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terça-feira, 6 de julho de 2010

Gerações

         A minha avó disse, recentemente, que não quer morrer sem conhecer um bisneto. Ora, eu sou a neta mais velha e a única rapariga. Isto leva a que eu tenha um tratamento diferente.
         Claro que a afirmação dela (ou será um pedido?) me pareceu absurda. Ridícula, até. Quem é que, aos 18 anos, pensa em ter filhos? Certamente haverá meia dúzia de alminhas que o ambiciona, mas a grande maioria não. Quero ir para a faculdade, licenciar-me e depois tirar um mestrado qualquer (dos bons, se possível). Ter filhos entra nos meus planos daqui a 7 ou 8 anos, se tudo correr bem.
          Depois da minha primeira reacção, lembrei-me que, como é obvio, a minha avó é de outro tempo, outra mentalidade. No tempo dela seria normal ter filhos a esta idade, talvez. A esta altura eu já a estava a entender mas rapidamente mudei o rumo do meu comboio de pensamentos: eu quero que eles - os meus 3 avós vivos e o meu avô emprestado - estejam cá para conhecer os meus filhos.  Quero que os meus bebés desfrutem daquilo que eu também tive. A ideia de perder qualquer um destes elementos fulcrais para o meu bem estar é terrivelmente penosa.
         Entrei num estado demasiado consciente. Já Fernando Pessoa tinha consciência da dor de pensar, do que custa estar consciente da realidade. Eu não quis - nem quero - saber o que vai acontecer eventualmente. Só quero ter a certeza que quando o momento chegar eu não vou ser assolada com ideias como "se eu tivesse feito X ou Y, tinha desfrutado melhor deles". Não quero perder nem um segundo que tenho disponível.

        Foi com base neste abanão psicológico que decidi que iria ficar a morar com os meus avós quando voltar para a minha cidade para estudar - que quem quer que esteja aí em cima que me ouça, sim? Faço muito gosto em conseguir entrar na Universidade de Coimbra. Não quero que aconteça alguma coisa e que eu, por estar longe deles, não os possa ajudar, me sinta impotente. Portanto, os planos são candidatar-me para lá, ir morar com os meus avós maternos (os paternos são vizinhos destes) e depois de uns meses (ou depois do último ano), arranjar um espacinho para mim.

sábado, 24 de outubro de 2009

23 de Maio de 2009

"- A minha barba dá-me uma idade que não é a minha. É da cor da cinza, e o sol e o vento, mais o vento, desgastam-na e estragam o meu rosto. Tenho vincos em todo o meu corpo, especialmente nas mãos - marcas da minha vida. Cada ruga tem uma história, representa uma etapa. As minhas roupas não são como as que usei outrora. Estão orientadas pela moda da vida suburbana.
Mas não me olhes assim. Continuo a ser quem fui. Quero lutar pelas mesmas coisas. Quero ser alguém. Mas achas que alguém me vê?
Também eu queria cair, chorar... para depois me levantar e comigo, erguer os meus, e não voltar a cair. Mas paro, penso e vejo que agora sou livre. E se chorasse era pelo que passei, e não pelo que sou.
Lembro-me de ser miúdo e chegar a casa a chorar porque os outros rapazes me tinham dito que eu era gordo ou feio, ou pior, gordo e feio. Custou tanto que a minha lembrança a seguir é estar no hospital, por ter deixado de comer. A minha vida nunca foi fácil. Ou então eu compliquei-a.
E o meu gato... O meu querido gato! O meu pantufa... Como pude afeiçoar-me tanto a um bicho? Ele entendia-me. Fez aquilo que nunca ninguém quis fazer comigo. Deitou-se a meu lado e mimou-me enquanto chorei, sem me perturbar com perguntas. Limitava-se a encostar o seu focinho à minha cara e fitar os meus olhos encharcados com um olhar ternurento como se soubesse exactamente aquilo por que passava. A sua morte não foi fácil. A morte de um amigo nunca é fácil.
Remei na dor durante muito temo. A sensação de impotência face ao mundo sempre me perturbou e a minha mania de ser diferente arrastou a minha vida para as ruas. Nunca gostei de estereótipos, nem de pessoas que falassem deles.
A maioria das pessoas que passa por mim acha que sou um drogado, ou então, nem me olham ou reparam que estou aqui. O mundo tem demasiada pressa, e o seu maior erro é todos acharem que são os heróis da história. Nem sequer tem de haver vilões...
Começam-me a faltar as forças para falas, mas eu tenho tanto para contar... Já alguma vez te falei da vez que não vi a minha avó? Eu amava aquela senhora. O seu cheiro característico, as mãos frias, a pele seca, a barriguinha saliente... Um dia os meus pais disseram que eu tinha de ver a vó para lhe dizer adeus. E eu não quis. Claro que não queria dizer adeus à avó! Eu queria-a comigo. Depois disso, chorei, chorei, chorei... Desculpa avó.
Sabes rapaz, gostava que a minha história chegasse ao mundo. Gostava que as pessoas soubessem que nasci, fui grande, e agora estou cada vez mais por aqui... Defendi os meus ideais e guiei-me pelo coração. Ela deixou-me. Disse que as amigas dela não gostavam de mim e que não era correcto eu não ser religioso, não ouvir a música que os outros ouviam, não gostar do que os outros gostavam só para marcar a diferença, ofendeu-me, abriu a porta e saiu. Nunca mais a vi. Foi a única mulher que amei.
A única coisa que me ajuda a continuar é a minha crença estúpida de que nada acontece por acaso. Haverá certamente alguma razão para a vida, para a minha vida. Caso assim não seja, não estou aqui a fazer nada.
Cada dia é um tiro que marca, e a ampulheta não para. Só quero estar bem aqui... Estou livre de máscaras. ...


O vento pôs as folhas a dançar em volta do pobre homem. O rapaz despediu-se e foi para casa. Sentou-se ao computador. Dois anos depois, editou então o livro sobre um homem que tinha tudo o que ele ainda não tinha - uma história de vida.
Pegou numa cópia e deixou-a sobre a campa do mestre.
- Obrigado. "





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Encontrei isto num caderno com textos meus (já nem me lembrava da existência de tal coisa) e achei esta espécie de coisa bastante interessante. Não só por contrariar a tendência "saramaguence" de fazer parágrafos gigantescos, mas também porque de certa forma, é um espelho da minha alma.

domingo, 17 de maio de 2009

Fogo, Corpos e Suor.

"Não sei o porquê, só sei que sim. Acho que estava escrito. Ou então rendi-me. Vi-me obrigada a tirar a máscara pesada de bronze que encobria a minha alma e dizer o que corria em mim.

Não sei se foi pelo facto de ser um jogo, ou de mera afirmação própria, mero orgulho estúpido que não se aguentou até ao fim. Mas aconteceu. Gostei, gosto.

Dei de mais, e valeu a pena voar. A noite acordou a guerra dos sentidos que travava até então. Saboreei as asas da magia e comprovei a perfeição do teu desenho. Foi dança, foi fogo que queimou o que estava à volta, foram dois corpos presos a uma chama solta que se amaram sem ninguém ver.

De manhã, temporais e bruxas. Tudo o que de negro houve reuniu-se para destruir a muralha indestrutível. Falou-se para esconder a saudade, dançou-se em pleno dia, mostrou-se o riso vazio de contentamento e, sobretudo, escondeu-se o que não se disse. Quebramos os dois. Quebramos como união, quebramos como um só. No meio do escuro, corremos para sentidos opostos da realidade dura. Mas o mundo tem uma forma quase esférica. Eventualmente as rotas traçar-se-iam de novo.

Ficaste por não souber sair. Saí, e não nos tocamos enquanto saia. Passivamente assistiu-se ao inevitável e não se contrariou a lei do relógio verde azul. Fecharam-se os olhos húmidos por se sentir a verdade. A verdade não se extinguiu, embora tenha sido o fim da cor que trazíamos.

Despi-te de tudo o que era pequeno e fui vestida com o desconhecido. Puxaste-me para perto onde ouvi histórias que mataram o bichinho do orgulho, histórias que atam almas. Ficámos. Aliás, fomos ficando.

Como crianças, brincamos com Legos e construímos uma fortaleza ilusória e permeável. Andamos em voltas rectas e limpamos o que restava. O que ainda ficou, o tempo limpou. Deixaste-me acreditar no mesmo deus. Os laços trataram de ligar pontas soltas criando linhas paralelamente desordenadas que não deixam fugir pensamentos. O novelo aumentou até criar um emaranhado tão grande que não havia maneira de fugir. Os olhos diziam aquilo que a boca não conseguia e o sorriso descomprometido de interesses confirmava qualquer teoria. Pelos vistos, há coisas que estão mesmo escritas, e em mais que uma página. Desfolhei o meu livro e vários foram os lugares onde encontrei a mesma palavra, a mesma figura. A dança repetia-se e isso tinha de significar alguma coisa.

Quando já não se pode negar, para quê combater? Seria perder tempo.

Construíram-se pontes sem serem precisas obras e edificaram-se castelos de vitórias próprias, agora comemoradas a dois. Limparam-se os riscos a mais que estragavam a pintura e adaptaram-se os lápis ao papel. Não há meu ou teu. Há nosso.

E por mais que me martirize, não descubro porque a máscara não se aguentou fixa. O embrulho não é ponto de desempate ou de relevo – embora extremamente agradável, não é o factor de decisão.

A prenda em si, é ouro. Não é o lado top ten, que sempre foi objectivo de muito pavão e avestruz e muito outros elementos do reino animal, mas o lado mole que pede por retoques. O lado que fraqueja frequentemente e anseia pelos acordes da alma que o completa. Ainda a vertente desprovida de sentido que gargalha sem razão. A vertente que permite que um olhar diga o que mil palavras não têm capacidade de dizer.

Cartas sem papel, músicas silenciosas. Tocas ilegais mas iguais que abrem uma janela para o rio que somos. O rio que nos deixa cantar o nosso fado e contar com a música background da voz que temos. Tudo favorece a nossa construção e eu não tenho intenções de abandonar a fortaleza. O poder de sentir que numa democracia há reis e rainhas eleva-nos perante o resto do mundo e deixa-nos voar no toque. Não se vai extinguir o que já existe.

Não vai acabar, vamos ser sempre paixão. Vamos ter sempre o olhar.

Nem por um segundo largo a mão do que és, da perfeição do teu desenho, do teu gesto.

“-Estas a ver o universo?”

“-Eu gosto de ti o dobro.”



in Love Inspiration http://loveynspiration.blogspot.com

segunda-feira, 9 de março de 2009

Super lotado.

Por vezes quero dormir e não consigo. Sem qualquer tipo de razão lógica aparente, parece que o meu cérebro entra num estado profundo de trabalho e não paro de pensar. Se fosse um pensar produtivo, eu não me queixava, mas o que se sucede é que este pensar não passa de uma impressão de ter mil e um bichinhos na minha cabeça, cada um a gritar uma palavra diferente, o que origina um cotovelar de ideias brutal que me arruína a juízo em pouco tempo.
Este "pensar" arromba-me o intelecto várias vezes, mais do que as que devia. Simplesmente é como se nem tivesse sono. E é uma situação que se pode prolongar por uma quase "directa". Noites em claro, ideias mil. Combinação explosiva para quem quer tentar (que se frise o tentar) ter atenção às aulas no dia seguinte.
Estas noites são péssimas para tudo. Mesmo que vá tocar piano dou por mim a pensar em coisas que nem sei o que são. Se tento escrever, é provável que comece a falar de ovelhas e acabe a divagar sobre gelatinas com olhos. Se tento não fazer nada tomo consciência da velocidade mirabulante a que o meu cérebro funciona em tais alturas e entro em desespero. Se em último recurso pego no iPod e afogo-me na música, apenas estou a fornecer combustível à máquina que está dentro de mim a processar informação a uma rapidez inimaginável. Penso no impensável e imagino o nunca antes pensado. Ideias estúpidas e pensamentos soltos que, embora inúteis, impedem-me de fazer o que quero.
O pior é saber-me teimosa e sentir que perante tal situação ridícula não posso fazer nada. E lá fico eu, estendida na cama durante oito horas (máximo de horas que durmo por noite) sem fazer nada a ter um remoinho de palavras a bombardearem-me a paz.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

O que é realmente importante.

"E de novo acredito que nada do que é realmente importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre!"



Também encontrei isto perdido nos meus ficheiros aqui no meu computador. Tenho esta mania, a de deixar pensamentos soltos apontados numa qualquer folha digital num lugar esquecido. Isto quer dizer que não faço a mínima ideia a que propósito surgiu tal amontoado de palavras, mas até tem um efeito visual e gramático interessante.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

15 Minutos.

O mundo desabou e não passaram sequer quinze minutos.
Está tudo ainda fresco, literalmente. O tempo amarelo logo de manhã, desejou-me um dia de diarreia social que tenho de suportar. Mas não há ninguém que puxe o autoclismo?
Sorrir, gargalhar, ser feliz. Todos o são. Pelo menos, a máscara é. Excepto aqueles que adopta uma postura rígida de quem é sofredor destinado a falhar.
Reina quem quer, e não quem merece. É louvada a hipocrisia ascendente deste mundo enquanto os honestos, desgrenhados mas com ideias brilhantes, cumprem pena num qualquer estabelecimento prisional deste monte de pó. O mesmo monte de pó que nos atiram para os olhos e nós sorrimos. Todo o mundo tem consciência do sistema em vigor, Todo o mundo critica o sistema em vigor, todo o mundo diz querer deitar abaixo o sistema em vigor. Todo o mundo SORRI ao sistema em vigor.
Para quê perder tempo com a honestidade se é um passe directo para a humilhação e descrença sociais?
Ambiciono agora a hipocrisia. Tenciono ser mais vígaro que o vígaro que me aldraba. Saudar cordialmente quem me ama de morte (literalmente, de morte) e desejo o dobro do que me desejarem a mim (seja isso o que for).
Sorrir, gargalhar, ser feliz. Pelo menos, a máscara será.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Castelo.

O castelo sem rei. Perto, uma fogueira que aquece aquilo que já à muito gelou. Fugir para longe de tal lugar é a escolha certa, mas magoa. Perdoar, sim. Esquecer, nunca.
É possível perder horas perto do lume, mas aquele lugar apenas te dirá o que não é verdade, e o coração não pode sentir aquilo que não existe. O comboio já passou e não há como voltar. É escusado voltar para trás da muralha e fingir que o reinado está de pé pois este partiu à muito e levou o tempo e o sentimento. Podia dizer muita coisa, mas mais de metade não seria verdade. Por isso restrinjo-me ao silêncio absolutamente mentiroso que abraça o oasis pela última vez, magoando a alma.
Resta brincar com as asas quebradas e tentar construir uma nova monarquia naquele spot. Chegará o ponto em que surge a duvida O que estou a fazer?, mas o certo é pesar a terra que ainda ficou e o sol que virá no fim desta longa noite.
Como arranjar coragem para admitir que aquela terra já não tem o valor que tinha no início? Como tomar consciência que a venda do castelo pode ser a opção correcta a tomar sabendo que se pode passar de cavalo para burro? Tudo depende do burro. E da sorte.
Arriscar.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Soldado Luminoso.

Querer dormir e ter o maldito feixe de luz a embater na face ainda adormecida, é provavelmente o pior início de fim de semana. Neste caso, um fim de semana que começa quase às duas meias dúzias de horas já com direito a cheiro de refogado do almoço. Aquele pequeno espaço na persiana permitia tal feixe encadear-me e interromper o meu sono. Debati-me mudando a minha posição na cama até encontrar uma maneira de aquela estúpida radiação solar me deixar prolongar a já comprida manhã de sábado. Tapei a cara com os lençóis mas não foi o suficiente. Mudei então de estratégia de combate e usei a almofada como armadura. Lutei contra aquele guerreiro de luz mas fui mais que mal sucedida. A luz continuava a caminhar direitinha em direcção aos meus olhos, cegando-me e tornando o meu quarto (que até então era o meu espaço de eleição) uma zona de guerra que me fazia sentir angustiada.

Por vários minutos esta situação manteve-se até que eu decidi combater a preguiça e puxar os lençóis para o fundo da cama para que o meu corpo arrefecesse e eu ganhasse coragem de me levantar. Em poucos segundos cheguei perto da janela e fechei a persiana. Ou pelo menos achei que o fiz. A maldita estava estragada e o irritante feixe de luz continuou a exibir-se gritando vitória.

- Não vais ser tu, guerreirozeco cintilante, que me vai derrotar nesta batalha onde me debato contra um adversário que nem argumentar consegue.

Não sei porque falei. No fundo, estava despenteada, de pijama e a dirigir a palavra a um mero feixe de luz que teimava em não sair dali. A irritação fluía-me no sangue e o desespero espreitava ainda um tanto ou quanto distante. Arrastei os cortinados na esperança que aquela estúpida claridade fosse tapada e me deixasse descansar mas aconteceu o oposto. Por ser de um material qualquer que mais pareciam fios de nylon entrelaçados e tingidos de rosa, a luz dissipou-se e iluminou todo o quarto em vez de só ir em direcção à minha almofada. Foi nesta altura que decidi deitar-me de novo. Voltei a por as cortinas no lugar inicial e dirigi-me para a minha cama. Os lençóis térmicos ajudaram a não sentir as diferenças de temperatura. Deitei-me de costas para o soldadinho luminoso e aguardei o regresso do sono. Esperei, esperei e voltei a esperar. Não havia meio de voltar a descansar. No meu inconsciente ribombava a angústia de não conseguir vencer um idiota feixe de luz que não só arruinara a minha manhã mas como, por arrasto, afectaria todo o meu humor ao longo daquele que seria um longo fim de semana.

Fartei-me daquela posição que me deixava frágil por estar de costas para o inimigo. Voltei-me e lá estava, o imbatível lutador reluzente. O desespero tomou conta de mim e comecei a chorar.

- Está melhor assim? Contente? Espero que gostes de me ver assim pois tudo isto é por tua causa. Ganhaste, parabéns.

Estas foram as palavras que gritei. Não havia mais nada a fazer. Aquela luzinha irritante tinha conseguido. Baixei a guarda e chorei por uma razão tão estúpida como uma persiana estragada que permitia que uns meros raios de luz entrassem no meu quarto e não me deixassem dormir.
Para muitos, uma razão idiota. Para mim, o meu orgulho posto em causa.



Uma situação tão humilhante como esta deixou-me a pensar:
Por vezes nem sempre os mais fortes e com vantagem, como eu neste caso, ganham sobre os aparentemente fracos e frágeis. Um singelo feixe luminoso consegui por-me a chorar numa questão de alguns minutos.
Pelo meu ponto de vista, nem sempre os mais fortes ganham.
Pelo ponto de vista do Soldado Luminoso, os que se julgam fortes são tão estúpidos que são derrotados apenas por o ego deles ser posto em causa.

domingo, 23 de novembro de 2008

Addiction.

As dores de cabeça estavam-me a consumir aos poucos. Estava rodeada de insectos grandes e gordos que zumbiam à minha volta. Nada nem ninguém os conseguia deter.

Decidi viciar-me. Viciar-me para esquecer. Aliás, para viver. Viciei-me ao que chamo A Minha Droga. Um escape à vida, uma fuga ao indesejável, um esconder do que não quero.
A droga, é da melhor. Não me deixa dormir, não me deixa concentrar-me, não me deixa ser livre. Invade-me o sono, perturba-me a concentração, prende-me de uma maneira mais forte do que eu alguma vez esperei. Não há risco de overdose.
Os dedos percorrem as teclas do telemóvel e digitam a mensagem que nunca é enviada. Os olhos vagueiam no horizonte à espera do impossível (ou então focam o retrato que torna belo o monstruoso). Os ouvidos, bem, esses, não se cansam da mais bela melodia.
Tudo seria fácil se a droga não viciasse como vicia. Tudo seria fácil se as palavras tivessem mais sentido e a presença fosse total.

Se estivesse por aí, nunca mais te largava vício. Se pudesse, saía do mar directa para a areia para que esta ficasse colada a mim, para que o vicio ficasse colado a mim.


Grito alto e ninguém me ouve. Acho que falo uma língua diferente. Mas sempre assim o foi, agora não muda.
Vício mais agradável... vício mais saudável.

domingo, 28 de setembro de 2008

Dedicatória

E é assim. Continuo sentada à espera que a ideia surja para a poder agarrar e prender no papel. Como que por um acto de malandrice, ela anda à minha volta mas foge. Começo a correr atrás dela pela casa até que a encontro recostada na cadeira verde de madeira que está na minha varanda. Por pura sacanagem, ela começa a falar comigo só para fazer pirraça mostrando-me que sabia o que eu queria escrever. Fi-la sentir-se confortável e lá consegui falar com ela. Começámos a divagar alto sobre os mil e um trilhos da existência. Concordámos que a vida se revela ao mundo como uma alegria. Há alegria no jogo eternamente dominado pelas suas matrizes, na música das suas vozes, na dança dos seus movimentos. A morte não pode ser verdade enquanto não desaparecer a alegria do coração do ser humano. Se me sentir cansada, sento-me a descansar à beira do caminho, mas sempre virada para a frente para ver o que me falta andar, e de costas viradas para o que já andei. Afinal, trata-se tudo de atingir a meta. Ser Homem significa escolher um objectivo dirigir-se para ele com toda a conduta, pois não ordenar a vida a um fim é sinal de grande estupidez.

A ideia ali sentada vai debitando pensamentos soltos que tento apanhar a todo o custo. Alguns mais difíceis que outros, mas todos possíveis. Até o vento me distrai, e perco-me no vago. Estar perdida implica errar. Metade dos nossos erros na vida nascem do facto de sentirmos quando devíamos pensar e pensarmos quando devíamos sentir. Orgulho-me de pensar e sentir. A vida ensinou-me a fazer as duas coisas na altura certa.

As rugas não trazem só o meu ar de mulher vivida. Trazem-me aquilo que muitos querem e poucos alcançam, experiência. Não basta existir para se ganhar experiência. É preciso viver. Aprendi que não são precisos nove meses para fazer um Homem, são precisos sessenta anos. Sessenta anos de ideias, de sonhos, de realidades. Sessenta anos de amores, desamores e desilusões. Nunca confundi amor com o delírio da posse, que acarreta os piores sofrimentos. Contrariamente à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é o contrário do amor, esse é que faz sofrer. Assim, sei reconhecer aquele que ama verdadeiramente: é aquele que não pode ser prejudicado. O amor verdadeiro começa onde não se espera nada em troca.

Sempre lutei na vida. (Ainda há pouco lutei com a maldita ideia que não queria assentar no papel.) A minha maior guerra sempre foi e sempre será a tal travada com a imbatível inteligência. O génio consiste em um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração. Talvez ainda não tenha transpirado o suficiente. Mas sei que não sou burra. Há marcadores naturais de burrice. Ninguém experimenta a profundidade de um rio com ambos os pés. Quem o faz ou tem um atraso, ou demasiada fé. Acredito que a fé possa trazer felicidade, mas há que saber equilibrar a fé e a racionalidade. Juntas garantem sucesso. O importante numa religião não é saber se Deus existe ou não, é acreditar em alguma coisa. Acreditar em alguma coisa, faz-me feliz. Se não encontrar a felicidade em mim mesma, é inútil procurá-la noutro lugar.

Esta varanda é o lugar que me faz feliz. E a minha companhia, a ideia, está determinada a resumir em poucas palavras aquilo que senti ao longo do meu percurso. “Mesmo que tenhas dez mil plantações, só podes comer uma tigela de arroz por dia; ainda que a tua casa tenha mil quartos, nem de dois metros quadrados precisas para passar a noite.”- disse ela sabiamente julgando que não compreenderia. Mas compreendi. Existem apenas duas maneiras de ver a vida. Uma é pensar que não existem milagres e a outra é que tudo é um milagre.

Viver e aprender conduz ao sucesso. Vencer não é nada, se não se teve muito trabalho; fracassar não é nada se se fez o melhor possível. Na maioria das vezes, “o melhor possível” é sinónimo de ascensão na vida. O difícil não é subir, mas, ao subir, continuarmos a ser quem somos. Muitos sobem e vencem, mas poucos continuam felizes. Não importa o simples facto de se ter sucesso, mas sim o facto de se ter sucesso e amigos. Nenhum caminho é longo demais quando um amigo nos acompanha. No entanto, nem todos sabem o que é ser-se amigo. Alguns pensam que para se ser amigo basta querê-lo, como se para se estar são bastasse desejar a saúde... É por isto que há tanta gente a queixar-se por ter caminhos demasiado longos e penosos pela frente. Sentam-se a olhar para trás e recusam ajuda para se erguerem de novo, apenas por uma questão de orgulho. Sempre foi o maior erro do ser humano, o querer parecer.

As pessoas andam envoltas numa névoa de fumo que não deixa transparecer o verdadeiro. Tornou-se moda fumar, especialmente fumar a falsidade. É por isso que há tanta lei anti-tabaco, é para as pessoas finalmente se conhecerem. Acredito que nem pais e filhos se conheçam. Nada é como antes, nem vai voltar a ser.

-Estou cansada – digo na esperança de ouvir resposta – e tu? Ideia? Estás-me a ouvir?

Também ela se cansou e foi embora. Vivo num mundo cheio de pressa. Pode ser que um dia, demasiada pressa colida e desmascare a lentidão camuflada nesta sociedade de fingimento.




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Este texto foi dedicado à Alexandra Pereira no seu livro de dedicatórias.