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terça-feira, 6 de setembro de 2016

Demon's Blood - Spiral of Deception


Há sete semanas recebi este livro e a vontade de lê-lo surgiu por uma miríade de razões. Nenhuma delas era o gosto particular por histórias sobre o fantástico. Li-o, então, a contar passar um bom bocado e depois arrumá-lo e não pensar mais nele. Estava enganada.

Demon’s Blood começa por nos apresentar a realidade que as personagens principais, até então, conhecem para que, mais tarde, compreendamos as suas motivações, as suas dúvidas e os seus medos. Tudo parece uma história sobre jovens adultos iguais aos demais até que, de uma página para a outra, o mundo que eles conhecem (e que nos foi dado a conhecer) muda radicalmente e se torna manifestamente mais interessante.

Demon’s Blood destruiu os preconceitos que eu tinha sobre livros cujas personagens centrais são anjos e demónios.
As criaturas sobre as quais a história versa eram, tanto quanto eu sabia, seres facilmente distinguíveis por serem exclusivamente bons ou maus. O livro vem mostrar-me ter estado enganada e consegue a proeza de reconstruir a ideia pré-feita que se tem destas entidades. Sem que o leitor se aperceba, começa a pensar em todas as criaturas como pessoas, tão normais quanto possível. Ninguém é só preto ou só branco e Demon’s Blood é um mundo onde dominam os cinzentos.
As personagens e a sua evolução face aos mais diversos acontecimentos são o coração desta história de enganos e manipulações, de bem feito por mal e de mal feito por bem. Noto, ainda, como cada tropeção das personagens é revelado cautelosamente, nunca totalmente exposto para que o leitor tenha, até à última página, dúvidas por esclarecer que o fazem querer virar a página tão rápido quanto consegue.
Capítulo após capítulo, é-nos dado a conhecer mais mundo e tal reforça a ligação que se sente a todos os intervenientes da história, tão reais, tão cheios de coisas mundanas que vivem em nós e nos que nos rodeiam.

Friso também a multiplicidade de personagens principais como um ponto extremamente positivo e que torna a leitura muito dinâmica. A história tem ritmo do primeiro capítulo ao último, sendo notória a vontade do autor em manter estes relativamente curtos, intercalando os mais diversos núcleos da história, contando-a, em momentos, por mais que um ponto de vista.
O livro está organizado de forma a nunca se tornar aborrecido e ser possível interromper a leitura sem que tal comporte o risco de o leitor perder o fio à meada.

Se há aspectos menos positivos, para mim, a apontar são as descrições de duas grandes batalhas. Estas tornam-se um tanto repetitivas: assim que é eliminada uma criatura, a batalha com as demais é sempre semelhante e isso, para alguém cuja preferência literária, até então, não conhecia anjos e demónios, é o ponto menos interessante do livro.
Contudo, reconheço que tais capítulos serão um deleite para quem é um apaixonado pelo mundo do fantástico e pode, assim, acompanhar as capacidades sobrenaturais dos guerreiros que se gladiam de forma espetacular.

Demon’s Blood – Spiral of Deception termina precisamente como deve acabar um primeiro livro de uma série de dois, mas de forma a deixar em nervos alguém impaciente como eu: a história conhece o seu fim com o cenário construído para que o leitor queira devorar o segundo volume que ainda não está publicado.


Mais informações sobre o livro e sobre o autor aqui.


terça-feira, 3 de maio de 2016

Há hereges a querer acabar com a garraiada, uma tradição.

       A prova de que esta geração está perdida é ver estudantes defender que se deve acabar com a garraiada no âmbito das festas académicas da Universidade de Coimbra, uma tradição secular.
       É sabido que a tradição é um argumento que cabe nas mais variadas discussões. Se os nossos bisavós faziam, se é um costume que foi passando de geração em geração, é para manter, independentemente do que seja. Ora vejamos exemplos:
       - "Tourada é tradição, quem não quer ver, não vá";
     - "Excisão é tradição, ninguém é obrigado a ver, mas deixem-nos mutilar pipis à vontade porque já o nosso trisavô o fazia.";
     - "Ter escravos é tradição, há séculos que se faz isso. Quem não concorda, que não compre um escravo.";
       - "Queimar pessoas em público é tradição e uma punição justa para quem acha que pode pensar o que bem lhe apetecer, escrever coisas parvas ou tiver ar de bruxa. Quem não concorda, que não assista."

        Enfim, poderia enumerar mais situações, mas acho que ficou claro que é fundamental preservar o património imaterial da humanidade, guardar os hábitos de sempre, para que sejam para sempre. 

         Quanto à tradição em questão, chega a ser criminoso haver imbecis que se opõem a um costume que diverte famílias, do avô ao bebé. Um momento lúdico e prazeroso para todos os envolvidos. 
          Como é que é possível alguém não perceber a magia de enfiar dezenas de pessoas, por vezes centenas!, numa arena a assistir a outros sujeitos que manuseiam um ser vivo que não compreende o que faz ali, porque é empurrado e espicaçado? 
          Qualquer toureiro dirá que o touro não sente aquelas farpas de 10 ou 15 centímetros no lombo. E se eles dizem, é porque é verdade. Depois, se acabarmos com as touradas, os touros extinguem-se, é obvio! E as crianças? Como as vamos ensinar a sentir compaixão pelo próximo se não lhes podermos mostrar aquela imagem do nariz e boca do touro a escorrer sangue? Sabiam que o sangue é vermelho e isso é a cor do amor? 

          Se não gostas de garraiadas, não vás. Ainda por cima agora já nem é completa, já só inclui pontapeanços, empurrões e tratamento demasiado delicado para um amante desta arte. Por isso, não nos tirem o pouco a que temos direito. Portugal não quer licenciados que não tenham passado pelo crivo da masculinidade e tenham agarrado um bezerro à homem, que tenham dominado esse animal feroz, que é um bezerro que não sabe porque está a ser atacado.
    

segunda-feira, 4 de abril de 2016

A mensagem que eu nunca recebi

          Maria Eduarda, 
        Estás a acabar o secundário e vais ter de fazer uma escolha relativamente importante. Digo relativamente porque, em abono da verdade, não é tão absolutamente determinante como te querem fazer acreditar e só é definitiva se assim o entenderes. Vê o curso universitário como uma porta que vais abrir para outro universo de oportunidades e não como um processo para te conformar aos padrões da sociedade. Nunca te conformes.
          Vais escolher Direito. Os teus professores vão avisar-te que teres feito o secundário na área de ciências vai fazer-te entrar em desvantagem e que o curso é difícil. E tu vais desvalorizar isso porque os teus sonhos são do tamanho da tua ingenuidade. E assim que chegue a primeira época de exames vais dar razão a todas os conselhos. Vais achar que não és capaz, que os outros são melhores que tu (e os outros não são sempre melhor que nós em tudo?), vais ser tonta ao ponto de achar que é preciso um dom qualquer que tu não tens. Vais chorar de frustração, vais desistir de imensos exames, vais achar-te tão pequenina que desaparecer irá parecer a tarefa mais fácil do mundo.
           Será quando a pequenez te parecer gigante que vais cair em ti: vais entender que só podes desistir quando o teu máximo não for suficiente. Enquanto não fizeres tudo o que estiver ao teu alcance para atingir uma meta, nunca saberás do que és capaz.

         Vais aprender que as pessoas vêm e vão. E isso é natural. Deixa que assim seja. Deverás guardar o bom de todos aqueles que se atravessarem no teu caminho - mesmo que, à primeira vista, te pareça que não há nada a aprender, observa com atenção e retira a lição devida. Se não pudeste tirar nada de bom, aprendeste o que é o mal.
         Eventualmente vais precisar de ajuda de alguém que vai transformar as tuas angústias em ferramentas para lidar com a vida. Vais aprender que os males da cabeça são tão ou mais nocivos do que aqueles que são palpáveis. 

            Muitas serão as noites em claro. Matérias que não te interessam, livros que nunca vais conseguir ler, exames a que vais ter notas muito inferiores ao esperado, orais que te vão deixar fisicamente doente e cansaço tal que vais dar por ti a tentares desmaquilhar-te quando, na verdade, não tens máscara esborratada - são olheiras. 
             E vais ter sempre a vontade de desistir. De largar tudo, de procurar um caminho mais fácil, mais rápido e onde não haja mais do que a promessa de um estágio de quase dois anos. Não remunerado. 
             Não desistas. Mesmo quando, por frustração, te parecer o caminho indicado, não desistas. Grita o que tens de gritar, chora o que tens de chorar. Mas continua. Sempre. Os obstáculos estão lá para testar a tua paixão e perseverança. 

      Chegarás ao mestrado para perceberes que, afinal, as coisas fazem sentido. Encontrarás amigos (mesmo amigos), apaixonar-te-ás por um novo modo de vida (vais ser vegana, vê só!, e vais inscrever-te numa meia maratona), terás notas superiores às que tinhas na licenciatura, enfim, vais perceber que o esforço compensa.
         Vais ainda tirar o teu primeiro curso de escrita criativa com o Borges. Compreenderás, por fim, que a tua paixão de sempre (as palavras ditas e escritas) pode coadunar-se com o teu lado racional que te levou a um caminho jurídico. Que ninguém te deixe acreditar que tens de ser só uma coisa. 

            Escrevo-te hoje, no último semestre da parte escolar do mestrado, para te dizer que a única pessoa capaz de te boicotar és tu. Não deixes que isso aconteça. 
         Nunca terás certezas nem um plano de vida definido. A cabeça estará sempre perdida entre Neptuno e Plutão mas o coração nunca sairá do lugar certo. Segue-o. Nos momentos em que as saídas te parecerem todas trancadas, ouve-te e não deixes que empurrem a tua vida. És capaz do que quiseres, caso venças a tua preguiça, que é expressão do medo. 
         Vais ser capaz, vais ter amigos, vais ter sucesso, vais ser melhor do que és. 

         Tem calma. Tudo acaba bem. Deixa o amanhã para amanhã e goza o hoje porque se acaba rápido.
          Vai tudo correr bem.

Je suis Charlie. Menos em Angola.

        Vários partidos políticos portugueses subscreveram o movimento "Je suis Charlie", porque é essencial ter liberdade de expressão. Menos em Angola. Aí é preciso ter cuidado com esses meliantes que andam de livro empunhado prontos a ler a qualquer momento. Em Angola, para a maioria dos deputados, pode haver presos políticos porque é importante "manter relações diplomáticas".

        E é o parlamento que temos: aquele que prioriza interesses económicos em detrimento de direitos humanos.

segunda-feira, 28 de março de 2016

O mundo para alguém que tem ansiedade

        Tenho consciência do meu problema de ansiedade há cinco ou seis anos. Se há fases em que não me tenho um quotidiano em tanto igual ao que considero normal, há outras em que o peso do mundo me esmaga e me impede de ter vontade de tirar a cabeça da almofada.

           A ansiedade desregula por completo os ciclos do sono
       Em regra, o despertador toca às oito da manhã porque há apontamentos para organizar ou aulas para assistir. O normal é ser eu a desligá-lo três ou quatro minutos antes uma vez que ter passado a noite a meditar sobre possíveis e infinitos cenários catastróficos futuros impediu-me de dormir. 
          A ansiedade anda sempre de mão dada com um sentimento de impotência face a tudo, especialmente face àquilo que se passa na nossa cabeça (e só nela). Eu quero viver no hoje, quero conseguir fazer planos sem me boicotar por equacionar logo tudo o que pode - e, segundo a minha crença toldada pelo medo, vai - correr mal. Mas, genuinamente, sou incapaz. E essa impotência escala à noite, na cama, quando estou só eu e os meus pensamentos.
          Tenho comprimidos para dormir, que evito tomar mais do que três ou quatro por mês, e só em épocas de exames ou de mais stress. Esses comprimidos já me deixaram num sono profundo por quase quatrorze horas. Estou de tal forma acelerada que esta noite tomei um às duas da manhã (depois de dias e dias de noites mal dormidas) e, ainda assim, acordei às oito, já com a cabeça na tese que tenho de escrever, no futuro que tenho de decidir, no trabalho que tenho de entregar, nos apontamentos que continuam por organizar.

         A ansiedade interfere com a percepção que o corpo tem de fome
         Em Janeiro, sem que me tenha apercebido, a minha roupa estava toda larga. Coisas que comprei tamanhos abaixo do que vestia na altura para me obrigar a emagrecer estavam, agora, largas. Estava a estudar desde inícios de Dezembro de forma intensiva (com a pausa abençoada do trabalho que arranjei) e, de forma totalmente inconsciente, perdi a fome. 
        Estive quase dois meses a viver só com pequeno almoço e almoço (que é sempre saudável, que ser vegan não me dá muita margem para disparates). Jantar era sopa, quando era. E o dia era passado com chá e café. E nunca tive consciência do que estava a não fazer. Ora, se não tinha fome, não comia. Na fase mais complicada, só a ideia de comer já me deixava enjoada. E, se racionalmente, eu sabia que era um disparate absoluto não me alimentar porque precisava de energia para estudar, o meu corpo não conseguia digerir comida.
         
         A ansiedade convenceu-me que tenho preferência por estar em casa sozinha
         É verdade que, efectivamente, gosto de estar em casa porque gosto de ler, escrever, ver filmes e séries e ouvir música. Mas ser uma pessoa extremamente ansiosa faz-me ter medo de tudo, sobretudo de pessoas. E é patético, não é concebível que o mundo ande a consminar para enviar os pequenos demónios para o meu caminho. Mas e explicar isso ao meu cérebro?
         Tudo é um problema: sair de é um problema, fazer amigos é um problema - e aqui tenho de agradecer à vida ter-me deixado manter aqueles que importam -, ir a jantares é um problema, conversar é um problema. E eu adoro conversar, sou apaixonada pela discussão de ideias. Todavia, mais uma vez, o meu inconsciente é engolido pela possibilidade de fazer figura de parva e opto sempre por existir tão pouco quanto possível. 
           Na verdade, não consigo descortinar se gosto verdadeiramente de estar sozinha ou se é o medo dos outros que me faz estar convencida disso. É que se não é mentira que gosto de estar comigo, também não o é o facto do me, myself and I às vezes ser profundamente solitário.
           Passo a vida a ouvir "tens de sair", "faz a mala e viaja", "deixa de ser bicho do mato". E eu quero sair! O que as pessoas não entendem é que está completamente fora do meu controlo sentir-me assim. Há muitos dias em que, ao acordar, me comprometo a cumprir as metas que tracei para o dia. Mas há tantos outros em que não tenho dizer sobre as ideias que vão controlar-me até regressar à cama. E a pressão de me confrontarem com o meu "bicho matismo" não ajuda em nada, pelo contrário: deixa-me ainda mais ansiosa porque sou confrontada com o que posso estar a perder por estar entretida a pensar em tudo o que pode correr mal na minha vida.

         A ansiedade fecha a porta ao amor
        "Então e namorado?" é uma pergunta que a sociedade acha normal fazer a alguém com 24 anos. Porém, não só não o é (porque cada um sabe de si e não há nenhum calendário para cumprir), como para mim a pergunta tem ainda a dimensão do "se eu nem sequer tenho vontade de sair de casa, como raio se arranjam namorados?". 
          Não tenho paciência, não quero, não me apetece lidar com problemas - é isso que me repito, quando o que está subjacente a essas ideias é "eu até queria mimo, mas já sei que vou ser enganada, que ninguém vai gostar de mim como eu vou gostar da outra pessoa, ninguém me vai compreender".  
          E não me fico pelo simples facto de evitar conhecer pessoas. Se, por alguma eventualidade, conheço alguma e até engraço com ela, o próximo passo é cortar relações precisamente para evitar apegar-me e sofrer. Mais uma vez, a ansiedade obriga-me a ver tudo à luz da desgraça e não me dá hipótese de saborear as coisas boas sem ter como música de fundo a gravação "isto vai dar merda, isto vai dar merda, isto vai dar merda".

    A ansiedade é a inimiga número um da felicidade porque é companheira da autocrítica extrema
        Durante um ataque de ansiedade não há nada para além do medo. Nada. Há um peso galaxial que me esmaga o peito e me faz sentir que respirar, só por si, é uma coisa vitoriosa. As ideias fluem a mil e dividem-se entre o passado (recordar todas as coisas que fiz de errado ou que poderia ter feito melhor) e o futuro (sempre desastroso, sempre cheio de consequências de coisas que nem sequer fiz). 
        Divido-me entre o "isto correu-me mesmo bem" e o "só escrevo porcaria, nunca vou ter sucesso algum", entre o "estou numa fase tranquila" e o "mas quando é que a realidade me acorda e me mostra tudo o que vai correr mal?".

        A ansiedade é incompreensão
        Um ansioso é alguém sozinho. A minha ansiedade é sempre diferente da tua e não há como te mostrar a minha alma para que me percebas. E mesmo quando me tento explicar às minhas pessoas preferidas, sou incapaz de ultrapassar a sensação de que não me compreendem, de que não conseguem valorizar as coisas por que passo (ainda que dentro da minha cabeça). 
        Assim como me sinto impotente porque não consigo mostrar o meu pânico aos outros, percebo que eles se sintam de igual forma porque não conseguem matar os fantasmas que criei e carrego.
  
        Ter ansiedade é uma realidade com que lido todos os dias. Nuns, consigo que o mundo seja feito de todas as cores. Noutros, sou obrigada a lidar com os infinitos tons de cinza. E que estes últimos sejam cada vez menos.

terça-feira, 22 de março de 2016

Não vivemos o hoje por culpa dos supermercados.

    Os supermercados não nos deixam gozar o presente. Não deixam. Estão constantemente a impingir-nos o amanhã e não há como não constatar o impacto disso na sociedade que vive para o "é para ontem". 
         Em Outubro já há lojistas a lidar com o problema da impossibilidade de multiplicar o espaço, que tem de servir, em simultâneo, para o Halloween, para o Dia de Todos os Santos e para o Natal (que sobrevive até meados de Janeiro). E as pessoas começam a ficar inquietas. É o fato de vampiro para o Miguel, as prendas para os putos da família, amigos e filhos de amigos e filhos de outros que não são bem amigos nem familiares próximos mas convém dar para não criar atritos, as meias para os homens com mais de quarenta anos e as flores para a avó. Nem o dinheiro nem o tempo esticam. E os nervos aumentam.
          Depois, em Janeiro, as prateleiras continuam a estar recheadas de brinquedos renegados (pela sua falta de qualidade ou excesso de custo) e vêem os fatos de vampiro serem trocados pelos de palhaço e afins, para dar resposta ao Carnaval, que surgirá mais de um mês depois. E já se tem a ideia de páscoa a ecoar no fundo das cabeças, como uma espécie de ameaça que vem reforçar a ideia de que "ainda ontem era Natal". É que, para os supermercados, era mesmo. 

            Não há como não ficar neurótico. Andar em Continentes e Pingo Doces e outros que tais é ser confrontado, de forma brusca e extremamente forçada, que ontem era Natal e que hoje é Páscoa. Que ontem era Páscoa e que hoje estou a comprar protectores solares para o Verão. Que ontem comprei protectores solares para gozar o fim das férias e que hoje estou, de novo, a ver brinquedos tomar espaço nos corredores centrais dos supermercados. 

             A vida até pode ser um par de dias. Mas, se deixarmos isso nas mãos das superfícies comerciais, é só uma tarde.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

O comentário essencial a fazer sobre os Oscars



      O Jared Leto estava muito mais gatuxo nos ensaios do que na gala em si (e se me lembro dos Oscars 2014, choro, que, desde então, é facada atrás de facada no coração).
      Para quê aquela espécie-de-pantufas-que-devem-ser-Gucci e aquela flor-tipo-enfeites-dos-carros-da-Queima ao pescoço? Que te deu, Jared?

      Vejo o homem assim "mal vestido" e sou obrigada a reforçar o movimento pelo qual alinho: Jared nu, sempre.


       E pronto, para mim o fundamental a reter da cerimónia é isto.

sábado, 27 de fevereiro de 2016

Éramos todos Charlies até o Bloco decidir usar um cartaz com Jesus Cristo

        Em Janeiro de 2015 éramos todos Charlies. Todos. Andava eu na recta final de Erasmus e os aeroportos todos faziam questão de me enfiar o movimento hipócrita pelos olhos. Em Fevereiro de 2016 reclamamos respeito porque o Bloco de Esquerda decidiu criar um cartaz de celebração da aprovação da adopção por casais do mesmo sexo, com um slogan factual: Jesus Cristo tinha dois pais. Maria "engravidou", virgem, de Deus, pai espiritual de Jesus, e depois José criou a criança como sua, sendo, assim, o pai afectivo.
   
        A liberdade de expressão tem dois sentidos: podemos dizer o que nos apetecer (assumindo essa responsabilidade quando tal acarretar algum tipo de consequências) e estamos sujeitos a ouvir o que não queremos (porque os outros têm precisamente o mesmo direito que nós). Esta conquista do 25 de Abril cabe a todos. O direito que o mais iluminado tem de avançar com teorias novas que colocam o tido como certo em questão, é justamente o mesmo que cabe ao mais idiota que tem total liberdade de dizer as alarvidades que bem entender.

           Faz-me, ainda, muita confusão que as pessoas chocadas e ofendidas com o cartaz porque "atenta contra os seus valores" sejam as mesmas que seguem (pelos vistos, de forma cega) uma religião que condena os valores e direitos básicos alheios. Uma religião que não permite que uma pessoa se case de novo, que é contra a homossexualidade, que é misógina, ... Portanto: há opressões "de valores" válidas e outras não.

       Assim, e porque devia estar a estudar e não me apetece, escolhi uma mão de comentários à notícia do cartaz. Foi complicado escolher só estes, de entre tantos tão bons, mas cá segue o meu top:


            Li o primeiro comentário com admiração pela sensatez de alguém religioso. Depois cheguei ao segundo, de uma mulher ofendida porque aparentemente alguém atribuiu género a uma figura imaginária. 


           Este comentário fez-me lembrar o sketch em que o Ricardo Araújo Pereira imita Marcelo Rebelo de Sousa: Pode "brincar-se" com religião? Pode, mas é proibido.


          "Gestos e olhares". Bloco de Esquerda em modo "matas-me com o teu olhar".


            E pronto, este senhor faz a piada sozinho. Viva a liberdade de expressão.


          Por fim, noto, com espanto, que uma imagem criada pelo bloco, que não limita os direitos de ninguém, é alvo de petições para que haja punições e o diabo a quatro. Não vejo o mesmo empenho quando o PNR se decide manifestar com as suas posições, quase sempre, inconstitucionais. 
         Defender "valores" que passam pela opressão e restrição de direitos humanos é um exercício de liberdade. Fazer uma imagem, para ser partilhada no facebook, que inclua uma figura religiosa é um crime.


        "Vista à distância, a humanidade é uma coisa muito bonita, com uma larga e suculenta história, muita literatura, muita arte, filosofias e religiões em barda, para todos os apetites, ciência que é um regalo, desenvolvimento que não se sabe aonde vai parar, enfim (...). Porém, se a olharmos de perto, a humanidade (tu, ele, nós, vós, eles, eu) é, com perdão da grosseira palavra, uma merda." José Saramago

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

#1

“Fazes-me falta todos os dias. Uns mais que outros. Não, na verdade a falta é a mesma, eu é que a sinto de formas diferentes porque a vida não pode ser sempre madrasta.
Fugimo-nos. Fugiste-me. Foges-me. E ficas, todas as vezes, com um pedacinho meu que é teu, sempre. É teu por direito, porque o conquistaste, e porque é mais doce que haja qualquer coisa minha que fique contigo do que saber que nada meu há em ti.

Não há vez que não tenha vontade de te levar calor, de poder, com o abraço mais apertado do mundo, fazer esfumar todos os monstros, os medos, os anseios. Quero sempre perguntar-te mil coisas, descobrir outras tantas contigo. Peço à vida que te atravesses à minha frente, mais uma vez, e que te possa falar das minhas paixões (em tanto iguais à tuas), ouvir os teus desejos e medos e afundar os meus dedos na tua barba.
Mas tu foges-me, sem aviso, sem porquês. E eu gosto dos porquês. Quero sempre apresentar-te todos os que ficaram em suspenso, mas parece que a minha cabeça fez um pacto de silêncio com o coração. Nunca percebo a razão por que nos descolamos.

E depois, quando quase és pó ao vento, os nossos caminhos cruzam-se. De novo. E volta tudo à estaca zero como se, em momento algum, tivesse havido qualquer interregno. As conversas duram horas. Por vezes, dias. Memórias, ideias, futuros. E ficamos sempre próximos sem nunca o sermos.
Apetece-me sempre ter-te. Ter-te comigo, beber um copo de vinho, ouvir boa música, começar uma conversa sobre uma banda qualquer e acabar a discutir o estado da democracia no país. Talvez fosse suficiente dar uma volta, regressar ao banco de jardim à beira-rio. Sem pressões, sem preconceitos, sem expectativas. Despidos de medos.
E penso nisso e lembro-me de nós, do teu corpo. E quero-te mais. Quero-te sempre mais porque és a minha pessoa preferida.

I’m not waiting but I’m willing if you call me up
If you ever wanna be in love, I’ll come around”


in papeis-soltos-aqui-por-casa.