tão denso que só se vê nevoeiro dentro dele. Uma espécie de manto a proteger a semente do que é. Não gosta, não ama, não adora, não é dependente de nada. A não ser da família, que no fundo, é o alicerce dos fracos. Não por ter menos valor, claro que não! Nenhum forte se levantou sem tal pilar. Mas os fortes não se prendem só a isso, porque no fundo a família é a única coisa garantida que temos. Por mais batalhas que percamos, vai estar sempre lá. Sempre. E ele prendeu-se a isso. Para que amar se tem pais? Para quê adorar se tem primos e irmãos? Para quê? E por estarem em família, todos comem cogumelos. Dão vida, diz-se.
        Ela achava que ia passar isso, rasgar o véu, deslindar o código, encontrar a chave e tirar-lhe o cadeado do coração. Ele afinal nem o tem. Quer dizer, não o quer ter. Para ela. Não o quer ter para ela, não lho quer dar. Não quer que ela seja mais do que ela nem sequer é. É isso. Ela para ele é um nada vazio. A pequena Princess não passa de um ínfimo ponto naquilo que ele nem quer ver. Mas se o carinho que ela tem por ele fosse areia, muito mais desertos teriam de ser inventados para que ele entendesse o que lhe vai na alma. Nem é só carinho. É respeito. É admiração por aquilo que ele é, pelos valores que tem. Até aquele jeito estúpido de estar sempre a afastá-la, mesmo que não note, ela gosta. Aquelas palavras sem sentido, os vídeos estúpidos, os canos percorridos para colher estrelas, os pedaços de alma que ele deixava escapar por entre sorrisos e que ela captava como ninguém, tudo isto era o mundo dela. Um mundo tão extenso e tão rico em sensações que não só as palavras que ela lhe dizia eram suficientes para vazar o sentimento do corpo. Ela nunca disse "gosto muito de ti", por exemplo. E ela sentia-o! A sério que sim! Com as mãos geladas do frio gélido que está na rua, limpou as lágrimas muitas vezes do rosto jovem e bem tratado depois de se ter visto obrigada a cortar palavras duma mensagem qualquer a enviar. Doía ter de controlar o pensamento. Doía por a barreira na alma.
        Mas ela tem um coração tão grande que tanta palavra lhe entupia o sistema. Foi por isso que apareceram todas estas folhas que ela agora rasga cruelmente. Quase como se fossem o corpo dele. O corpo e o sonho porque o que magoa destruir é o sonho, e não a relação com ele. O coração dela está tão diminuto no meio daquelas vestes cor de rosa. Tão pequenino que creio já nem existir. E é melhor assim. Se este das jardineiras e da t-shirt vermelha não quer mandar o muro a baixo, mais ninguém vai querer. Ela sente isso. Se calhar é melhor mentalizar-se já. Assim daqui a uns vinte anos isto já nem vai custar. É tudo o hábito. Ele vai ser infeliz assim. Vai, é óbvio. Vai perder pessoas que gostam tanto dele como ela. Aliás, menos, porque o que ela sente por ele não é passível de ter cópias por esse mundo. É respeito. É carinho e bem estar. É aquela sensação de ele nem ter de dizer as palavras para ela se sentir bem. Não há silêncios incómodos entre eles. Até há espaço para o candeeiro.
      E é com a cabeça feita em água (e a cara, claro), que ela se dirige à janela que tem a vista para toda a cidade, e larga os milhares de pedacinhos de papel que resultaram daquela chacina de palavras sentidas. Os pequenos papeizinhos propagam-se no ar levados pelo vento frio que corta o rosto e beijam a cidade em todos os locais que para eles podiam, um dia, ter feito sentido.
     E o que lhe está a doer é a ideia de um dia, depois de já ter decidido cortar os fios, ele poder pensar "merda, era aquela!".

sábado, 9 de outubro de 2010

lina#2

(após a remodelação do quarto)

Avó: Agora tem de se meter um parafusinho para pendurar esta Cruz
Mãe: Não. Ficas já a saber que a tua neta não acredita em nada disso.
Avó: (extremamente ofendida) Não acredita? "Ómessa!" Mas não acredita porquê? Ele nunca fez mal a ninguém! Oh oh... Mas o que é que lhe deu agora? (dirigindo-se a mim) Agora és Jeová, é?


E esta será a única coisa que não há maneira nenhuma da minha avó aceitar: o meu ateísmo.

Lina#1

  (perante uma placa de direcção que dizia "P. de Campismo")

Avó: Praça de campismo... Oh E., onde é a Praça de Campismo?
Avô: Praça de Campismo? O que é isso?
Avó: Não sei... Estava ali numa placa a dizer isso.
Avô: Não seria Parque de Campismo?
Avó: Não sei, tinha lá um P, pensei que fosse praça. Mas então, onde é isso de Parque de Campismo?
Avô: Olha, por acaso não sei. Deve ser para ali para os lados de...
Avó: Ah, já sei. Deve ser aquilo dos cavalos!


E pronto, são estes momentos impagáveis que aliviam o stress diário.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Citações da lina

     Tal como tenho vindo a repetir ao longo destes últimos dias, se tudo correr bem, entro na faculdade de direito da universidade de Coimbra. Com esta conquista, regresso para a minha cidade natal, onde está a minha família toda que não a nuclear. Assim, vou viver com os meus avós maternos, o que promete.
     A minha avó tem oitenta anos e já foi submetida a várias anestesias gerais (nove, se não estou em erro). Ora, todos sabemos que este tipo de anestesias tem um grande impacto no cérebro e mata muitas células cerebrais. A juntar a isto, há o facto da senhora ser de outro tempo, e ter outra mentalidade.
     Por não entender a sociedade de hoje em dia, a minha avó é perita em tecer comentários um tanto absurdos. Porém, eu, uma pessoa bastante paciente em relação a certas coisas, delicio-me a ouvir os pensamentos profundos com os quais a minha avó me presenteia. Ora me diz que eu tenho de ir à missa porque as meninas têm de ir, ou que não posso usar calças porque as meninas usam saias, ou até mesmo que as mães de hoje são irresponsáveis porque deixam os filhos sair de casa com as calças todas rasgadas.

      Ainda o mais interessante é ver a minha avó a relatar-me uma história com o maior entusiasmo como se fosse verídica e esta não passar de uma novela ou de um reclame televisivo.
      Perante todas estas relíquias decidi adquirir um caderno para poder apontas as mais variadas ideias e teorias da lina. Tenho a certeza que, mais tarde, vou gostar de voltar a ler e relembrar os momentos.

      Que não haja confusão e que se entenda que não é uma maneira de gozo. A verdade é que tenho o maior respeito pela minha avó e entendo-a perfeitamente. Já sofreu muitas intervenções cirúrgicas e pertence a outra realidade completamente diferente da qual não se conseguiu descolar. De certa forma, é através dela que eu consigo perceber como se pensava antes e a grande diferença entre os homens e as mulheres que era promovida à umas décadas atrás. 
       Com este caderno só quero mesmo guardar momentos e palavras dela. Quero saber que não vou gastar tempo que tenho com ela e que vou ter uma maneira de guardar parte dela comigo, para sempre - nem que sejam palavras. 
  

domingo, 1 de agosto de 2010

Tourada - a minha opinião

          Sou piamente contra as touradas. 18 anos de vida ainda não foram suficientes para eu entender que raio tem aquela "festa" de interessante. A meu ver, não passa de um atestado de estupidez humana.


           O Homem tem de massacrar outros animais que julga inferiores (na verdade, a idiotice é tal que se acha superior a qualquer outro ser vivo) para demonstrar o seu poder - acha ele - e poder ser feliz com a tortura alheia. Não passando de um encontro bárbaro, a tourada trás ao de cima tudo o que há de podre na raça humana. A crueldade e o prazer que se sente a ver a morte de um ser vivo, assustam-me. E é escusado argumentarem que o animal não morre que é absurdo. Sabemos bem que no fim da tourada, os animais são mortos (os que sobrevivem, claro). Pondo a hipótese de não serem mortos e, ao contrário, serem tratados para serem postos na arena posteriormente, estamos perante um quadro mórbido. Que indivíduo tem a coragem de submeter um touro à dupla tortura? Ou terceira, ou quarta, ou quinta... É macabro.
         Um dos argumentos mais utilizados para defender este costume que envergonha o Homem é "é uma tradição". Meus caros, o que está mal, muda-se! O mundo evolui. O casamento, tradicionalmente, era era dois indivíduos de sexos diferentes. Contudo, por se verificar que este hábito não estava adaptado à sociedade actual, mudou-se, e permitiu-se o casamento entre homossexuais. Na mesma linha de pensamento, se a tourada é uma tradição completamente desajustada ao sentido de humanidade que temos, que se baseia no respeito e na tolerância, não faz sentido perpetuar esta festa só porque já é uma velha conhecida. Um touro tem tanto direito à vida e ao respeito como um Homem. Não sejamos hipócritas ao ponto de defender que se pare com a violência aos cãezinhos e gatinhos e depois ir para uma bancada festejar a tortura animal. Tem de haver coerência. Aliás, deve existir coerência.
      

          É hora de acabar com esta espécie de festa. Se o mundo se acha assim tão à frente como inteligente, então estaremos todos dotados de capacidades cognitivas que nos permitam perceber que não faz sentido continuar com este tipo de barbaridades.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Gerações

         A minha avó disse, recentemente, que não quer morrer sem conhecer um bisneto. Ora, eu sou a neta mais velha e a única rapariga. Isto leva a que eu tenha um tratamento diferente.
         Claro que a afirmação dela (ou será um pedido?) me pareceu absurda. Ridícula, até. Quem é que, aos 18 anos, pensa em ter filhos? Certamente haverá meia dúzia de alminhas que o ambiciona, mas a grande maioria não. Quero ir para a faculdade, licenciar-me e depois tirar um mestrado qualquer (dos bons, se possível). Ter filhos entra nos meus planos daqui a 7 ou 8 anos, se tudo correr bem.
          Depois da minha primeira reacção, lembrei-me que, como é obvio, a minha avó é de outro tempo, outra mentalidade. No tempo dela seria normal ter filhos a esta idade, talvez. A esta altura eu já a estava a entender mas rapidamente mudei o rumo do meu comboio de pensamentos: eu quero que eles - os meus 3 avós vivos e o meu avô emprestado - estejam cá para conhecer os meus filhos.  Quero que os meus bebés desfrutem daquilo que eu também tive. A ideia de perder qualquer um destes elementos fulcrais para o meu bem estar é terrivelmente penosa.
         Entrei num estado demasiado consciente. Já Fernando Pessoa tinha consciência da dor de pensar, do que custa estar consciente da realidade. Eu não quis - nem quero - saber o que vai acontecer eventualmente. Só quero ter a certeza que quando o momento chegar eu não vou ser assolada com ideias como "se eu tivesse feito X ou Y, tinha desfrutado melhor deles". Não quero perder nem um segundo que tenho disponível.

        Foi com base neste abanão psicológico que decidi que iria ficar a morar com os meus avós quando voltar para a minha cidade para estudar - que quem quer que esteja aí em cima que me ouça, sim? Faço muito gosto em conseguir entrar na Universidade de Coimbra. Não quero que aconteça alguma coisa e que eu, por estar longe deles, não os possa ajudar, me sinta impotente. Portanto, os planos são candidatar-me para lá, ir morar com os meus avós maternos (os paternos são vizinhos destes) e depois de uns meses (ou depois do último ano), arranjar um espacinho para mim.

sábado, 24 de outubro de 2009

23 de Maio de 2009

"- A minha barba dá-me uma idade que não é a minha. É da cor da cinza, e o sol e o vento, mais o vento, desgastam-na e estragam o meu rosto. Tenho vincos em todo o meu corpo, especialmente nas mãos - marcas da minha vida. Cada ruga tem uma história, representa uma etapa. As minhas roupas não são como as que usei outrora. Estão orientadas pela moda da vida suburbana.
Mas não me olhes assim. Continuo a ser quem fui. Quero lutar pelas mesmas coisas. Quero ser alguém. Mas achas que alguém me vê?
Também eu queria cair, chorar... para depois me levantar e comigo, erguer os meus, e não voltar a cair. Mas paro, penso e vejo que agora sou livre. E se chorasse era pelo que passei, e não pelo que sou.
Lembro-me de ser miúdo e chegar a casa a chorar porque os outros rapazes me tinham dito que eu era gordo ou feio, ou pior, gordo e feio. Custou tanto que a minha lembrança a seguir é estar no hospital, por ter deixado de comer. A minha vida nunca foi fácil. Ou então eu compliquei-a.
E o meu gato... O meu querido gato! O meu pantufa... Como pude afeiçoar-me tanto a um bicho? Ele entendia-me. Fez aquilo que nunca ninguém quis fazer comigo. Deitou-se a meu lado e mimou-me enquanto chorei, sem me perturbar com perguntas. Limitava-se a encostar o seu focinho à minha cara e fitar os meus olhos encharcados com um olhar ternurento como se soubesse exactamente aquilo por que passava. A sua morte não foi fácil. A morte de um amigo nunca é fácil.
Remei na dor durante muito temo. A sensação de impotência face ao mundo sempre me perturbou e a minha mania de ser diferente arrastou a minha vida para as ruas. Nunca gostei de estereótipos, nem de pessoas que falassem deles.
A maioria das pessoas que passa por mim acha que sou um drogado, ou então, nem me olham ou reparam que estou aqui. O mundo tem demasiada pressa, e o seu maior erro é todos acharem que são os heróis da história. Nem sequer tem de haver vilões...
Começam-me a faltar as forças para falas, mas eu tenho tanto para contar... Já alguma vez te falei da vez que não vi a minha avó? Eu amava aquela senhora. O seu cheiro característico, as mãos frias, a pele seca, a barriguinha saliente... Um dia os meus pais disseram que eu tinha de ver a vó para lhe dizer adeus. E eu não quis. Claro que não queria dizer adeus à avó! Eu queria-a comigo. Depois disso, chorei, chorei, chorei... Desculpa avó.
Sabes rapaz, gostava que a minha história chegasse ao mundo. Gostava que as pessoas soubessem que nasci, fui grande, e agora estou cada vez mais por aqui... Defendi os meus ideais e guiei-me pelo coração. Ela deixou-me. Disse que as amigas dela não gostavam de mim e que não era correcto eu não ser religioso, não ouvir a música que os outros ouviam, não gostar do que os outros gostavam só para marcar a diferença, ofendeu-me, abriu a porta e saiu. Nunca mais a vi. Foi a única mulher que amei.
A única coisa que me ajuda a continuar é a minha crença estúpida de que nada acontece por acaso. Haverá certamente alguma razão para a vida, para a minha vida. Caso assim não seja, não estou aqui a fazer nada.
Cada dia é um tiro que marca, e a ampulheta não para. Só quero estar bem aqui... Estou livre de máscaras. ...


O vento pôs as folhas a dançar em volta do pobre homem. O rapaz despediu-se e foi para casa. Sentou-se ao computador. Dois anos depois, editou então o livro sobre um homem que tinha tudo o que ele ainda não tinha - uma história de vida.
Pegou numa cópia e deixou-a sobre a campa do mestre.
- Obrigado. "





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Encontrei isto num caderno com textos meus (já nem me lembrava da existência de tal coisa) e achei esta espécie de coisa bastante interessante. Não só por contrariar a tendência "saramaguence" de fazer parágrafos gigantescos, mas também porque de certa forma, é um espelho da minha alma.

domingo, 17 de maio de 2009

Fogo, Corpos e Suor.

"Não sei o porquê, só sei que sim. Acho que estava escrito. Ou então rendi-me. Vi-me obrigada a tirar a máscara pesada de bronze que encobria a minha alma e dizer o que corria em mim.

Não sei se foi pelo facto de ser um jogo, ou de mera afirmação própria, mero orgulho estúpido que não se aguentou até ao fim. Mas aconteceu. Gostei, gosto.

Dei de mais, e valeu a pena voar. A noite acordou a guerra dos sentidos que travava até então. Saboreei as asas da magia e comprovei a perfeição do teu desenho. Foi dança, foi fogo que queimou o que estava à volta, foram dois corpos presos a uma chama solta que se amaram sem ninguém ver.

De manhã, temporais e bruxas. Tudo o que de negro houve reuniu-se para destruir a muralha indestrutível. Falou-se para esconder a saudade, dançou-se em pleno dia, mostrou-se o riso vazio de contentamento e, sobretudo, escondeu-se o que não se disse. Quebramos os dois. Quebramos como união, quebramos como um só. No meio do escuro, corremos para sentidos opostos da realidade dura. Mas o mundo tem uma forma quase esférica. Eventualmente as rotas traçar-se-iam de novo.

Ficaste por não souber sair. Saí, e não nos tocamos enquanto saia. Passivamente assistiu-se ao inevitável e não se contrariou a lei do relógio verde azul. Fecharam-se os olhos húmidos por se sentir a verdade. A verdade não se extinguiu, embora tenha sido o fim da cor que trazíamos.

Despi-te de tudo o que era pequeno e fui vestida com o desconhecido. Puxaste-me para perto onde ouvi histórias que mataram o bichinho do orgulho, histórias que atam almas. Ficámos. Aliás, fomos ficando.

Como crianças, brincamos com Legos e construímos uma fortaleza ilusória e permeável. Andamos em voltas rectas e limpamos o que restava. O que ainda ficou, o tempo limpou. Deixaste-me acreditar no mesmo deus. Os laços trataram de ligar pontas soltas criando linhas paralelamente desordenadas que não deixam fugir pensamentos. O novelo aumentou até criar um emaranhado tão grande que não havia maneira de fugir. Os olhos diziam aquilo que a boca não conseguia e o sorriso descomprometido de interesses confirmava qualquer teoria. Pelos vistos, há coisas que estão mesmo escritas, e em mais que uma página. Desfolhei o meu livro e vários foram os lugares onde encontrei a mesma palavra, a mesma figura. A dança repetia-se e isso tinha de significar alguma coisa.

Quando já não se pode negar, para quê combater? Seria perder tempo.

Construíram-se pontes sem serem precisas obras e edificaram-se castelos de vitórias próprias, agora comemoradas a dois. Limparam-se os riscos a mais que estragavam a pintura e adaptaram-se os lápis ao papel. Não há meu ou teu. Há nosso.

E por mais que me martirize, não descubro porque a máscara não se aguentou fixa. O embrulho não é ponto de desempate ou de relevo – embora extremamente agradável, não é o factor de decisão.

A prenda em si, é ouro. Não é o lado top ten, que sempre foi objectivo de muito pavão e avestruz e muito outros elementos do reino animal, mas o lado mole que pede por retoques. O lado que fraqueja frequentemente e anseia pelos acordes da alma que o completa. Ainda a vertente desprovida de sentido que gargalha sem razão. A vertente que permite que um olhar diga o que mil palavras não têm capacidade de dizer.

Cartas sem papel, músicas silenciosas. Tocas ilegais mas iguais que abrem uma janela para o rio que somos. O rio que nos deixa cantar o nosso fado e contar com a música background da voz que temos. Tudo favorece a nossa construção e eu não tenho intenções de abandonar a fortaleza. O poder de sentir que numa democracia há reis e rainhas eleva-nos perante o resto do mundo e deixa-nos voar no toque. Não se vai extinguir o que já existe.

Não vai acabar, vamos ser sempre paixão. Vamos ter sempre o olhar.

Nem por um segundo largo a mão do que és, da perfeição do teu desenho, do teu gesto.

“-Estas a ver o universo?”

“-Eu gosto de ti o dobro.”



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