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terça-feira, 25 de março de 2014

Lista de coisas de que gosto muito... #2


1 - Baton Diva, da Mac 

2 - Porefessional, da Benefit.

3 - Vestido Romwe, aqui.

4 - Relógio Michael Kors, aqui

5 - Paleta Face Form da Sleek

6 - Mala Zara, 49,95€.

segunda-feira, 24 de março de 2014

A co-adopção

      "Sou favorável, como é evidente, à co-adopção por casais do mesmo sexo e por isso gostava que a lei tivesse passado (...). Mas, o que eu proponho, é que da próxima vez (...) que esta matéria for a votação, organizar um auto-de-fé no Terreiro do Paço e os deputados medievais vão assistir e deixam a votação só para as pessoas que vivem mesmo no século XXI." - Ricardo Araújo Pereira, no Governo Sombra de 21 de Março de 2014.     

      O chumbo do diploma da co-adopção diz muito sobre a hipocrisia da sociedade portuguesa. Encontrei, infelizmente, muitas "pessoas" felizes com o resultado alcançado (e, para meu choque, pessoas instruídas) com argumentos tão obsoletos e descabidos que me questionei se teria recuado no tempo sem me aperceber. Passemos então a analisá-los.


  • A co-adopção é um atentado contra a família.
      Afinal, contra que família? Não entendo este argumento. Exactamente em que medida é que a felicidade de duas pessoas, que por acaso são do mesmo sexo, interfere com a minha? Não sei se sou eu que sou de compreensão limitada, mas não consigo chegar ao núcleo deste argumento.
      Falamos de tradições, que devem ser respeitadas e perpetuadas? Se assim é, regressamos ao início: quem é contra a co-adopção só pode ser obsoleto. 
      Basta recuar umas décadas para perceber que a mulher não votava, por exemplo. Era a tradição. O lugar da mulher era em casa, nas lides domésticas, iletrada e limitada nos seus direitos. Até ao dia em que Carolina Beatriz Ângelo desafiou as regras e votou (em 1911!), sendo a primeira mulher a fazê-lo no nosso país. 
       E a escravatura, também é uma tradição. Quebrá-la foi atentar contra o poder das famílias, não?
       Ou até mesmo a naturalidade com que sempre se lidou com a infelicidade masculina. Quem foram os energúmenos que atentaram contra esta tradição que reforçava a virilidade? Pois, o mundo evolui, as pessoas evoluem e os horizontes expandem-se.
       Olhar para a família como uma instituição estática é ser-se estúpido. A família é um núcleo de carinho, de cuidados, de educação e crescimento. E este núcleo constituiu-se independentemente da forma adoptada: filhos com dois pais, duas mãe, um pai e uma mãe ou apenas um destes. O amor não olha a géneros.


  • As crianças crescerão sem uma figura masculina ou feminina
      Parcialmente verdade. Contudo, isso não é precisamente o que acontece nos casos de mães e pais solteiros? Aí, à semelhança de ter dois pais ou duas mães, as crianças são criadas num ambiente onde apenas têm figura paternal ou maternal. 
      Neste ponto, ter dois pais ou duas mães será, certamente, melhor que ter só um deles. Há um completmento: a criança tem dois adultos que, sendo diferentes (que somos todos diferentes), irão fazer o mesmo que um pai e uma mãe - mostrar maneiras diferentes de lidar com o mesmo problema. 
      Ainda convém relembrar que na co-adopção não se constituem, realmente, famílias novas - elas já existem, apenas carecem de reconhecimento jurídico dos seus direitos e deveres. É uma hipocrisia profunda achar que o chumbo do diploma fará desaparecer esta realidade. Isto é o que eu chamo de tapar o sol com a peneira.


  • As crianças co-adoptadas incorrerão numa maior probabilidade de se tornarem homossexuais
        Este argumento é tão estúpido que me custa crer que alguém acredite nele. 
        Afinal, os homossexuais não são fruto e (quase na sua totalidade) educados em ambientes heterossexuais? Como se explica então que uma criança educada por um pai e uma mãe, sem amigos gays nem "incitamento" algum para "escolher" ser gay, o seja? 
        A sexualidade não se escolhe. Eu não escolhi ser heterossexual - sou-o porque os homens me atraem ao contrário das mulheres. É um factor que eu não controlo, em momento algum decidi gostar de homens. Nasci assim. Para os homossexuais vale precisamente o mesmo.
       É preciso desmontar o preconceito de que a homossexualidade é uma opção, uma escolha que se pode impingir aos outros. 
       Existem hoje uma infinidade de adultos heterossexuais que foram crianças educadas por um casal gay. Repito-me: estas famílias existem, e não é uma "coisa recente". Sempre existiram, sempre existirão. 


  • Os homossexuais não possuem estabilidade nem maturidade (psicológica ou emocional) para educar uma criança
        Outro argumento que eu tenho muita dificuldade em entender. Em que medida é que a sexualidade se reflecte na maturidade de um adulto? Se se reflecte, então esta questão é extensível a qualquer casal, gay ou não. 
        Mais uma vez: este ponto poderá ser discutível no caso da adopção - e é-lo para qualquer casal, independentemente da sua orientação sexual. 


  • As crianças criadas por homossexuais sofrerão de bullying 
       O primeiro argumento com que concordo. Não por funcionar como razão para não defender a co-adopção mas porque é um facto. Mas não sofremos quase todos de bullying? Sim, pelas mais variadas razões: somos magros, gordos, nerds, burros, totós, pobres, caixa de óculos, ... 
        O problema do bullying é, muito mais do que das crianças, dos pais destas. 
        Não me lembro de ter descriminado alguém com base em qualquer um desses factores. Tive amigos de todas as formas e feitios e de todas as classes sociais. Isto foi o que aprendi em casa: que todos temos valor independentemente de onde vimos e de como nos apresentamos. Somos todos iguais e merecemos precisamente o mesmo respeito. 
         Contudo, fui chateada (até impedir que tal continuasse) por ser gorda. Logo, a mesma geração, na mesma escola, tinha valores diferentes, vindos de casa. 
        As crianças, enquanto não atingem a fase em que passam a pensar pela sua própria cabeça, são o espelho dos valores que aprendem em casa. Se os pais são homofóbicos e retrógrados parece-me óbvio que vão agir dessa forma para junto dos seus pares. 
        A questão do bullying resolve-se com os adultos. Enquanto estes forem quem propaga os valores mais que ultrapassados para as crianças (que são barro por moldar), nada mudará. 
         O progresso não deve ser posto em pausa só porque há quem não se consiga adaptar à evolução.


  • Permitir a co-adopção é incentivar a homossexualidade
        Isto é tão descabido que também me custa crer que alguém ainda apoie a tese de que a orientação sexual se escolha ou se pegue a outros.
        A co-adopção é um instituto que permitirá que as famílias (que já existem!) vejam os seus direitos e respectivos deveres reconhecidos. Ninguém está a criar nada, a abrir janela nenhuma - a realidade é que já existem imensas famílias com pais gays em Portugal. 
        Afinal, o que está em causa na co-adopção? Permitir que ambos os pais da criança sejam reconhecidos por lei. Só isso. 
        Imagine-se o caso de duas mãe que criam uma criança. Esta reconhece-as como tal assim como os restantes parentes. Se a mãe não reconhecida legalmente falecer, a criança perde todo o vínculo a esse lado da família - e tem o direito a poder mantê-lo uma vez que também aquelas pessoas também fazem parte daquilo a que ela chama de família.
        Se for a mãe legalmente reconhecida a falecer, o que acontece é que, aos olhos da lei, aquela criança é órfã e cairá, certamente, na rede de orfanatos e abrigos para crianças portugueses que, enfim, já se sabe que não é propriamente o melhor sistema (aí sim, há ausência de figura maternal e paternal).


  • É melhor ter um pai e uma mãe do que dois pais ou duas mães
        Tenho dúvidas que uma coisa seja melhor que a outra. São diferentes, é certo. Quanto a ser melhor, não sei. Acho que o melhor é mesmo ter-se alguém que cuide dos filhos com todo o amor que estes precisam. 
        O melhor é ter pais. Seja um, dois e, dentro desta última hipótese, heterossexuais ou não. 
        É mais um daqueles argumentos que nada tem a ver com a co-adopção: as famílias abrangidas por este diploma não se esfumam só porque ele foi chumbado. Continuarão a criar os seus filhos.


        Ainda li muito por aí que quem é contra a co-adopção fica melindrado porque diz ser alvo de faltas de respeito quando expressa a sua opinião. É mais ou menos o mesmo que apoiar a ditadura, a escravatura ou excisão feminina e pedir para ser respeitado (por se tratarem de ideologias, de tradições, ...).

       É muito difícil ouvir alguém atacar direitos basilares de uma sociedade evoluída e ficar "quieto e calado". 
      
      Os direitos humanos não podem ser uma coisa de moda. Não podem ficar numa gaveta até que a hipocrisia seja vencida. É preciso agir, avançar, respeitar a Constituição e não violar o direito que uma criança tem a uma família que a faça feliz, seja ela em que moldes for.

sábado, 22 de março de 2014

Espécie de coiso #3


E este é o ultimo espécie de coiso. Os textos não são bons mas eu já me ri imenso a relê-los. Não me lembro de escrevê-los.
 Porque quero limpar o meu computador e não quero que estas coisas se esfumem, publico-as para que fiquem arquivadas ciberneticamente.

"Via-te com frequência lá no supermercado. Sempre que podia, cirandava pelas caixas todas até ver a tua vazia para ser atendida por ti.
O teu cabelo loiro, se a memoria não me trai, sempre arranjado naquela curtinha crista que te dava uma pinta descomunal e os olhos claros tinham sido factores determinantes para que em segundos fixasse a tua imagem. Foi-me impossível ficar indiferente ao teu físico, ao corpo alto, bem constituído e às tuas mãos, tal como eu sonho vê-las em qualquer espécie masculino, com os dedos bem desenhados e os ossos marcados na pele.
Também havia qualquer coisa no teu rosto que se colou na minha cabeça. Não sei se a expressão incrivelmente masculina se um ar doce que tinhas sempre que me dizias “bom dia” e “são (inserir o valor das compras que efectuara) euros, por favor”.
É uma coisa estúpida, mas sempre achei que mais dia menos dia, ia, de uma vez por todas, ter a coragem de escrever o meu numero de telemóvel num talão qualquer e dar-to. Uma cena bem à miudinha, um gesto infantil e que seria o passaporte para que talvez nunca mais me atendesses, sei lá. Mas eu achava que só podias ser boa pessoa, um gajo porreiro com quem se poderia beber um café. Ou trinta.
E durante meses voltei sempre à tua caixa. Sempre com esperança que decorasses a minha cara, a minha voz. Imagina tu que eu pensei que até poderias por conversa por causa de uma música qualquer que eu ouvisse ou porque, de certeza, já tinhas notado que eu passava a vida a fazer compras.
Tinhas namorada. Disso eu nunca tive dúvidas. Uma figura como a tua não passava despercebida pelo que alguém mais corajoso que eu já se tinha feito ao bife. E isso não era impedimento de coisa nenhuma. Era assim uma coisa inocente, percebes? Tinhas uma boa vibe, tinhas o ar descontraído que eu gosto que me rodeie. E claro, eras giro que dói.
Quinta-feira soube que tinha havido um acidente terrível em Tomar. Que havia um ferido grave. O carro estava um caco e eu pensei imediatamente que ninguém sairia dali com vida. Á meia noite soube que o G., o gajo giro que trabalhava no supermercado tinha morrido nesse acidente, sendo ele o condutor e único passageiro do automóvel.
Fiquei gelada durante horas. Como é possível? Como é que foste embora sem nunca trocarmos o número, sem nunca termos bebido café, sem eu sequer saber o teu nome até saber da triste notícia?
                                                                                                                 
E bem G., onde quer que tu andes, agora já sabes, daqui a muitas dezenas de anos, espero eu, havemos de nos encontrar e beber o tal café. Descansa em paz."

sexta-feira, 21 de março de 2014

Espécie de coiso #2


"Tapo os meus olhos com uma venda imaginária para me fechar do mundo. Sento-me no chão com a t-shirt que me deste, com as flores permanentes ao peito, abraço as cartas recebidas e ponho o anel que significa tudo. Levanto-me para ir buscar os bilhetinhos que estão afixados no meu quadro de cortiça e ponho-os junto a mim, no tapete.
A minha cabeça grita alto o que sinto e eu não entendo. Ao mesmo tempo que vislumbro o quadro que pintámos sem tintas nem tela, apercebo-me da minha dependência – tu. O medo de perder a estabilidade, a aflição de não ser percebida, o pavor de acordar numa guerra à partida perdida. Um novelo de sentimentos opostos e confusos sobrepõem-se à pacificidade esperada fazendo-me sentir cansada sem ter de sair do lugar.
Amo-te não chega. O que sinto é tão grande e tão forte que poderia perder horas a tentar descrever mas não expressaria metade do sentimento. Não dei pela sua chegada e mesmo com ele aqui, não me sinto diferente. No fundo, é um pequeno soldado. Esperou quieto por saber que não tinha vantagem, e assim que reuniu um exército atacou-me usando uma técnica qualquer que me faz querer o calor dos teus lábios, o conforto dos teus olhos, a paz do teu toque. “Foi como um sopro estranho, aconteceu”.
No chão, rodeada de tanta prova material de que nada é uma ilusão, continuo a desesperar pelo teu gesto, mesmo que tenha acabado de te ver. Por alguma razão que desconheço, o (muito) tempo que passo contigo nunca parece suficiente. Quero sempre mais. Estou viciada.
Recordo o sabor da tua pele, a felicidade de ver o teu sorriso, a cara de “puto contente” que é sinal de satisfação.
A nossa história é uma página pesada, que o mundo nunca conseguirá virar.  Não há ninguém que chegue onde chegamos em conjunto. Não há ninguém como nós. Jamais separarei o teu gesto do meu. Gosto mesmo muito de ti."

Este também foi encontrado perdido nas pastas do computador. Escrito quando tinha 16 ou 17 anos. Ri-me. Como está tudo tão diferente...

quinta-feira, 20 de março de 2014

Espécie de coisa #1


"Eu tento não me perder, mas não é fácil. Outrora os meus dedos souberam exactamente o que escrever e o meu cérebro nem tinha de se esforçar para saber o que dizer. Hoje já não é assim. Os meus dedos curvam-se na esperança de te agarrar e o meu cérebro grita o teu nome. Diria que passei a ver o mundo a preto e branco, mas quem me dera ter sempre o dark bem pertinho.
Rezo para estar bem longe do mundo. As pessoas só atrapalham o que pode ser fácil. Não sei se sou ouvida ou compreendida pelo mundo. Mas também não me preocupa tal coisa. Sei que a minha voz soa boa aos ouvidos de quem realmente importa. Três meias centenas não chegam para me separar da melhor sensação do mundo. Não sei se compreendes o quão fundamental és para a minha existência. Dependo mais de ti do que algum dia pensei ser possível. As lágrimas caem involuntariamente e manter o controlo é impossível. Sem dar por ela, estou a chorar desalmadamente. Pior que um poster, a tua imagem está estampada em todo o lado e a tua voz ribomba em todos os cantos do meu inconsciente. O teu cheiro está colado a mim e a imagem das tuas mãos a envolverem-me é disparada em slides mentais.
Corro, mas não saio do lugar. Grito o mais alto que posso mas poucos são os que de facto me ouvem. Perdi-me. Perdi-me em ti e não encontro o caminho de volta. Na verdade, nem tenho forças para o procurar. Como procuro aquilo que não quero?"

Encontrei isto, perdido aqui no computador. Vindo directamente dos piores tempos que vivi. E que bom é olhar para trás e perceber que caminhei para a luz. Obrigada a ti. Por tudo. Por eu ser parte de ti.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Não sei sobre o que escrever

    Parece que entrei num processo de estupidificação e não tenho ideias nem a destreza com as palavra que outrora tive. E isto é frustrante porque a vontade de prender às palavras ideias aleatórias não desapareceu nem minorou. Está cá sempre a borbulhar, a gritar-me que devia estar a puxar mais por mim. Mas espremo-me e não consigo. Nenhuma ideia é boa o suficiente, nenhum texto tem a qualidade que acho razoável (o que se aplica a todos os ja publicados desde a "reabertura"). 
     Por esta razão, pais, ofereçam-me isto, fáchabôr.

     Tenho lido que escrever é como qualquer outro desporto que, se deixamos de praticar, perdemos o jeito. E foram praticamente dois anos sem escrever por amor, por me sentir perdidamente apaixonada pelo que fazia. Pelo contrário, a escrita serviu como um processo para exorcizar coisas que não interessam guardar.
     Assim sendo, estou mortinha por comprar um destes dois (e por comprar deve entender-se que me ofereçam):


    Já o vi à venda na fnac. Por isso, almas caridosas deste mundo, é dar-me aqui uma prendida que eu sou boa pessoa e mereço.



     Nunca vi à venda em Portugal. Contudo, mãe, podes mandar vir da net daqui.
     E pronto, é só isto.
     Beijinhos para o mundo, que eu hoje estou bem disposta.



terça-feira, 11 de março de 2014

Rejuvenescimento no autocarro


      Muita coisa mudou na minha vida nos últimos anos. Mas uma manteve-se imutável: andar de autocarro. E tal continua a ser sempre uma experiência peculiar. 
      De todos os motivos que me podiam deixar perplexa, o que mais se destaca é o fenómeno de rejuvenescimento que se verifica nas senhoras velhotas.
      Até ao momento em que pōem o primeiro pé no primeiro degrau do autocarro, apresentam um andar afectado pela idade, um descerramento que também já acusa algumas falhas. Assim que a sola do pé entra em contacto com o meio de transporte visado, dá-se um milagre qualquer e é assistir a uma espécie de jogos olímpicos dos transportes públicos. 
      As velhotas empurram-se, lançam olhares de recriminação a quem está sentado e debatem-se pelos lugares sentados vagos - mesmo que estes sejam em número manifestamente superior ao de pessoas no autocarro. É que estas senhoras só querem lugar perto das portas de saída ou das campainhas que permitem avisar o condutor que terá de parar na próxima paragem.
      Quando se sentam, as senhoras velhotas regressam ao modo conversas-sobre-o-tempo ou conversas-sobre-o-estado-do-país, sempre em lógicas dúbias, comentários pouco iluminados, quase estereotipados. Este estado dura até ao momento em que desejam abandonar o transporte. Aqui, voltam a ser eloquentes para que se defina quem sai primeiro, ganham destreza física para passar por cima de quem impedir a sua passagem rápida até à porta uma vez que é entendimento geral daquela faixa etária que as portas estão apenas cinco segundos abertas e que caso não saiam dentro desse espaço temporal, ficaram aprisionadas até ao fim da linha.
       
       Quatro anos depois, ainda não me habituei a andar de autocarro.

terça-feira, 4 de março de 2014

Eu e os outros

     Tenho, hoje, dificuldades em fazer amigos. Já nem falo em amigos mesmo (que esses já os tenho há muitos anos) mas de pessoas com quem possa conversar, passar tardes em cafés, passear, seja o que for. 
     Seria de esperar que esse grupo de amigos se formasse com alguma facilidade na faculdade. Tal, por variadíssimos motivos, acabou por não me acontecer e eu, mais tarde, percebi que não me identifico com a grande maioria dos meus colegas. Claro que não se trata de um "problema" deles mas provavelmente meu, que hei-de, parece-me, procurar o raro ou impossível de encontrar. 
    A esta aparente incapacidade de me identificar com a maioria dos "outros" acresce o facto de dar imenso valor às palavras, aos gestos. Quando olho para o lado, há uma hipocrisia generalizada - há quem se deteste mas se sorria porque parece bem, há quem critique de forma pouco amigável os ditos "amigos". E toda a gente sabe que quem faz isto aos outros, fará o mesmo a nós. 
     Até aqui, se eu já tinha pouca vontade de me "moldar" para me encaixar em massas, passo a ter nenhuma uma vez que o risco me parece superior ao benefício. 

     Mas, ocasionalmente, sou obrigada a sair da minha bolha de conforto por me identificar de forma nada forçada com algumas pessoas. E assim que percebo disso entro em pânico. É inevitável. 
     Lembro-me sempre d' O Pincipezinho e da seguinte citação: "Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé", isto é, "tu tornas-te eternamente responsável por aquilo que cativas". É exactamente isto que eu penso. 
      A partir do momento que, por alguma razão que desconheço, alguém fica cativado por mim (?) eu sou responsável por tratar aquela pessoa precisamente da mesma forma que quero que me trate a mim. E eu não sei lidar com este género de expectativas. Racionalmente sei que, um dia, ou eu ou o outro vai falhar. E vão surgir chatices que, caso os caminhos não se tivessem sobreposto a dada altura, nunca nasceriam. 
       Ainda há o tempo que tem de se dar ao outro, há dois ouvidos que têm de estar disponíveis e um cérebro que não pode estupidificar e matar uma relação, seja ela de que natureza for, de tédio. E eu também tenho algumas dificuldades em lidar com estas exigências, não porque não goste de conversar (pelo contrário) mas porque criar laços gera uma espécie de contrato de dói sempre que se quebra. E sinto sempre que é tão fácil de quebrar.
   
       Acho que é por isto que ainda hoje muitas das minhas pessoas preferidas, que conheci em variados momentos da minha vida, nunca imaginarão que o são ou foram.