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sexta-feira, 21 de março de 2014

Espécie de coiso #2


"Tapo os meus olhos com uma venda imaginária para me fechar do mundo. Sento-me no chão com a t-shirt que me deste, com as flores permanentes ao peito, abraço as cartas recebidas e ponho o anel que significa tudo. Levanto-me para ir buscar os bilhetinhos que estão afixados no meu quadro de cortiça e ponho-os junto a mim, no tapete.
A minha cabeça grita alto o que sinto e eu não entendo. Ao mesmo tempo que vislumbro o quadro que pintámos sem tintas nem tela, apercebo-me da minha dependência – tu. O medo de perder a estabilidade, a aflição de não ser percebida, o pavor de acordar numa guerra à partida perdida. Um novelo de sentimentos opostos e confusos sobrepõem-se à pacificidade esperada fazendo-me sentir cansada sem ter de sair do lugar.
Amo-te não chega. O que sinto é tão grande e tão forte que poderia perder horas a tentar descrever mas não expressaria metade do sentimento. Não dei pela sua chegada e mesmo com ele aqui, não me sinto diferente. No fundo, é um pequeno soldado. Esperou quieto por saber que não tinha vantagem, e assim que reuniu um exército atacou-me usando uma técnica qualquer que me faz querer o calor dos teus lábios, o conforto dos teus olhos, a paz do teu toque. “Foi como um sopro estranho, aconteceu”.
No chão, rodeada de tanta prova material de que nada é uma ilusão, continuo a desesperar pelo teu gesto, mesmo que tenha acabado de te ver. Por alguma razão que desconheço, o (muito) tempo que passo contigo nunca parece suficiente. Quero sempre mais. Estou viciada.
Recordo o sabor da tua pele, a felicidade de ver o teu sorriso, a cara de “puto contente” que é sinal de satisfação.
A nossa história é uma página pesada, que o mundo nunca conseguirá virar.  Não há ninguém que chegue onde chegamos em conjunto. Não há ninguém como nós. Jamais separarei o teu gesto do meu. Gosto mesmo muito de ti."

Este também foi encontrado perdido nas pastas do computador. Escrito quando tinha 16 ou 17 anos. Ri-me. Como está tudo tão diferente...

quinta-feira, 20 de março de 2014

Espécie de coisa #1


"Eu tento não me perder, mas não é fácil. Outrora os meus dedos souberam exactamente o que escrever e o meu cérebro nem tinha de se esforçar para saber o que dizer. Hoje já não é assim. Os meus dedos curvam-se na esperança de te agarrar e o meu cérebro grita o teu nome. Diria que passei a ver o mundo a preto e branco, mas quem me dera ter sempre o dark bem pertinho.
Rezo para estar bem longe do mundo. As pessoas só atrapalham o que pode ser fácil. Não sei se sou ouvida ou compreendida pelo mundo. Mas também não me preocupa tal coisa. Sei que a minha voz soa boa aos ouvidos de quem realmente importa. Três meias centenas não chegam para me separar da melhor sensação do mundo. Não sei se compreendes o quão fundamental és para a minha existência. Dependo mais de ti do que algum dia pensei ser possível. As lágrimas caem involuntariamente e manter o controlo é impossível. Sem dar por ela, estou a chorar desalmadamente. Pior que um poster, a tua imagem está estampada em todo o lado e a tua voz ribomba em todos os cantos do meu inconsciente. O teu cheiro está colado a mim e a imagem das tuas mãos a envolverem-me é disparada em slides mentais.
Corro, mas não saio do lugar. Grito o mais alto que posso mas poucos são os que de facto me ouvem. Perdi-me. Perdi-me em ti e não encontro o caminho de volta. Na verdade, nem tenho forças para o procurar. Como procuro aquilo que não quero?"

Encontrei isto, perdido aqui no computador. Vindo directamente dos piores tempos que vivi. E que bom é olhar para trás e perceber que caminhei para a luz. Obrigada a ti. Por tudo. Por eu ser parte de ti.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

De volta, num novo capítulo.

         Depois de muito ponderar se deveria apagar isto ou não, de avaliar as mudanças todas por que passou a minha vida nos últimos meses e se valeria a pena manter aqui o estaminé aberto concluí que este é o único lugar onde escrevo o que quero sem censuras, sem medos, sem me mascarar.
         Assim sendo, e na esperança que isto sirva de Xanax ou coisa que o valha, volto à carga!

         Para já há um facto novo interessante: moro sozinha. Pela primeira vez na vida, aos 19 anos, estou a morar sozinha cá na cidade dos estudantes. Já passei por provações terríveis - tive duas aranhas para matar - e recentemente adoptei uma gatinha bebé.


Esta é a fera que habita comigo. Ate agora, está tudo pacífico exceptuando o facto dela achar que 06h30 é a hora ideal para começar o processo de tortura que envolve morder-me o nariz, os olhos, os dedos... Tudo o que está ao alcance dela para me tirar da cama. 

E pronto, isto é assim um apanhado geral das maiores novidades que por aqui se passam. Vamos ver se daqui em diante isto conhece escrita regular.

(Àqueles a quem nunca mais respondi de há uns meses para cá, peço desculpa. Prometo tentar normalizar a situação assim que consiga.)

Always hope for the best. The worst comes on its own.

domingo, 26 de junho de 2011

Tourada - é tradição?




Já tinha deixado clara a minha opinião sobre este tema neste post há um tempo atrás. Recentemente encontrei este vídeo que mais não é que um anúncio que foi proibido de ser passado na televisão portuguesa sabe-se lá porquê. Ainda assim acho que está genial e resume em segundos o que acho das touradas.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Avó,

         escrevo isto aqui porque acredito piamente que aí há internet. Afinal, em pleno século XXI onde é que não há internet? Pronto, está bem, há para aí um país ou outro que não tem acesso a este mundo, mas tu tens, sei disso. Não me perguntes como, mas sei. Da mesma maneira que soube que quando me despedi de ti de manhã na quinta-feira que era a última vez que o fazia. Coisas que não se explicam mas sentem-se.


      
        As tuas mãos geladas, gélidas mesmo!, a tocarem-me na cara enquanto me falavas, lembro-me disso. E de roubares moedinhas - pensavas tu que 5€ era quanto custava, aproximadamente, um café - e de mas dares para eu ir para a faculdade com o meu, chamar-lhe-emos, subsídio de alimentação garantido. É que é uma coisa muito tua, sei lá, essa fixação com o comer. Já devo ter engordado uns vinte quilos, sei lá, e tu sempre com a piada habitual perante o meu comentário em relação à minha alteração fisionómica, algo que era sempre do tipo "pois, eu e o teu avô bem notámos que hoje havia muita sombra, foste tu que passaste em frente ao sol", e dizias isto com a tua ironia seguida de uma gargalhada bem saboreada. E eu irritava-me!
        Ou então dizeres coisas como "não estudes mais, que isso faz-te mal" ou "vais ler isso tudo? não é preciso! lês só um bocadinho, metes lá umas coisinhas certas e eles dão-te pontos". Estas filosofias só tuas, coisas absolutamente deliciosas, que dão para rir quando o cansaço já é muito.
        Sabes o que ia agora? Um pratalhão daquele leite creme que só tu sabes saber. É que nunca mais vou encontrar um igual, sei disso. E os pastéis de bacalhau, e o arroz doce, e a aleteria! E os filhós! E o arroz de forno... que arroz de forno! És uma cozinheira do caraças, sabes disso, não sabes? Por isso é que me deste cabo da linha! Estava eu a trabalhar para ser a próxima Kate Moss e pronto, arruinaste-me os planos! :)

        E agora, recentemente, quando me ameaçaste ao explicarem-te que ao ser advogada, vou, muito provavelmente, ter de defender coisas que não são propriamente morais, e tu disseste algo do género "ai de ti que eu saiba que vais andar aí a mentir!"? Lembras-te? És demais. Só tu mesmo. E disseste mais coisas tolas como esta e esta. Coisas que fazem de ti a minha avó, a que conheci assim, a mulher com quem vivi todos os dias durante cinco meses.

       Sabes o que me orgulha? Saber que me viste entrar em Direito aqui em Coimbra. Saberes que consegui entrar aqui na nossa cidade, no curso que queria, com uma boa média, e gostar do que estava a estudar - pelo menos na maior parte do tempo. Gostei tanto que me pudesses ver fazer a primeira cadeira! A primeira! Lá me viste tu a dar baile em Direito Constitucional I. Feitíssima, vês? E o exame que fiz hoje também me correu muito bem, para que saibas. Mas correu bem porque estavas comigo, a torcer por mim. :)   Sei que lutaste muito para me ver fazer isto. Não me viste ter uma criança, mas eu avisei-te que isso era coisa para ainda demorar. Daqui a dez anos, sei lá! Mas vais andar por aqui, que eu sei.
       E sabes do que me lembro sempre, que tu ficas porque a minha mãe está, e ela tem o teu sangue, e eu o dela. Eu tenho o teu sangue. Sou tu. E ai da biologia que venha para aqui opinar e contrariar o que eu estou a dizer. Se digo que é assim, é e pronto.

      Isto de andar por cá oitenta anos não é pêra doce. Viste tanto, andaste tanto, aprendeste tanto... E eu não consegui ouvir metade das histórias que tinhas para contar, metade das gargalhadas, dos risos, dos ralhetes, das ordens para encher o bandulho... Mas o que ouvi e vi foi suficiente para saber que mereces descansar, mereces ter paz depois da luta e do cansaço que foi andar por cá e seres feliz.

       Gosto muito de ti. E tu sabes disso, tenho a certeza. Põe o pessoal aí desse lado na linha, mostra-lhes o "gordo" lá da televisão que tu adoravas isso. Junta aí uma maralha jeitosa e façam o serão em frente a um televisor qualquer. Divirtam-se e não esperes que eu te largue assim do pé p'rá mão. Eu falo contigo, e tu ficas encarregue de ouvir e mexer aí uns cordelinhos :)  Beijinhos Avó Idalina, já tenho saudades tuas.


P.S.-  Foi desagradável isto de vires desviar atenções do meu aniversário. Agora anda tudo triste. Não achas que bastava ter de partilhar o protagonismo com o Cristiano Ronaldo? Pronto, admito que não me custe assim tanto dividir esta época com a tua memória :)  És linda!

[1930-2011]

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

As avós e o enfardanço

          Se há coisa que eu não entendo é a necessidade que as avós (e avôs, alguns) têm em ver-nos assim com uma forma muito semelhante à de uma elefanta grávida de uma baleia. Nunca comemos o suficiente para eles, nunca. Se o meu pequeno almoço é um copo de sumo de laranja natural e uma torrada, falta lá um croassaint, um pastel de nata, um iogurte líquido, cereais e um copo de leite.
         A situação é tão grave que já chegou ao ponto de me ser entregue no quarto um prato com oito pães! Oito! Mas quem é que como oito pães num dia? Quanto mais a um lanche. E eu esforço-me por entender este fenómeno da adoração das avós pelo comer, mas não consigo encontrar uma razão lógica para tal facto. O certo é que a minha mudança de cidade e casa me está a custar largos quilos. Temo pela minha saúde. E estética.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

#2

    - Mas porquê eu, se me esforço tanto para ser uma muralha?
    - Porque consigo ver para além dos muros. Porque consigo ver-te. No fundo sei aquilo que escondes e pensas já não existir. Desatei o cordel que prendia a caixa que te empacotou a alma. E tu nem deste conta. Minto, deste. Tanto deste conta disso que te desligaste de mim. E eu tenho pena disso, assim como saudades. A verdade, e devo admitir, é que contigo não tenho medo de ser quem sou. Não tenho medo de errar, de te mostrar aquilo que de mais precioso tenho e entregar-me, por completo. E juro-te que isso nunca aconteceu antes. Nem eu entendo porque raio tinha de ser agora, logo nesta altura estúpida e absolutamente louca. Nenhum de nós quer isto agora. Tu ainda queres menos que eu. Mas eu nunca tive pressa de chegar à ultima página até porque rezo muito para que ela nem exista, para que o último capítulo nada mais seja que um deixar em aberto para o segundo volume, para a continuação do que seremos.
      - Tenho medo. E pouca paciência também. E pouco tempo. Pronto, admito que possam ser desculpas para te baralhar com palavras até entenderes que o que me demove é só o pânico da dor.
     - Todos temos medo. Eu tenho medo da morte, de aranhas, da solidão, de não ser boa o suficiente. Mas não tenho medo de ti. Nenhum mesmo. És o meu porto seguro, a âncora que me mantém fixa num lugar: a ti. Não te exigi nada que não quisesses dar. Não te chamei, não te agarrei, não disse nem fiz. Fiquei até tu queres chegar. E chegaste. Fizeste, agarraste, chamaste e disseste (pouco). E nunca me imaginei tão tolerante. É por isso que és tu. És tu que, mesmo escondido atrás do que queres ser, me entendes. Pelos gostos em comum, pelo ritmo, por seres e por eu ser. Porque no fundo, somos.
      - Sim, somos."

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

#1

        Ela pegou nos papeis todos e rasgo-os com tanta violência como o embate de um corpo com o chão depois de largado a cem metros de altura, desamparado. Aquela merda toda deixou de fazer sentido. Memórias soltas deixadas em forma de palavras escolhidas meticulosamente para que ele percebesse. Ele nunca foi bom com palavras e a Princess não queria ficar com letras presas na garganta. Ou deverei dizer caneta? Bem, seja como for, ela queria fazer-se entender. Deixar que ele lhe vasculhasse a alma através de frases escritas que haviam sido despregadas do coração. Sim, porque ao contrário dele, ela tinha-o.
        Mas, decidiu ela, há causas que se têm de dar por perdidas. Partilharam ideias, sorrisos, piadas tão estúpidas que só os dois podiam entender no meio daquela orquestra de lenços perfumados que soavam a prazer, discutiram temas sérios, temas menos sérios e coisas banais. Ligaram-se por quantos fios tinham e ela estava surpreendida com isso. A Princess nunca se havia imaginado tão tolerante e tão segura de si perto de um quase estranho. E era essa segurança que a fazia viver num turbilhão de ideias que tinham de ser presas por tinta num qualquer pedaço de folha em branco. Não que a folha tivesse de ser branca. O que conta é a mensagem, não o embrulho. É como as pessoas: o que conta é o que está por dentro, não aquilo com que se mascaram. E ele estava nu. Despido de ideias feitas. Continua assim, completamente vazio de tudo o que ela detesta, um mar de virtudes, portanto.
         O que aconteceu? Ele sabe. Eu sei que ele sabe. Mas a verdade é que aquelas jardineiras nunca mentiram. Já elas gritavam o futuro que agora é um presente difuso. Se não se conhecesse, a Princess diria que tinha fumado uma ganza num qualquer beco húmido e frio, embrulhada numa manta xadrez preta e vermelha encontrada no contentor de lixo mais próximo. Daqueles de metal, que fazem uma barulheira tremenda mesmo quando se quer ser discreto. A mesma barulheira que as palavras dele, ou ausência delas, criou na cabeça dela e ainda hoje a deixa sem entender onde se meteu. Se calhar ela quis demais. Não é boa o suficiente. Não pode pedir, ou esperar, aquilo que nunca teve. Ele avisou vezes e vezes sem conta. Até eu, eu mesma, a avisei infinitas vezes. Ainda hoje a relembro de ideias, de feridas que tem, de marcas da vida, que apesar de tudo, convenhamos, é curta. Mais curta que a dele.
          Não devias ter visto logo que ia ser assim? Eu disse-te over and over again. Primeiro foi o Luigi. Estavas à espera que as coisas mudassem? Porque não mantiveste em mente a conversa que tivemos? Eu expliquei-te que o que tu mereces, o que vales. Nem o das jardineiras, nem ele é diferente. Eu canso-me de repetir-te isso. Lembras-te daquela tarde em que nos sentámos na tua cama, recostadas na almofada e tu de caneta na mão? Usaste-me para escrever exactamente o que te ditei, que ia ser sempre assim por mais que quisesses pensar o contrário. Nem todos têm o direito a completar o puzzle, a ser completos. Mentaliza-te do que te digo. Não caias na asneira de novo...
          Mas a verdade é que a Princess já tinha quase um livro para editar. Uma quantidade de folhas bruta que agora estavam temperadas com o sal dos olhos dela. Poderia dizer "pobre ela..." mas a verdade é que ela sabia o que a esperava. Ela pegou na balança e tentou contrapor o que passaria com ele mas sem o ter, e sem ele, de forma nenhuma. Pronto, admito que estou a mentir. Ela nunca pesou isso. Não conseguiu. Queria-o. Por que raio haveria de pesar uma coisa cujo valor lhe desinteressava por completo? Lutou, caiu e vai-se levantar já amanhã.
         Arredei agora a cortina da minha janela e vejo que já se põe de pé. É. Ela é forte. E também nunca se entregou, nunca lhe deu a chave para ele ver o que ela é. Um bocado como aquelas free samples que nos dão nas perfumarias, ela deixou que ele constatasse que a essência dela era a melhor, mas nunca lhe deu o frasco para a mão. Ele, se quisesse, que o viesse buscar, pensava ela. Continuo a achar que a culpa é das jardineiras. E daquela pirosa camisola vermelha que ele enverga. Arruinaram tudo.
         Porque é que ele se veste tão mal? Porque não quer ser bonito, simples. Quer ser feio e mau. É um escudo como outro qualquer. Válido, certamente. Tão válido e eficaz como um colete à prova de bala. Uma espécie de ideia estúpida que ele criou depois de se ter metido com uma puta qualquer. Ou então ela não o era. Não sei. Nem dá para entender. O escudo é tão denso que só se vê nevoeiro dentro dele. Uma espécie de manto a proteger a semente do que é. Não gosta, não ama, não adora, não é dependente de nada. A não ser da família, que no fundo, é o alicerce dos fracos. Não por ter menos valor, claro que não! Nenhum forte se levantou sem tal pilar. Mas os fortes não se prendem só a isso, porque no fundo a família é a única coisa garantida que temos. Por mais batalhas que percamos, vai estar sempre lá. Sempre. E ele prendeu-se a isso. Para que amar se tem pais? Para quê adorar se tem primos e irmãos? Para quê? E por estarem em família, todos comem cogumelos. Dão vida, diz-se.
        Ela achava que ia passar isso, rasgar o véu, deslindar o código, encontrar a chave e tirar-lhe o cadeado do coração. Ele afinal nem o tem. Quer dizer, não o quer ter. Para ela. Não o quer ter para ela, não lho quer dar. Não quer que ela seja mais do que ela nem sequer é. É isso. Ela para ele é um nada vazio. A pequena Princess não passa de um ínfimo ponto naquilo que ele nem quer ver. Mas se o carinho que ela tem por ele fosse areia, muito mais desertos teriam de ser inventados para que ele entendesse o que lhe vai na alma. Nem é só carinho. É respeito. É admiração por aquilo que ele é, pelos valores que tem. Até aquele jeito estúpido de estar sempre a afastá-la, mesmo que não note, ela gosta. Aquelas palavras sem sentido, os vídeos estúpidos, os canos percorridos para colher estrelas, os pedaços de alma que ele deixava escapar por entre sorrisos e que ela captava como ninguém, tudo isto era o mundo dela. Um mundo tão extenso e tão rico em sensações que não só as palavras que ela lhe dizia eram suficientes para vazar o sentimento do corpo. Ela nunca disse "gosto muito de ti", por exemplo. E ela sentia-o! A sério que sim! Com as mãos geladas do frio gélido que está na rua, limpou as lágrimas muitas vezes do rosto jovem e bem tratado depois de se ter visto obrigada a cortar palavras duma mensagem qualquer a enviar. Doía ter de controlar o pensamento. Doía por a barreira na alma.
        Mas ela tem um coração tão grande que tanta palavra lhe entupia o sistema. Foi por isso que apareceram todas estas folhas que ela agora rasga cruelmente. Quase como se fossem o corpo dele. O corpo e o sonho porque o que magoa destruir é o sonho, e não a relação com ele. O coração dela está tão diminuto no meio daquelas vestes cor de rosa. Tão pequenino que creio já nem existir. E é melhor assim. Se este das jardineiras e da t-shirt vermelha não quer mandar o muro a baixo, mais ninguém vai querer. Ela sente isso. Se calhar é melhor mentalizar-se já. Assim daqui a uns vinte anos isto já nem vai custar. É tudo o hábito. Ele vai ser infeliz assim. Vai, é óbvio. Vai perder pessoas que gostam tanto dele como ela. Aliás, menos, porque o que ela sente por ele não é passível de ter cópias por esse mundo. É respeito. É carinho e bem estar. É aquela sensação de ele nem ter de dizer as palavras para ela se sentir bem. Não há silêncios incómodos entre eles. Até há espaço para o candeeiro.
      E é com a cabeça feita em água (e a cara, claro), que ela se dirige à janela que tem a vista para toda a cidade, e larga os milhares de pedacinhos de papel que resultaram daquela chacina de palavras sentidas. Os pequenos papeizinhos propagam-se no ar levados pelo vento frio que corta o rosto e beijam a cidade em todos os locais que para eles podiam, um dia, ter feito sentido.
     E o que lhe está a doer é a ideia de um dia, depois de já ter decidido cortar os fios, ele poder pensar "merda, era aquela!".

sábado, 9 de outubro de 2010

lina#2

(após a remodelação do quarto)

Avó: Agora tem de se meter um parafusinho para pendurar esta Cruz
Mãe: Não. Ficas já a saber que a tua neta não acredita em nada disso.
Avó: (extremamente ofendida) Não acredita? "Ómessa!" Mas não acredita porquê? Ele nunca fez mal a ninguém! Oh oh... Mas o que é que lhe deu agora? (dirigindo-se a mim) Agora és Jeová, é?


E esta será a única coisa que não há maneira nenhuma da minha avó aceitar: o meu ateísmo.

Lina#1

  (perante uma placa de direcção que dizia "P. de Campismo")

Avó: Praça de campismo... Oh E., onde é a Praça de Campismo?
Avô: Praça de Campismo? O que é isso?
Avó: Não sei... Estava ali numa placa a dizer isso.
Avô: Não seria Parque de Campismo?
Avó: Não sei, tinha lá um P, pensei que fosse praça. Mas então, onde é isso de Parque de Campismo?
Avô: Olha, por acaso não sei. Deve ser para ali para os lados de...
Avó: Ah, já sei. Deve ser aquilo dos cavalos!


E pronto, são estes momentos impagáveis que aliviam o stress diário.